Sacrosanctum Concilium

Boa noite jovens Teólogos(as), a aula de hoje à noite foi um tanto quanto diferente, Pe. Berti e Pe. Leonel propôs aos alunos do 1º Ano de Teologia Pastoral acompanhar a apresentação do Serginho “Sacrosanctum Concilium” – Liturgia fonte e Cume da Igreja juntamente com outros seminaristas, como todos poderão ver nos slides apresentados durante a Palestra, sem mais, vamos rever os pontos principais da palestra, magistralmente apresentada por Serginho

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Agradeço a Pe. Berti e Pe. Leonel pela oportunidade

Bom final de semana abençoado a todos(as) os amigos(as)

Conselhos a um jovem Teólogo

Clodovis Boff  – Conselhos a um jovem Teólogo (material fornecido pelo Pe. Berti)

Dirijo-me a você, caro jovem, você que está começando o estudo da teologia. Para mim, você representa a teologia do futuro, de modo que, dirigindo-me a você, é como se eu falasse ao teólogo do III Milénio, que está às portas. Quero dirigir-me também a quem, mesmo não sendo jovem de idade, se interessa pelas coisas da fé, ainda que de modo informal.

Permita-me apresentar-lhe aqui uma espécie de decálogo. São dez leis para estudar bem teologia. “Leis” talvez seja uma palavra forte demais. Falemos então em “conselhos”. Acho que posso falar assim com você, do alto de meus 55 anos de vida e de meus 20 anos de ensino da teologia.

 Premissa: “Teologizar é preciso…”

Antes de começar, quero que você esteja bem convencido da importância e mesmo da necessidade de estudar teologia. Enfatizar que vale a pena gastar os dias a aprofundar o mistério de Deus, o que não deixa, aliás, de redundar em benefício próprio e de todo o povo.

É a muitos títulos que a teologia é necessária. Vejo pelo menos cinco instâncias diferentes que solicitam o estudo da teologia: a fé, o mundo, a vida, a época de hoje e a realidade social.

1. A fé pede teologia. É, em primeiro lugar, a própria fé que, por sua dinâmica interna, busca compreender o que crê. Todo “crente” verdadeiro é também, e a seu modo, um “teólogo”. Pois, a teologia é precisamente “a fé que deseja entender”, como a definiu magistralmente Sto. Anselmo. Sem o estudo, a fé facilmente cai na cegueira do irracionalismo e da superstição, ou na miopia da superficialidade e do sincretismo.

2. O mundo que existe pede teologia. A própria criação é um grito inarticulado por um Criador. A teologia nada mais faz senão recolher esse grito e articulá-lo racionalmente. E se você incluir na ideia de mundo o curso histórico, inclusive os eventos da Revelação, então a razão é interpelada no máximo de sua potência. Ela, que se interroga sobre tudo, não pode se esquivar de perguntas como: Que querem nos dizer os “enviados de Deus”, especialmente Jesus de Nazaré?

3. A vida pede teologia. Nós, os viventes, buscamos inelutavelmente o sentido último e radical das coisas. Por que a existência, a dor, a culpa, a morte? Como responder adequadamente a essas questões fundamentais e perenes sem recorrer a alguma teologia?

4. Nossa época pede teologia. A cultura moderna é essencialmente reflexiva: não se contenta apenas com o recurso à tradição, mas pergunta sempre pelo porquê de tudo. Mesmo a chamada razão pós-modema, embora prefira o “discurso fraco”, ela também precisa ser submetida a discernimento. Mais: as questões atuais com que a fé se vê confrontada são tão complexas que exigem reflexão elaborara da e rigorosa. Pense somente nas questões que põe hoje a economia (neoliberalismo, mercado, globalização, tecnologia, etc.); ou as que colocam as ciências modernas, como a biologia (clonagem, inseminação e gestação humanas em meios artificiais), a cosmologia (origem e fim do cosmos, leis constitutivas do universo, a hipótese de outros mundos habitados, etc.), a ecologia e poderíamos continuar.

5. A realidade social em que vivemos pede teologia. Qual é a missão dos cristãos frente aos grandes desafios sociais de hoje? Para confrontar seriamente a fé com esses desafios é preciso botar a razão teológica para funcionar. Sobretudo nós, no Sul do mundo, queremos saber como a fé pode ser fermento de libertação para a massa de excluídos do sistema social. Agora, se você incluir na realidade social a cultura, então surgem outras perguntas, tipicamente teológicas, como: Que sinais de Deus estão presentes nessa ou naquela cultura? Como inculturar aí as linguagens e as práticas cristãs?

Bem, meu caro amigo, parece-me que ficou claro porque é necessário e mesmo urgente fazer hoje teologia. Escute agora como proceder no estudo dessa ciência. Passo agora aos dez conselhos de que falei acima. No fim de cada ponto, procurarei trazer um ou outro testemunho dos grandes teólogos, para que você, apoiado na autoridade deles, se convença mais facilmente do que estou lhe dizendo.

conselho:

Antes de falar de Deus, ponha-se de joelhos e fale com Deus.

Essa é a precondição de base para qualquer boa teologia. Poderia também formulá-la assim: Não se atreva a fazer teologia sem antes ter feito a “experiência de Deus”. A teologia, antes de ser teologia racional, é “teologia genuflexa”, é “teologia devota”.

O sentido mais primitivo de “teologia”, entre os povos helénicos (que nos legaram essa palavra), era literalmente: “palavra sobre Deus” (theo-loghia). Referia-se a um “oráculo de Deus”, a uma “mensagem sobre Deus” ou ainda a um “hino de glorificação a Deus”. Portanto, a teologia tem, em sua raiz etimológica, o sentido de anúncio e de louvação.

A lição é clara: a teologia há de guardar a natureza de sua raiz: a fé. Ora, a fé cristã é uma relação de tu a Tu; uma relação que muda a pessoa. Ela é, antes de tudo, não um saber e nem mesmo um agir, mas exatamente um novo modo de existir: viver em Cristo, estar noamor de Deus, caminhar no Espírito. É, pois, a partir desse ser novo, entendimento e em seguida uma nova prática. Assim, a razão teológica é uma razão convertida, iluminada e transfigurada pelo contato vivo com o Deus vivo.

Analogamente às ciências, a teologia parte da experiência: a experiência de Deus pela fé e pelo amor. “Quem não crer não experimentará, e quem não tiver experimentado não compreenderá” – disse o grande Sto. Anselmo.

A teologia é um discurso “nativo”, feito a partir de dentro da fé. O discurso teológico se processa todo, nas palavras de S. Paulo, “da fé para a fé” (Rm 1,17). Dizia um grande mestre espiritual do Oriente antigo, Diádoco de Foticéia: “Nada é mais indigente que o pensamento que reflete, fora de Deus, sobre as coisas de Deus”.

Como insistia o maior teólogo evangélico do nosso século, Karl Barth, o tema da teologia não é um “objeto” qualquer, um “isso” anónimo e nem mesmo um “ele” indireto. É um “tu” que nos fala e que nos interpela pessoalmente. Seu tema é uma realidade pessoal, ou melhor ainda, uma realidade tri-pessoal.

Ouça, por fim, as palavras do maior teólogo franciscano da Idade Média, S. Boaventura, que, falando aos iniciantes da teologia, o Vaticano II recordou:

“Não creias que te baste a leitura sem a unção,a especulação sem a devoção, a investigação sem a admiração, a atenção sem a alegria, a atividade sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, estudo sem a graça divina, a pesquisa sem a sabedoria que vem de Deus”.

Antes de ser ciência, a teologia é sabedoria, no sentido duplo: de saber das coisas últimas e de “saber saboroso”. É por isso mesmo que Sta. Teresinha, sem ter feito teologia académica, foi declarada “doutora da Igreja”. Não teve o “amor da ciência”, mas teve a “ciência do amor divino”, nas palavras com que o Papa intitulou a Carta apostólica que a pôs no rol dos Doutores e Doutoras da Igreja.

 2° conselho:

Nunca perca de vista o tema central da teologia: o mistério de Deus.

Aqui já entramos diretamente no assunto próprio da teologia, ou seja, no seu “objeto formal”. Nesse ponto, é mister falar sem equívocos: o “objeto direto” da teologia é Deus, e nenhum outro. Isso está até na palavra “teologia”: estudo de Deus.

Parece uma banalidade dizê-lo, contudo, é preciso. Pois você sabe que o pensamento moderno frequentemente nos engana: ele nos induz a colocar, não Deus, mas o homem no centro de suas preocupações. É a pretensa “revolução copemicana” de que falou Kant. Infelizmente, certa teologia, no que foi em seguida chamada de “teologia liberal”, se deixou seduzir pela sereia da razão moderna e reduziu a teologia à antropologia. Mas, temos que resistir à perigosa tentação de estar sempre de bem com a modernidade e de buscar sua aprovação. Disso nos deu exemplo Karl Barth, com sua corajosa “teologia dialética”.

Pois, então, diga-me, caro irmão: Existe um assunto que mereça maiormente nossa consideração do que a questão “Deus”? Se “Deus” é a cifra que define o destino do ser humano do mundo, como não se debruçar sobre essa questão com o maior interesse e a máxima seriedade?

Escute nesse ponto, não um santo, mas um filósofo, e um filósofo pagão antigo, Aristóteles, “o mestre daqueles que sabem”. Falando da excelência da teologia (filosófica) sobre todas as outras ciências, declara solenemente: “A ciência mais divina é a ciência das coisas divinas. O pensamento soberano é o pensamento do bem soberano”. Esse pensador sumo recomendava à gente não se ocupar apenas com o estudo das coisas do mundo, mas buscar antes as realidades divinas.

Você objetará: Mas, então, onde ficam nisso a realidade, o mundo e a história sofrida dos homens e mulheres de hoje? Certo, essas coisas a teologia também leva em conta, porém sempre a partir e no vigor de seu tema primeiro e originário: o Mistério divino. Aliás, fique bem claro: somente à luz de Deus as realidades humanas adquirem seu significado profundo e completo.

A teologia, para ser teologia, tem que ser antes de tudo teológica. Depois, e só depois, a teologia será também política, libertadora, inculturada e tudo o mais que você queira. Mas se não for antes de tudo “teologia teológica”, não será teologia de verdade, mas apenas arremedo de teologia, ou qualquer outra ciência, camuflada de teologia e usurpando seu nome.

Esclareço que, quando digo “teologia teológica”, falo de um discurso que toma por seu tema principal, não um deus qualquer, mas o Deus da fé revelada, o Deus da Palavra, enfim, o Deus de Jesus Cristo.

Para calçar o que estou aqui querendo lhe dizer, valha o testemunho de Tomás de Aquino: “A teologia trata principalmente de Deus. Trata também das criaturas, mas na medida em que se relacionam com Deus”. Em outro passo confirma: “A verdade teológica se refere primeiramente e principalmente à Realidade incriada. Refere-se também às criaturas, mas como que conseqüencialmente”.

Escute por fim – agora ecumenicamente – outra voz, essa nos albores da Idade Moderna: a voz de Lutero. Esse diz, de modo ao mesmo tempo sintético e existencial: “O tema próprio da teologia é o homem perdido e o Deus salvador”.

conselho:

Seja a Sagrada Escritura o principal texto de referência de sua teologia.

Concílio Vaticano II declarou a Escritura a “alma” de toda a teologia (DV 24 e OT 16). E de fato a Escritura que dá vida, unidade e movimento è teologia. Claro, por trás da Escritura temos a Palavra viva de Deus, e por trás da Palavra a pessoa de Cristo, o Verbo encarnado.

A Escritura é o “testemunho primário” da Revelação, sua fonte originária. Para a teologia, todas as outras fontes: Padres, Doutores, Concílios, Papas, Bispos, Teólogos, Liturgias, Legislações, etc. são apenas “testemunhos secundários”. Agora, contra todo “biblicismo”, saiba também que a Escritura não pode ser dissociada da Igreja nem da grande Tradição, mas mantém com ambas uma relação dialétíco-crítica.

Na verdade, tanto do ponto de vista histórico como estrutural, a teologia não passa de um desdobramento da Palavra de Deus, seja na forma de comentário (exegese), seja como reflexão aprofundada (dogma), seja ao modo de aplicação prática (moral, espiritualidade).

Guarde bem isso na sua mente: a Escritura deve ter na teologia o “primado hermenêutico”, exatamente porque ela é o locus theologicus n° l .

Ouça agora, a propósito disso, o testemunho de dois autores que já encontramos, um medieval e outro moderno. Vamos ao primeiro, o que diz S. Boaventura:

“Quem quiser aprender teologia, busque a ciência na sua fonte: a Sagrada Escritura. Pois junto aos Filósofos não existe a ‘ciência da salvação para a remissão dos nossos pecados’; nem mesmo junto aos Santos Padres e nem junto aos Doutores. O discípulo de Cristo deve estudar em primeiro lugar a Sagrada Escritura. É mister, pois, que o teólogo tenha ao alcance da mão o texto completo da Sagrada Escritura, de outro modo, nunca será um expositor preparado da Escritura”.

O segundo testemunho é de Barth:

“O teólogo não será nenhum ‘doutorzinho’ que tivesse o direito de conceder ou de tirar a palavra aos Profetas e Apóstolos, como se fossem colegas de faculdade. Menos ainda será como um professor ginasial, com a tarefa de olhar por sobre os ombros dos autores bíblicos, para lhes corrigir os cadernos e dar-lhes nota. Mesmo o menor, o mais esquisito entre essas primeiras testemunhas da Revelação se acha à dianteira de qualquer teólogo, por mais piedoso, douto ou perspicaz que seja. O lugar da teologia é definitivamente abaixo dos escritos bíblicos. O teólogo, sim, terá de permitir, de bom grado, que os hagiógrafos lhe olhem sobre os ombros e lhe corrijam os cadernos”.

4° conselho:

Sua teologia deve permanecer vitalmente ligada à Comunidade de Fé: a Igreja.

A fé, que é ao mesmo tempo o tema e o fundamento da teologia, é uma herança coletiva: pertence a todo o Povo de Deus, a Igreja. Portanto, só pela Igreja é que se tem acesso à fé e, por essa, à teologia. E como a fé sempre busca entender, o sujeito primário da teologia é igualmente o sujeito da fé: a Igreja.

Você vê, por aí, que a teologia tem um estatuto essencialmente eclesial Por isso mesmo Barth, que tinha inicialmente chamado sua grande obra de “Dogmática cristã”, mudou-lhe mais tarde o nome pelo de “Dogmática eclesial”.

Ora, se a eclesialidade é intrínseca à teologia, esta nunca será apenas um “negócio privado”. Será antes uma atividade comunitária e a serviço da comunidade. Você talvez ouviu falar da existência, no Primeiro Mundo, de “teólogos livres”. Pois bem, este fenómeno é, a rigor, um contra-senso, uma anomalia, enquanto expressão de “parasitismo religioso”.

E porque não existe Igreja sem hierarquia, fica evidente que o Magistério hierárquico é um elemento interno da teologia. Certamente, o Magistério pode fazer violência à teologia e aos teólogos, mas esta é uma questão de fato, não de direito. Ou seja: se acontece , algo está errado. Mas não precisa que seja assim.

Do que foi dito, fique claro para você que o teólogo é realmente uma figura eclesial: é um membro da Igreja, um servidor do Povo de Deus.

Mas – e preste aqui atenção à segunda parte de nosso conselho – a comunhão viva do teólogo com a Igreja deve ser entendida não só na contemporaneidade, mas também na sucessão dos tempos. Falamos aqui da Tradição. A Tradição representa o legado de nossos antepassados: os Padres e os Doutores, os Credos e os Concílios, a Liturgia e o Ensino dos Pastores. Como desprezar toda esta riqueza? Por isso mesmo, para você aprender bem teologia, precisa ouvir a “voz dos mestres”, aprender as “lições dos clássicos”.

Cuide, porém, para não confundir Tradição com tradicionalismo. A tradição é um processo dinâmico, aberto, criativo. Um grande especialista no assunto, Yves Congar, gostava de repetir a afirmação de Péguy:

“Só se supera bem uma tradição recente por uma tradição mais antiga.” Contra o tradicionalismo, Tertuliano lembrou: “Cristo não disse eu sou a tradição, mas eu sou a verdade”. Você pode achar paradoxal, mas a Tradição é a base de toda verdadeira inovação. De fato, a Tradição da fé deve ser articulada em termos da continuidade, sem dúvida, mas também em termos de ruptura: continuidade quanto à substância e ruptura quanto à forma. S. Vicente de Lérins dizia: “Quando dizes de modo novo, não digas coisas novas”.

 conselho:

Mantenha sempre viva a consciência da pobreza da linguagem humana frente ao Mistério.

Toda palavra humana a respeito de Deus é sempre inadequada. “Deus é sempre maior”, em particular, maior que todas as nossas falas.

Nosso discurso sobre o Criador é sempre indireto e mediado: passa pelas criaturas. Neste sentido é um discurso “alusivo”. Faz-se por comparações com as coisas criadas. A palavra técnica aqui é “analogia”.

E enquanto analógica, toda linguagem religiosa é sempre imperfeita. Também quando parece perfeita, quando, por exemplo, chamamos Deus de absoluto, transcendente ou perfeito. Pois, embora esses sejam, em si mesmos, conceitos próprios de Deus, são, na realidade, impróprios no modo de sua representação, que é inevitavelmente humano.

A linguagem da teologia é analógica também e sobretudo porque usa metáforas ou símbolos. Isso acontece principalmente na Bíblia e no discurso religioso do povo em geral. Ademais, trata-se de uma linguagem mais negativa que positiva. Assevera Sto. Tomás: “O último grau do conhecimento de Deus é saber que nada sabemos do que Ele é”.

Finalmente, a linguagem sobre Deus é apofática, isto é, inefável. Nesse momento, para além (não para aquém) de todas as palavras, honra-se o Mistério insondável através do silêncio. É o duplo silêncio: da adoração recolhida e da obediência ativa.

Na “teo-logia”, o “theos” se apresenta sempre maior que toda “loghia”. Ou seja: o tema aqui atropela constantemente a linguagem. Por isso, a razão teológica é uma “razão crucificada”; e a cabeça do teólogo, uma cabeça “coroada de espinhos”. A razão teológica aparece, aos olhos da racionalidade mundana, como “desrazão” ou loucura, como viu muito bem S. Paulo (cf. ICor 1-2).

O maior teólogo reflexivo e sistemático da Igreja, S. Tomás de Aquino, foi assaltado, nos últimos meses de sua vida, por uma crise violenta. Foi quando declarou que, em comparação com o que estava espiritualmente sentindo, sua teologia lhe parecia… “palha”. Deixou a Suma Teológica incompleta, como uma catedral inacabada, símbolo eloquente de que nenhum sistema conceituai, por mais genial que seja, pode abarcar o Infinito.

De tudo isso você pode tirar uma lição importantíssima: no estudo da teologia deve-se cultivar um profundo “senso do Mistério”, feito de reverência e de humildade frente ao Deus infinito. A Bíblia chama com muita propriedade essa atitude de “temor do Senhor”. Por seu lado, estudiosos da religião falam do sentimento do “sagrado” como da experiência do tremendo e fascinante. Precisamente, por ser tremendo, o sagrado repele para longe; mas por ser fascínio, atrai poderosamente e desperta curiosidade, ou melhor, suscita interesse, encantamento. Donde o conselho seguinte.

6° conselho:

Tenha paixão pelo conhecimento de Deus e das coisas de Deus.

Apesar, ou melhor, por causa da transcendência do Mistério sobre todo o pensamento e toda a linguagem, o teólogo tem o dever sacrossanto de pensar e de falar sem medo acerca do Mistério divino. Na comparação de Ricardo de S. Vítor, a razão do teólogo é como a burrinha de Balaão: avança sob os golpes das esporas da fé, mesmo se o caminho parece interditado pelo anjo do Mistério, com sua espada nua.

Em sua célebre Carta 120, dirigida a um noviço em teologia, o Doutor de Hipona declara a razão que o leva a escrever: “É para mover sua fé ao amor do conhecimento”. Mais adiante recomenda: “É com ardor que você deve se aplicar ao conhecimento da realidade divina”. Exorta, finalmente, o debutante à oração, sem a qual não se faz boa teologia: “Ore para que Deus te dê o entendimento”.

Você poderia pensar que o Mistério é obscuridade. Mas não. O Mistério é um “abismo de luz”, e de uma luz tão deslumbrante que ofusca a razão. É, pois, pelo excesso do esplendor divino que a pobre razão humana fica como que cega. O Mistério não é o limite do conhecimento mas o conhecimento de nosso limite frente o ilimitado. Por isso mesmo, o Mistério representa a mais forte provocação à potência da racionalidade. E porque Deus é fascinação, encanto e deslumbramento, aqui também, e sobretudo aqui, o maravilhamento divino é o princípio genético e permanente do qualquer estudo teológico de qualidade.

 Por tudo isso, evite a tentação de ceticismo em relação ao alcance da razão, tentação essa que volta hoje sob vestes pós-modemas na forma do “pensamento fraco”. Não tenha medo de “ir fundo” na penetração do Mistério divino. Foi para encorajar o voo da razão em direção do céu da transcendência que João Paulo II escreveu a robusta encíclica Fides et Ratio. Aí o Papa salienta a importância, para a teologia, do estudo da filosofia, pelo qual a razão se fortalece em sua “capacidade metafísica”, a fim de penetrar na essência das coisas e abrir à mente humana o acesso às verdades universais e perenes.

Mas na raiz de todo estudo há que haver uma paixão fundamental: a paixão pela luz, o amor ardente pela verdade. Ora, dissemos acima que a teologia é a fé desejosa de conhecer, amante de inteligência, buscadora de sentido. É a fé inflamada pela luz do saber. Sem uma fé “curiosa”, no bom sentido, nunca se terá um bom teólogo, mas apenas um burocrata do saber religioso.

Você pode assim perceber que a teologia é movida por um “eros”, ou seja, por um interesse afetivo veemente, por uma atração quase física pelo mistério de Deus. É isso que sustenta e anima o empenho intelectual do teólogo, tanto em suas leituras, estudos e reflexões, quanto em suas pesquisas, elaborações e criações.

Portanto, se você quiser ser um bom estudante de teologia, terá que expulsar para bem longe este vício: a preguiça mental, essa irresponsabilidade típica no uso da razão.

Não interprete o que estou dizendo como o elogio ao academicismo, mas sim como um estímulo ao estudo das coisas de Deus, ao mesmo tempo em que o advirto sobre os perigos do fídeísmo barato e indolente, que se contenta com a desculpa vulgar: “Não adianta explicar: são coisas da fé”.

Quero terminar também esse conselho com alguns testemunhos. Ouça em primeiro lugar o grande mestre medieval, Ricardo (+1173), da célebre Escola de S. Vítor em Paris. Veja como ele exortava seus ouvintes ao estudo da teologia:

“Lancemo-nos em direção à perfeição da fé, que é o conhecimento teológico. E por toda a série de progressos possíveis, avancemos apressadamente da fé para o conhecimento. Façamos todos os esforços possíveis para compreender aquilo que cremos. Pensemos no ardor dos mestres profanos e nos progressos que fizeram, e envergonhemo-nos de nos mostrar inferiores a eles em nosso trabalho. O amor da verdade deve ser em nós mais eficaz do que neles o amor da vaidade. Será preciso que em nosso campo nos mostremos mais capazes, nós que somos dirigidos pela fé, arrastados pela esperança e impelidos pela caridade!”.

O segundo testemunho é de um dos maiores teólogos do século XVI, pai do Direito Internacional e defensor dos índios da América, oprimidos pêlos Conquistadores espanhóis, Francisco de Vitória. Num passo autobiográfico, ele confessa:

“Ainda que alguém passe toda a vida no estudo da sagrada teologia, não avançaria tanto quanto reclama a matéria. Eu, que durante vinte anos e mais me consagrei com todas as minhas forças ao estudo da teologia, a mim me parece que ainda não passei das portas. Se pudesse viver cem anos, passá-los-ia agradavelmente nesses estudos”.

7° conselho:

Faça uma teologia que esteja a serviço do Povo de Deus.

Teologia — para quê? — você pode se perguntar. Estuda-se teologia não por interesse pessoal, ou por mera satisfação individual, como uma forma de “arte pela arte”. Não. A teologia é “serva da fé”. Teologizar é um serviço eclesial. É, em suma, uma forma de amar.

Que a teologia esteja toda voltada para a fé, é o que afirma a célebre definição de Sto. Agostinho: “A ciência da teologia compete somente aquilo que contribui para a fé salvadora, no sentido de gerá-la, alimentá-la, defendê-la e fortalecê-la”.

A teologia existe para ser comunicada, para enriquecer a pastoral, pára produzir “vida eclesial”, enfim, para servir ao povo e à sua salvação. Por quê? Porque o Mistério de Deus não é apenas para se saber, mas sobretudo para se crer, amar e obedecer. As verdades da fé são “verdades salvíficas” e não verdades meramente teóricas.

Se assim é, o momento prático da teologia é, não só constitutivo de seu processo, mas é também seu termo: aí se consuma a teologia. A propósito, ter enfatizado o lado prático da teologia foi um dos méritos das “teologias da ação” que se afirmaram depois do Vaticano II. A teologia da libertação afirmou com particular insistência que a práxis é o “ato primeiro” da teologia, vindo a teoria somente depois, como “ato segundo”.

Já na Idade Média, a escola franciscana tinha defendido a dimensão prevalentemente prática da teologia. S. Boaventura, por exemplo, diz que a teologia existe para ajudar a “nos tomarmos melhores e a nos salvarmos”.

 Sim, a teologia existe para servir, mas cuidado para não ir – como diz o povo – “com muita sede ao pote”. Ou seja: não se deve instrumentalizar a teologia, assim, sem mais. Seria cair no erro do pragmatismo e, com o tempo, na superficialidade e na repetitividade.

Para servir bem à prática, a teologia tem que estar assentada numa boa teoria. A própria prática, para ser verdadeira, pede uma fundamentação na verdade. O estudo paciente é percurso incontomável de uma boa prática. Sem a mediação de uma teoria consistente, não tem prática que se aguente em pé.

Portanto, para encontrar as boas repostas pastorais, é preciso ter um adequado lastro teológico. Para isso, é preciso concentração no estudo e ao mesmo tempo gratuidade na busca da verdade. Como disse o Mestre Barth:

“Quem nunca se deixou empolgar seriamente pêlos problemas teológicos como tais nunca será um pastor que se poderá tomar a sério, e chegará a hora em que não terá mais nada de essencial a dizer às pessoas”.

Não tenha medo de dar tempo e esforço ao estudo da teologia, especialmente durante o tempo em que cumpre o currículo básico. Não seja impaciente, perguntando a cada passo: “Para que me servirá isso ou aquilo?”, e querendo respostas imediatas para todo e qualquer problema prático-pastoral. Isso é cair na “teologia de receitas”. Lembre-se que “nada é mais prático do que uma boa teoria”.

Portanto, aproveite bem do período da formação inicial, concentrando-se a adquirir aqueles princípios fundamentais e aquelas regras essenciais que lhe permitirão, mais tarde, em plena atividade pastoral, bem discernir as situações em que se achar envolvido e encontrar as saídas mais criativas e evangélicas.

8° conselho:

Que sua teologia leve sempre em conta a realidade do povo.

Se o marxismo teve méritos, um deles foi a crítica à “alienação” como fuga da realidade concreta. Ora, a acusação de “alienação” é para desqualificar hoje qualquer teologia. Mas, quando falo aqui em “realidade”, penso na “realidade da vida” em geral e não só na realidade social ou histórica. Refiro-me, pois, aqui à “vida da gente” e não só à “problemática social”.

Quero dizer que a teologia precisa estar largamente aberta a toda a aventura humana, ser sensível à vida das pessoas, aos problemas do “homem da rua”. Pois, enfim, os 3/4 da fé se vivem no cotidiano. A teologia é para a gente comum e não para uma elite. Parafraseando a abertura da Gaudium et Spes, se poderia muito bem dizer que “as alegrias e esperanças do mundo, especialmente dos pobres e sofredores, são as alegrias e esperanças do teólogo.”

No grande leque da realidade da vida de hoje, podemos detectar, com dois teólogos nossos, Libânio e Murad, cinco grandes “enfoques”. Pois, mais que de temas, trata-se de perspectivas transversais, que podem e devem informar todos os temas da teologia. São os enfoques seguintes:

1. O enfoque sócio-libertador, que consideramos hoje, não o mais importante (este será sempre o “problema de Deus”), mas o mais urgente e dramático. Tomou corpo na chamada “teologia da libertação”, mas constitui hoje uma dimensão amplamente assumida por toda teologia consciente de sua responsabilidade social.

2. O enfoque feminista, que já tem toda uma história mas que precisa ainda penetrar mais profundamente na visão de toda teologia que se queira integralmente humana, a saber: feminina e masculina.

3. O enfoque étnico, que busca integrar na visão da fé as cores todas do arco-íris cultural, especialmente, entre nós, as culturas indígenas e negras.

4. O enfoque ecuménico, que se esforça por levar em conta as óticas das outras confissões cristãs (“ecumenismo” no sentido estrito, como busca da unidade entre as igrejas cristãs) e também as riquezas das outras religiões (diálogo inter-religioso ou “macro-ecumenismo”),

5. O enfoque ecológico, que considera toda a criação como a “casa comum” dos humanos, dos seres vivos e de todos os seres criados em geral.

Permita-me aqui acrescentar mais alguns enfoques transversais. Em primeiro lugar, o enfoque psicológico. Será que a teologia não deveria levar mais em conta as aquisições atuais das correntes modernas de psicologia, em seus estudos sobre a sexualidade, as emoções e a afetividade em geral?

Em seguida, será que a teologia não deveria também ser mais atenta ao enfoque da paz? Este pleiteia pelo desarmamento nuclear e pela não-violência como atitude de base nas relações sociais, internacionais e ambientais, e mesmo como filosofia de vida a ser vivida no cotidiano.

 Finalmente, você não acha que se deveria também colocar o enfoque espiritual como dimensão englobante de toda teologia, ainda mais hoje, em que a humanidade anseia desesperadamente por “experiência religiosa”?

Mas, cuidado: todos estes enfoques não devem de modo algum substituir e nem mesmo enfraquecer o enfoque originário, principal e específico da teologia, que é o enfoque da fé. Devem antes se apoiar nele e de certa forma desdobrá-lo. Assim, por exemplo: está certo que devemos estar atentos a considerar como o negro, a mulher, o budista ou o pobre vêem a Deus, a vida ou a morte. Mas o que importa finalmente, depois daquela primeira visão, é refletir como Deus mesmo vê o negro, a mulher, o budista e o pobre.

9° conselho:

Não esqueça de desdobrar a dimensão sócio-libertadora da fé.

Evoquei há pouco o enfoque sócio-libertador. Quero agora dar um destaque especial a esta dimensão importante da “realidade” que é a “vida social”. O enfoque social mostra-se hoje urgente em todo o mundo, uma vez que a globalização generalizou os problemas, mas é especialmente relevante no Sul do mundo, onde a “questão social” adquiriu formas e cores de particular gravidade.

A Gaudium et Spes, que há pouco citamos, falava nos “sinais dos tempos”, como sendo os grandes fenómenos que movem nossa história. Esta Constituição nos ensinou, não só na teoria mas também na prática, que devemos levar muito a sério os “sinais dos tempos”. Estes — diz-se aí — devem ser, em primeiro lugar, observados e analisados cuidadosamente pelo teólogo, para serem em seguida interpretados e discernidos à luz da fé (GS 4; 11; 44; 62).

Aliás, acolher a realidade social, inclusive cultural, é exigência de toda teologia que se queira realmente “católica”. Esta deve poder hospedar o não-teológico para transformá-lo em teológico, percebendo nele as “sementes do Verbo” ou, na expressão da declaração conciliar Nostra Aetate (n. l), os “lampejos da Revelação”.

A teologia atual é chamada a dar relevo aos problemas da jusüça e da igualdade, dos direitos humanos e sociais. Ela deve estar especialmente atenta à necessidade de mudanças e à busca de alternativas frente aos impasses do atual sistema neoliberal. Ora, é para estas coisas que grita e clama ainda hoje a “teologia da libertação”.

 Mas seu estatuto epistemológico tem que ser atualmente posto em novos termos, motivo pelo qual aproveito aqui esta ocasião para encaminhar, ainda que de forma sumária, o equacionamento dessa árdua questão.

Você poderá pensar que a teologia da libertação é uma teologia à parte, completa e independente, de modo que pode se apresentar como uma teologia substitutiva ou alternativa à teologia “clássica”. Mas digo-lhe com franqueza: para mim, você está equivocado. Pode ser que a teologia da libertação no passado tenha aparecido assim. Mas está ficando cada vez mais claro que ela representa não uma teologia integral, mas antes uma dimensão interna e integrante de toda teologia cristã. A teologia cristã, ou é “de libertação”, ou não é cristã.

Neste sentido, a afirmação de João Paulo II, em conhecida Carta aos Bispos do Brasil (9 de abril de 1986), constitui, a meu ver, a posição mais clara, precisa e, de certa forma, definitiva do Magistério a respeito da teologia da libertação. Diz aí o Papa:

“A teologia da libertação é não só oportuna, mas útil e necessária. Ela deve constituir uma nova etapa — em estreita conexão com as anteriores — daquela reflexão teológica iniciada com a Tradição apostólica e continuada com os grandes Padres e Doutores, com o Magistério ordinário, extraordinário e, em época mais recente, com o rico património da Doutrina Social da Igreja”.

A partir daí fica também provado que a “história” de que a “teologia da libertação foi condenada pelo Vaticano” é uma invenção. A verdade é que o Vaticano aprovou globalmente a “teologia da libertação”, embora fazendo em relação a ela sérias reservas, especialmente duas: o perigo da politização extremada da fé e os riscos implicados no uso do marxismo.

A libertação social não é e não pode ser a única e nem mesmo a mais importante dimensão da teologia cristã, embora possa ser em certos momentos e em determinados lugares a mais urgente. É laborar em erro pretender fazer “só teologia da libertação”. Temos que fazer, sim, teologia integral, incluindo nela a perspectiva da libertação.

Você volta à carga e me pergunta se a teologia da libertação já não é uma teologia “superada”. Respondo que não, se se entende “superada” no sentido vulgar de passada, morta. Ao contrário, a exigência por teologia da libertação nunca foi mais “oportuna, útil e necessária” do que hoje, em tempos de exclusão social. Por outro lado, diria que é, sim, uma teologia “superada” no sentido dialético de “superação inclusiva”: ela não acabou (existe ainda), mas, de certa forma, “desapareceu”, feita torrão de açúcar diluído no café: não se vê mais, mas dá sabor a todo o café. Por isso, essa teologia é hoje menos visível, mas nem por isso menos presente e operante.

A questão de saber se se deve ou não continuar falando hoje em termos de “teologia da libertação” é, a meu ver, uma questão absolutamente secundária. Mais do que uma questão teórico-veritativa, trata-se aí de uma questão retórica: se convém continuar usando essa expressão na prática pedagógica, pastoral ou política. É no fim uma questão de saber se falar assim é ou não “politicamente correto”. Para mim, o que é “teoricamente correto” (e é isso que me interessa) é falar, não em “teologia da libertação”, mas, simplesmente em “teologia”, sob a condição, contudo, de se incluir aí a constitutiva dimensão libertadora da fé. Assim, a rigor dos termos, o que existe não é propriamente uma pleonástica “teologia da libertação”, mas sim uma “teologia com dimensão libertadora”, como deve ser toda boa teologia, que se queira realmente evangélica.

Na realidade dos fatos, a teologia da libertação já se tomou, em grande parte, a “teologia normal”, a saber, a teologia regularmente administrada nos institutos teológicos mundo afora. Assim, quando se fala hoje em “teologia” entende-se cada vez mais “teologia-com-dimensão-libertadora”. Se isso é verdade, então as demandas da “teologia da libertação” foram em boa medida incorporadas pela prática teológica universal. Mas lá onde tais demandas ainda estão longe de serem honradas, é mais que legítimo, quando não por razões de boa polémica, que se continue a falar na necessidade de se fazer “teologia da libertação”.

 10° conselho:

Faça teologia com o ouvido aberto ao pobre.

Se o olho do teólogo tem que ser o olho de Deus, seu ouvido tem que ser igualmente o ouvido de Deus. Ora, o ouvido de Deus é inclinado para o clamor do pobre. “Vi a aflição do meu povo e ouvi o seu grito” (Ex 3,7). A teologia deve, pois, honrar o lugar privilegiado que Deus concedeu ao pobre no seu Plano de Salvação. Por outras palavras: a “opção preferencial pêlos pobres” não vale só na política e na pastoral, mas também na teologia.

Quando digo “pobre”, entendo essa categoria em seu sentido bíblico, que é ao mesmo tempo concreto e amplo, incluindo desde o pobre sócio-econômico até o pecador. “Pobre” refere-se, em suma, a todos os sofredores e perdidos deste mundo.

Mas saiba, meu amigo, que fazer em teologia “opção preferencial pêlos pobres” significa muitas coisas. Significa, em primeiro lugar, estar em contato vivo, ainda que mínimo, com o mundo dos pobres. Sente-se imediatamente, pelo assunto escolhido, pela linguagem e pelo estilo do discurso, se um teólogo conhece os pobres “por ouvir falar” ou se os conhece por convivência direta.

Optar pêlos pobre, em teologia significa, também, pôr os pobres como os primeiros destinatários de nosso discurso e dar a seus problemas um lugar de destaque em nossa reflexão. Significa, enfim, considerar os pobres como “mestres” na fé, pois seu sofrimento é cátedra que instrui o teólogo a respeito dos mistérios de Deus. Você pode imaginar quanto a teologia aprendeu em contato com os últimos!

Há quem tenha mostrado medo em falar no “privilégio epistemológico e hermenêutico dos pobres”. Entretanto, o fundamento desse privilégio é evidente. Jesus mesmo declarou que o Pai tinha revelado aos pequeninos seus segredos, enquanto os havia escondido aos sábios e entendidos deste mundo (cf. Mt 11,26). S. Paulo também afirma claramente que nenhum dos “poderosos deste mundo” conheceu a sabedoria que vem de Deus (cf. ICor 2,8), mas antes que “Deus escolheu o que é loucura no mundo para confundir os sábios” (1Cor 1,27).

Ademais, a própria consciência da humanidade já tinha intuído que a pobreza e o sofrimento abrem caminho para a sabedoria. O profeta doloroso que foi Nietzsche estava convencido de que a dor era o caminho mais curto para a verdade. Sim, por sua fé e por suas lágrimas, os pobres dispõem de um atalho providencial para chegar ao sentido da vida, em vez da tortuosa via dos filósofos. É que o Espírito leva os humildes pela mão, enquanto com a outra repele os “argumentadores deste século” (Icor 1,20).

Então, amigo, se você quiser ser teólogo de verdade, precisará ter uma profunda “afinidade eletiva” com os pobres. Pois, como insistiu Jon Sobrino, a razão teológica é uma “razão compassiva” e sua inteligência, um intellectus misericordiae.

Fecho: o elogio da teologia

Amigo, para terminar, quero ainda encarecer a seus olhos a importância da teologia, mostrando agora sua grandeza. Começo com esta afirmação aparentemente pretensiosa: a teologia é uma ciência digna só de Deus. Mas é verdade. O genial teólogo Duns Scotus defendia que só Deus mesmo é “teólogo absoluto”, enquanto que nós, humanos, somos apenas “teólogos relativos”. De fato, só Deus conhece bem Deus.

Aliás, isso já tinha sido, de certa forma, afirmado por Aristótelés, quando definiu Deus como “pensamento do pensamento”. Para ele, Deus estaria, de eternidade em eternidade, “fazendo teologia”, única atividade à altura de sua grandeza imensa.

Nunca se foi tão longe na demonstração da dignidade altíssima da teologia. Quanto às realidades criadas e aos seres humanos, a teologia – como vimos – se ocupa delas também, mas não quanto ao seu funcionamento, mas quanto ao seu destino. Como dizia de modo muito pertinente Galileu Galilei, a teologia não discute “como vai o céu”, mas “como se vai para o céu”, e isso é muito mais decisivo. O que lhe interessa não é o curso do cosmos, mas o seu sentido derradeiro. Se a sociedade hoje perdeu a bússola e caiu no pragmatismo barato, é porque ela não olha mais para o grande horizonte da teologia. Essa, sim, coloca as questões do sentido, a partir das quais todas as outras encontram seu lugar e seu valor.

Eis, meu jovem amigo, o que tinha a lhe dizer para você amar a teologia e empenhar-se a fundo em seu estudo. Só me resta desejar que você siga os passos de Maria de Nazaré, que, enquanto “conservava todas as coisas, meditando-as em seu coração”, representa o ícone de todo verdadeiro estudioso de teologia. Assim, iluminado como ela pelo Espírito, você será conduzido, de verdade em verdade, até a “verdade plena”. Amém.

Sugestão: Faça vc mesmo o 11º Conselho a um Jovem Teólogo, baseado em tudo que vc leu e aprendeu sobre Teologia até o momento!

Termino com:

Temores de um Jovem Teólogo (Para fazer pensar mais ainda)

Temo ser um teólogo descompromissado com a minha gente, o meu povo, com a vida.

Temo ser um teólogo que, afastado do povo, não sinta suas dores, seus medos e angústias.

Temo ser um teólogo que, amando mais a teologia, ame menos as pessoas.

Temo ser um teólogo que avalia o outro pela teologia que defende, no lugar de sua devoção a Deus e compromisso com o outro.

Temo ser um teólogo fatalista, que vê o futuro como evento inexorável, determinista, incapaz de ser transformado por ações mais humanas do que divinas.

Temo ser um teólogo sem Deus, que ame mais a teologia de Deus do que o Deus da teologia.

Temo ser um teólogo que não encontra sentido para sua presença no mundo.

Temo ser um teólogo adaptado à cultura de meu tempo, incapaz de refletir a respeito dela.

Temo ser um teólogo sem teologia.

Temo ser um teólogo caduco em um mundo em constante transformação.

Lanço estas questões a respeito dos Temores de um Jovem Teólogo:

Afinal o que é a teologia e qual o papel do teólogo no mundo? Por que fazemos teologia? Para quem teologizamos?

Paz amados(as)