Apócrifos e Pseudo-Epígrafos da Bíblia

Uma introdução histórica e crítica aos apócrifos do Segundo Testamento (ST) é o objetivo primeiro deste nosso ensaio. Ousamos reler o cristianismo nos seus sete primeiros séculos, a partir dos oitenta livros apócrifos. A obra inicia com uma breve introdução geral à Bíblia, de modo que o leitor possa, de antemão, visualizar os apócrifos no cenário bíblico canônico (inspirado). O conteúdo de cada apócrifo está situado no seu contexto histórico, político e eclesial, numa linha do tempo. De outro modo, não se pode falar dos apócrifos. Caso contrário, eles serão simplesmente rechaçados como falsificações de uma verdade histórica, assim como sucedeu até os nossos dias.   

Partimos do pressuposto de que o maior intento do cristianismo que se tornou hegemônico, dentre outros tantos cristianismos de origem, foi o de afirmar e comprovar a historicidade de Jesus, morto e ressuscitado, como realização das promessas do Primeiro Testamento (PT). Assim, o cristianismo se justificou diante do império como religião antiga e ganhou credibilidade. 

O nosso estudo teve o cuidado de fazer uma leitura teológica, histórica, crítica, ecumênica e pastoral dos apócrifos na história do cristianismo. Procuramos, a partir de todos os livros apócrifos do Segundo Testamento, compreender os fundamentos do cristianismo hegemônico e sua relação com os cristianismos apócrifos, classificados por nós de aberrantes, complementares e alternativos. Algumas temáticas também foram aprofundadas a partir dos apócrifos, tais como: a questão de gênero, a virgindade, a não-reprodução, a traição de Judas e a história de Maria.   

O(a) leitor(a) se surpreenderá ao ver a sua visão de fé sendo discutida e definida ao longo dos séculos, em temas como: ressurreição, morte, sofrimento, martírio, sexualidade, virgindade, instituição eclesial, etc.   

O objetivo deste estudo não é defender a canonicidade dos apócrifos, sejam eles meramente cristãos ou cristãos gnósticos, mas dialogar com a fé primeva de nossos antepassados. Se o cristianismo que hoje professamos e vivenciamos, em qualquer que seja o ramo ou a igreja, é sólido, é porque ele se dignou ser aquele que mais se aproximou do evento histórico Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado.

Atos apócrifos de Judas Tadeu e Simão

“A história destes dois apóstolos é contada em um único relato em Memórias apostólicas de Abdias. A ação apostólica deles é realizada em conjunto.
Judas Tadeu é um dos apóstolos mais populares. Todo dia 28 de cada mês, igrejas lotam para prestar-lhe homenagem. O seu dia é 28 de outubro.
Foi Santa Brígida da Suécia (1303-1373) que propagou a devoção a São Judas Tadeu como Santo das causas urgentes. Jesus lhe teria aparecido aconselhando a invocar São Judas Tadeu para resolver os seus problemas.

Perfil
Nome: Judas é um nome comum entre os judeus. Tadeu significa “o corajoso”. Simeão é o diminutivo de Samuel e significa “Deus ouviu”. Simão era chamado também de Cananeu ou o Zelota.
Parentesco: Tadeu e Simão eram considerados irmãos (Lc 6,16).
Morte: Ambos morreram martirizados no dia primeiro de julho, na cidade de Suanir, por se negarem a sacrificar aos ídolos.

Principais feitos apostólicos narrados nos Atos Apócrifos
• Ambos travaram batalha teológica e doutrinária com os magos Zaroém e Arfaxat, da Pérsia.
• Na Babilônia, eles realizam curas, milagres, expulsam demônios, batizam, ordenam presbíteros, diáconos, clérigos e fundam igrejas.
• Na Babilônia, Simão e Judas consagram Abdias como bispo local.

Alguns atos apócrifos de Judas e Simão
As narrativas apócrifas sobre Judas Tadeu e Simão não são muitas.

Judas e Simão se preparam para desafiar os magos Zaroém e Arfaxat.
Na continuidade da narrativa sobre Tiago, o Irmão do Senhor, Memórias apostólicas de Abdias afirma que o dito acima se refere a Tiago. Quanto a seus irmãos, mais velhos que ele, Simão chamado o Cananeu e Judas chamado Tadeu e Zelota, também eles apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, que entraram na religião por revelação do Espírito Santo e pela fé, no início da sua pregação tiveram de enfrentar logo dois magos, Zaroém e Arfaxat, que tinham fugido da Etiópia da presença de São Mateus apóstolo. A doutrina deles, com efeito, era perversa: blasfemavam o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, chamando-o o Deus das trevas. Acrescentavam que Moisés era um mago e que todos os profetas de Deus tinham sido enviados pelo Deus das trevas.
Diziam, além disso, que a alma humana tinha uma parte divina e que o corpo, ao contrário, tinha sido feito por um deus mau, e por isso é composto de substâncias opostas: com algumas a carne se alegra enquanto a alma se entristece; e com outras a alma se alegra e o corpo, ao contrário, se aflige. Acrescentavam ao número dos deuses o sol e a lua, e ensinavam que a água também era divina. Do Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, afirmavam que era um produto da imaginação: que não era verdadeiro homem, que não nascera de uma virgem, que não fora na verdade tentado nem verdadeiramente padecera, nem fora de verdade sepultado, e que depois do terceiro dia não ressurgira dos mortos.
A Pérsia, contaminada por essa doutrina, depois de Zaroém e Arfaxat, mereceu encontrar através dos bem-aventurados apóstolos Simão e Judas o grande mestre, isto é, o Senhor Jesus Cristo, que tinha proclamado que enviaria do céu o Espírito Santo, segundo a promessa que dizia: “Vou para o Pai e vos envio o Espírito Paráclito” [Jo 15,26; 16,7].

Simão e Judas viajam para a Pérsia
Tendo empreendido a viagem com a precisa intenção de libertar, assim que chegassem, a Pérsia da triste sedução dos mestres acima citados, os apóstolos Simão e Judas encontraram o exército que partia para a guerra, guiado pelo comandante supremo do rei da Babilônia, Xerxes, Varardac. Este havia declarado a guerra contra os hindos, que tinham invadido o território da Pérsia: em seu séquito iam sacrificadores, adivinhos, magos, encantadores, cada um conforme seu próprio encargo, sacrificando aos demônios, dava o vaticínio da própria falácia.
Aconteceu que, no dia em que os apóstolos se achavam entre os soldados, aqueles embora se cortassem e derramassem o próprio sangue, não conseguiam dar ao comandante o vaticínio a propósito da guerra. Dirigiram-se por isso ao templo da cidade próxima para consultar ali os deuses. Ouviram então um deles que com enorme mugido assim sentenciava: “Há homens estrangeiros caminhando convosco para irem à batalha; por isso não vos podem dar vaticínios. Foi-lhes com efeito concedido tal poder por Deus, que nenhum de nós ousa falar em sua presença”.

Simão e Judas testemunham a fé em Cristo diante do Rei da Pérsia, Xerxes
Tendo sabido disso, o comandante supremo do rei Xerxes, Varardac, mandou que os procurassem no exército. Tendo-os encontrado, perguntou-lhes de onde eram, e por que tinham ido àqueles lugares. Respondeu-lhe o santo apóstolo Simão: “Se perguntas pela origem, somos judeus; se pela nossa condição, somos servos de Jesus Cristo; se queres saber o motivo da nossa presença, viemos para a vossa salvação, a fim de que abandoneis o falso culto dos ídolos e possais [assim] conhecer o Deus que está nos céus”.
“Por ora – disse o comandante Varardac, respondendo-lhe – estou para entrar em combate a fim de manter afastados os indos que desejam invadir a Pérsia, antes que consigam ganhar o auxílio das forças dos medos contra nós. Por isso não é agora o momento oportuno de discutir as vossas coisas. Se depois o regresso for feliz e favorável a nós, eu vos ouvirei”.
O apóstolo Judas (respondeu): “Senhor, ouve-me, é mais conveniente que conheças aquele com cuja força e com cujo auxílio podes vencer, ou ao menos encontrar calmos aqueles que contra ti se rebelaram”.
Então o comandante Varardac disse: “Como ouço que os vossos deuses estão diante de vós e vos dão os vaticínios, quero que nos predigais o futuro, a fim de que eu possa saber o resultado da batalha”.

Simão propõe um desafio
Simão então respondeu: “A fim de que te dês conta de que erram aqueles que tu pensas possam predizer-te o futuro, demos a eles a palavra para responder-te. Quando houverem dito aquilo que não sabem, nós provaremos que eles mentiram em tudo”. Tendo elevado uma prece ao Senhor, prosseguiu: “Em nome do Senhor nosso Jesus Cristo ordenamos que deis, segundo o costume, o vaticínio àqueles que estavam acostumados a vos interrogar”. A este seu comando aqueles fanáticos começaram a se agitar, e a dizer: “Haverá uma guerra e tanto de um lado como do outro poderão morrer muitos combatentes”. Diante disso, os apóstolos de Deus em um ímpeto de júbilo prorromperam em riso. Varardac lhes disse: “Estou imerso em grande temor e vós estais rindo?” E os apóstolos: “Que cesse o teu temor, pois com nossa chegada entrou a paz nesta província. Por isso deixa de lado o teu projeto defensivo. Com efeito amanhã, a esta mesma hora, ou seja a terceira, virão a ti aqueles que mandaste à frente junto com os embaixadores dos indos, os quais vos anunciarão que as terras invadidas estão restituídas ao vosso domínio, pagarão quanto vos devem, tratarão a paz consentindo de bom grado em vossa proposta, não importando as condições que fixardes, e estabelecerão convosco um pacto firmíssimo”.
Mas os principais sacerdotes do comandante zombaram desse modo de falar, dizendo: “Senhor, não dês crédito a esses homens vãos e mentirosos, estrangeiros e por isso desconhecidos; são vãos e mentirosos e por isso dizem coisas agradáveis para não serem presos como espiões. Os nossos deuses, que nunca se enganam, te deram o vaticínio: sê cauteloso e pronto para todas as emergências; não sigas aqueles que ansiosamente tentam tranquilizar-te para que, enquanto te achares menos atento, de repente, possas ser atacado facilmente e do modo mais violento”. Mas o santo apóstolo Simão respondeu: “Escuta-me, comandante. Nós estrangeiros e desconhecidos, mentirosos quanto queiras, não te ordenamos que esperes um mês. Nós te dissemos ‘espera um só dia e amanhã de manhã por volta da hora terceira chegarão aqueles que enviaste’. Com eles virão os representantes dos indos, os quais receberão de ti as condições de paz, e serão em seguida tributários dos persas”.
Depois de ouvirem essas coisas, os sacerdotes persas, que estavam no exército, gritavam abertamente: “Nossos magníficos deuses, em suas vestes douradas, cheias de pedras preciosas, purpúreas e tecidas de ouro, entre as taças, o linho e a seda, e todo o esplendor do reino babilônico, ao dar os vaticínios divinos, algumas vezes podem errar; mas esses esfarrapados, sem personalidade alguma, como é que ousam atribuir-se tanto? O simples fitá-los é uma injúria. E tu, comandante, não punes esses, cuja simples presença é uma injúria aos nossos deuses?” Respondeu o comandante: “É estranho que forasteiros, miseráveis e desconhecidos, afirmem com tanta constância aquilo que parece contrário ao testemunho dos nossos deuses”.
Os chefes dos sacerdotes lhe responderam: “Manda que sejam postos sob custódia, para que não fujam”. E o comandante: “Não só ordenarei que sejam postos sob custódia, mas vós mesmos ficareis sob vigilância até amanhã, a fim de que aquilo que se verificar se pode ou não comprovar o testemunho deles. Depois se verá quem verdadeiramente deve ser condenado”.

 A continuidade destes relatos sobre os atos apócrifos e vida de Judas Tadeu e Simão encontram-se no livro Vida secreta dos apóstolos e apóstolas à luz dos Atos Apócrifos, p. 284-304, Editora Vozes, e de autoria de Frei Jacir de Freitas Faria. 
 

O Evangelho de Maria Madalena

Frei Jacir de Freitas Faria

Infelizmente, a descoberta do Evangelho de Maria Madalena, em 1945, no Alto Egito, em Nag-Hammadi, também não nos logrou oferecer o texto completo do evangelho. Faltam as páginas iniciais, 1 a 6 e 11 a 14.Abaixo apresento uma página do Evangelho de Maria Madalena. O texto completo se encontra traduzido e comentado por Jean-Ives Leloup e Jacir de Freitas nos livros:

FARIA, Jacir de Freitas. As origens apócrifas do cristianismo: Comentários aos evangelhos de Maria Madalena e Tomé. São Paulo: Paulinas, 2003; e
LELOUP, Jean-Ives. Evangelho de Maria: Miriam de Mágdala, Petrópolis: Vozes, 1998. 

1 “O apego à matéria
2 gera uma paixão contra a natureza.
3 É então que nasce a perturbação em todo o corpo;
4 é por isso que eu vos digo:
5 ‘Estejais em harmonia…’
6 Se sois desregrados
7 inspirai-vos em representações
8 de vossa verdadeira natureza.
9 Que aquele que tem ouvidos
10 para ouvir, ouça.”
11 Após ter dito aquilo, o Bem-aventurado
12 saudou-os a todos dizendo:
13 “Paz a vós – que minha Paz
14 seja gerada e se complete em vós!
15 Velai para que ninguém vos engane
16 dizendo:
17 ‘Ei-lo aqui.
18 Ei-lo lá.
19 Porque é em vosso interior
20 que está o Filho do Homem;
21 ide a Ele:
22 aquele que o procuram o encontram
23 em marcha!
24 Anunciai o Evangelho do Reino. 

* Seguimos literalmente a tradução de Jean-Yves Leloup em O Evangelho de Maria; Míriam de Mágdala.

 
O Evangelho de Pedro

Frei Jacir de Freitas Faria

O Evangelho de Pedro foi descoberto no Alto Egito, sendo que o último ocorreu no ano de 1886, numa localidade chamada de Akhmin. Serapião, bispo de Antioquia (190-211), bem como Orígenes, Eusébio de Cesareia, Teodoreto de Ciro e Jerônimo fazem referência ao Evangelho de Pedro, o qual pode ser datado na primeira metade do século II.Serapião chega a permitir o uso do Evangelho de Pedro, mas depois se dá conta de que se trata de um texto influenciado por doutrinas heréticas de Marcião, gnosticismo e docetismo. Assim ele escreve, concluindo a sua carta apostólica aos cristãos de Rossos : “Assim, digo, pudemos por meio destes manusear o livro em questão, percorrê-lo e comprovar que a maior parte do conteúdo está de acordo com a reta doutrina do Salvador, se bem que se encontrem algumas inovações que submetemos à vossa consideração. É isto que vos escreve Serapião” 1.

O texto que segue foi traduzido por Lincoln Ramos e se encontra publicado e comentado nos seguintes livros: FARIA, Jacir de Freitas, O outro Pedro e a outra Madalena segundo os apócrifos. Petrópolis: Vozes, 2004 e RAMOS, Lincoln. Fragmentos dos Evangelhos apócrifos, Petrópolis: Vozes, 1989.

Condenação e escárnio de Jesus

I.
1. Mas nenhum dos judeus lavou as mãos, nem Herodes, nem qualquer de seus juízes. Como não quisessem eles lavar-se, Pilatos se levantou.

2. Mandou, então o rei Herodes que levassem o Senhor para fora, dizendo-lhes: “Fazei tudo o que vos ordenei que fizésseis”.

II.
3. Encontrava-se ali José, amigo de Pilatos e do Senhor. Quando soube que o crucificariam, dirigiu-se a Pilatos e lhe pediu o corpo do Senhor para ser sepultado.

4. Pilatos, de sua parte, o mandou a Herodes para que lhe pedisse o corpo.

5. Disse Herodes: “Irmão Pilatos, ainda que ninguém o tivesse pedido, nós o teríamos sepultado, pois se aproxima o sábado. E está escrito na lei: ‘Não se ponha o sol sobre o justiçado’”.

E o entregou ao povo no dia antes dos ázimos, a festa deles.

III.
6. Apoderando-se do Senhor, eles o empurravam e diziam: “Arrastemos o filho de Deus, pois finalmente caiu em nossas mãos”.

7. Vestiram-no com um manto de púrpura, fizeram-no sentar-se numa cadeira do tribunal, dizendo: “Julga com justiça, ó rei de Israel!”

8. Um deles trouxe uma coroa de espinhos e a colocou na cabeça do Senhor.

9. Outros que ali se encontravam cuspiram-lhe no rosto; outros lhe batiam nas faces, outros o fustigavam com uma vara; alguns o flagelavam, dizendo: “Esta é a honra que prestamos ao filho de Deus”.

IV.
10. Levaram para lá dois malfeitores e crucificaram o Senhor no meio deles. Mas ele se calava como se não sentisse qualquer dor.

11. Quando ergueram a cruz, escreveram no alto: “Este é o rei de Israel”.

12. Colocaram as vestes diante dele, dividiram-nas e lançaram sorte sobre elas.

13. Mas um dos malfeitores o repreendeu, dizendo: “Nós sofremos assim por causa de ações más que praticamos. Este, porém, que se tornou salvador dos homens, que mal vos fez?”

14. Indignados contra ele, ordenaram que não lhe fossem quebradas as pernas e assim morresse entre os tormentos.

V.
15. Era meio-dia, quando as trevas cobriram toda a Judeia. Eles se agitavam e se angustiavam, supondo que o sol já se tivesse posto, pois ele ainda estava vivo. E está escrito para eles: “Não se ponha o sol sobre um justificado”.

16. E um deles disse: “Dai-lhe de beber fel com vinagre”. Fizeram um mistura e lhe deram para beber.

17. E cumpriram tudo, enchendo desse modo a medida de seus pecados sobre suas cabeças.

18. Muitos andavam com fachos e, pensando que fosse noite, retiraram-se para repousar.

19. E o Senhor gritou, dizendo: “Minha força, minha força, tu me abandonaste!” Enquanto assim falava, foi assumido na glória.

20. Na mesma hora o véu do templo de Jerusalém se rasgou em duas partes.

VI.
21. Tiraram os pregos das mãos do Senhor e o depuseram no chão. Tremeu toda a terra e houve grande medo.

22. Brilhou, então, o sol e reconheceram que era a nona hora (três horas da tarde).

23. Alegraram-se os judeus e deram seu corpo a José para que o sepultasse. José tinha visto todo o bem que Jesus fizera.

24. Tomando o Senhor, levou-o, envolvendo-o em um lençol e o depositou em seu próprio sepulcro, chamado jardim de José.

VII.
25. Os judeus, os anciãos e os sacerdotes compreenderam, então, o grande mal que tinham feito a si mesmos e começaram a lamentar-se, batendo no peito e dizendo: “Ai de nossos pecados! O juízo e fim de Jerusalém estão agora próximos!”

26. Eu (Pedro) e meus amigos estávamos tristes; de ânimo abatido nos escondíamos. Estávamos sendo procurados por eles como malfeitores e como aqueles que queriam incendiar o templo.

27. Por causa de tudo isto, jejuávamos e nos assentávamos, lamentando-nos e chorando noite e dia, até o sábado.

A guarda do sepulcro

VIII.
28. Os escribas, os fariseus e os anciãos se reuniram, pois ficaram sabendo que todo o povo murmurava e se lamentava, batendo no peito e dizendo: “Se por ocasião de sua morte se realizaram sinais tão grandes, vede quanto ele era justo!”

29. Tiveram medo e foram a Pilatos, pedindo-lhe:

30. “Dá-nos soldados para que seu túmulo seja vigiado por três dias. Que não aconteça que seus discípulos venham roubá-lo e o povo acredite que ele tenha ressuscitado dos mortos e nos faça mal”.

31. Pilatos deu-lhes o centurião Petrônio com soldados para vigiar o sepulcro. Com eles dirigiram-se ao túmulo os anciãos e os escribas

32. e todos os que ali estavam com o centurião. Os soldados rolaram uma grande pedra

33. e a colocaram na entrada do túmulo. Nela imprimiram sete selos. Depois ergueram ali uma tenda e montaram guarda.

XV.
34. Pela manhã, ao despontar do sábado, veio de Jerusalém e das vizinhanças uma multidão para ver o túmulo selado.

Ressurreição de Jesus

35. Mas durante a noite que precedeu o dia do Senhor, enquanto os soldados montavam guarda, por turno, dois a dois, ressoou no céu uma voz forte
36. e viram abrir-se os céus e descer de lá dois homens, com grande esplendor, e aproximar-se do túmulo.

37. A pedra que fora colocada em frente à porta rolou donde estava e se pôs de lado. Abriu-se o sepulcro e nele entraram os dois jovens.

X.
38. À vista disto, os soldados foram acordar o centurião e os anciãos, pois também estes estavam de guarda.

39. E enquanto lhes contavam tudo o que tinham presenciado, viram também sair três homens do sepulcro: dois deles amparavam o terceiro e eram seguidos por uma cruz.

40. A cabeça dos dois homens atingia o céu, enquanto a daquele que conduziam pela mão ultrapassava os céus.

41. Ouviram do céu uma voz que dizia:
“Pregaste aos que dormem?”

42. E da cruz se ouviu a resposta: — “Sim”.

XI.
43. Eles, então, deliberaram em conjunto ir relatar essas coisas a Pilatos.

44. Enquanto ainda conversavam, abriram-se novamente os céus. Um homem desceu e entrou no túmulo.

45. Vendo aquilo, o centurião e os que estavam com ele apressaram-se, sendo ainda noite, a procurar Pilatos, deixando o sepulcro que tinham vigiado. Extremamente abalados, expuseram tudo o que tinham visto e disseram: “Era verdadeiramente filho de Deus”.

46. Pilatos respondeu: “Sou inocente do sangue do filho de Deus, fostes vós que decidistes assim”.

47. Depois todos se aproximaram, pedindo e suplicando que ordenasse ao centurião e aos soldados não contar a ninguém o que tinham visto.

48. “Para nós, diziam, é melhor ser culpado de gravíssimo pecado diante de Deus, do que cair nas mãos do povo judeu e ser lapidados”.

49. Pilatos, então ordenou ao centurião e aos soldados que nada dissessem.

As mulheres e o sepulcro

XII.
50. Ao amanhecer do dia do Senhor, Maria Madalena, discípula do Senhor, que, por medo dos judeus ardentes de cólera, não havia feito na sepultura do Senhor tudo quanto as mulheres costumavam fazer pelos mortos que lhes eram caros,

51. tomou consigo as amigas e dirigiu-se ao túmulo onde tinha sido posto.

52. Elas temiam ser vistas pelos judeus e diziam: “Se, no dia em que foi crucificado, não podemos chorar e lamentar-nos batendo no peito, façamo-lo pelo menos agora seu túmulo”.

53. Quem, no entanto, nos há de revolver a pedra colocada na entrada do sepulcro, a fim de que possamos entrar, sentar-nos em volta dele cumprir o que lhe é devido?

54. A pedra é grande e tememos que alguém nos veja. Se não o pudermos fazer, deponhamos, pelo menos, na porta o que trouxemos em sua memória. Choraremos e nos lamentaremos, batendo-nos no peito até a hora de voltarmos para casa”.

XIII.
55. Mas quando chegaram, encontraram o sepulcro aberto. Aproximando-se, inclinaram-se e viram ali um jovem sentado no meio do sepulcro. Era belo e estava revestido de túnica de raro resplendor. Perguntaram-lhe:

56. “Por que viestes? A quem procurais? Por acaso, aquele que foi crucificado? Ressuscitou e foi-se embora. Se não o acreditais, inclinai-vos e olhai o lugar onde jazia. Não está mais. Ressuscitou, na verdade, e voltou para o lugar donde veio”.

57. As mulheres fugiram atemorizadas.

Conclusão

XIV.
58. Era o último dia dos Ázimos. Muitos deixavam a cidade e voltavam para suas casas; acabara-se a festa.

59. Nós, porém, os doze apóstolos do Senhor, chorávamos e nos entristecíamos. Depois, cada um , angustiado por tudo o que tinha acontecido, voltou para sua casa.

60. Eu, pelo contrário, Simão Pedro, e meu irmão André tomamos nossas redes e nos dirigimos ao mar. Conosco estava Levi, filho de Alfeu, que o Senhor…

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1 Texto conservado em História Eclesiástica de Eusébio, e citado por Lincoln Ramos, Fragmentos dos evangelhos apócrifos, Petrópolis: Vozes, p. 102.

 

O Apocalipse de Pedro

Frei Jacir de Freitas Faria

O Apocalipse de Pedro é também um dos apócrifos encontrados em Nag Hammadi. Existe um outro livro com o mesmo nome, conservado em etíope. O primeiro está em grego.Apocalipse de Pedro conta três visões que Pedro teve sobre a crucifixão e ressurreição de Jesus. Além de travar uma polêmica com os opositores do pensamento gnóstico, Apocalipse de Pedro tem a intenção de oferecer uma reta interpretação da paixão de Jesus, bem como a de animar o seleto grupo de cristãos gnósticos, que tinha Pedro como o fundamento de fé. Pedro no Apocalipse de Pedro é o verdadeiro gnóstico, que sabe distinguir entre o falso e o verdadeiro. Ele é diferente do Pedro dos “eclesiásticos”, os quais recebem duras críticas dos gnósticos.

O texto que segue é a tradução do Apocalipse de Pedro encontrado em Nag Hammadi, publicado em: PIÑERO, Antonio; TORRENTES, José Montserrat; BAZÁN, Francisco Garcia. Textos gnósticos:Apocalipsis y otros escritos. Biblioteca de Nag Hammadi, III. Madrid: Trotta, 2000, p. 59-69. O que está entre parêntesis não faz parte do original. São interpretações que ajudam  na compreensão, às vezes, confusa do texto. Este texto está também publicado e comentado em parte no nosso livro: O outro Pedro e a outra Madalena segundo os apócrifos. Petrópolis: Vozes, 2004.

Introdução

Quando o Salvador estava sentado no Templo, no tricentésimo ano da edificação e no mês construção da décima coluna, satisfeito com a grandeza da Majestade vivente e incorruptível, ele me disse:

PRIMEIRA VISÃO

– Pedro, bem-aventurados os de cima que pertencem ao Pai, que através de mim há revelado a vida para aqueles que são da vida, pois eu os recordei, aqueles que estão edificados sobre a sólida base, que ouçam minhas palavras e que distingam as palavras da injustiça e a transgressão da Lei das palavras da justiça. Com efeito, eles procedem do alto, de cada palavra da Plenitude da verdade e têm sido iluminados com benevolência por Aquele, a quem as potestades buscaram, mas não encontraram.

Este apareceu agora entre aqueles, naquele no qual se é aparecido, no Filho do Homem, exaltado no alto dos céus, revelado com temor dos homens de essência semelhante. Mas tu, Pedro, sê perfeito segundo o nome que eu te coloquei (Pedra), pois eu te escolhi, e fiz de ti um princípio para o resto, a quem eu chamei para o conhecimento. Sê forte até que venha o imitador da justiça, o imitador daquele que foi o primeiro a chamar-te.

De fato, ele te chamou para que o conheça de um modo digno, por causa da rejeição de que foi alvo. Você pode reconhecê-lo nos tendões de suas mãos e de seus pés, no coroamento realizado por aqueles que vivem na região do meio, no corpo luminoso que eles (os Arcontes, aqueles que pregam os falsos ensinamentos sobre Jesus) apresentaram na esperança de estarem cumprindo um serviço de honrosa recompensa, quando ele ia recriminar-te três vezes naquela noite”.

O Salvador disse estas coisas, enquanto eu estava vendo um dos sacerdotes e o povo que corriam até nós com pedras para nos matar. Apavorei-me, pensando que íamos morrer. E Ele me disse:

– Pedro, eu te disse diversas vezes que estes são cegos sem guias. Se queres conhecer sua cegueira, coloca as tuas mãos sobre os olhos de seu corpo, e diga o que vês. Quando eu lhe disse que não via nada, Ele me disse:
– Não és possível que não veja nada!

Ele me disse novamente:
– Faça o mesmo outra vez.

E em mim se produziu medo e alegria ao mesmo tempo, pois vi uma luz nova, maior que a luz do dia. Logo, a luz desceu sobre o Salvador, e eu lhe contei o que havia visto. E ele me disse de novo:

– Levanta tuas mãos e escuta o que dizem os sacerdotes e o povo.

Eu ouvi os sacerdotes, enquanto estavam sentados com os escribas. As multidões gritavam aos brados. Quando o Salvador escutou essas coisas de mim, ele me disse:

– Apura os teus ouvidos e ouça o que estão dizendo.

E escutei de novo. Enquanto estava sentado, te louvam. Quando eu disse estas coisas, o Salvador disse:
– “Te disse que estes são cegos e surdos. Escuta, pois, agora as que estão dizendo de forma misteriosa e conserva-as. Não as diga aos filhos deste mundo, pois eles blasfemariam contra ti neste mundo, já que eles não te conhecem, mas louvar-te-ão assim que te conhecerem”.

Heresias em torno ao grupo. Primeiro conjunto de adversários: gnósticos desviados da verdade originária

Na verdade, muitos, no início, acolherão as nossas palavras, mas logo se distanciarão delas, por vontade do pai de seu erro, porque terão feito o que ele quis. Mas Deus lhes revelará em juízo, quer dizer, aos servidores da Palavra. No entanto, os que se ajuntarem a eles serão seus prisioneiros, porque estão privados de conhecimento.

Aquele que é inocente, bom e puro, é por eles entregue ao carrasco e ao reino daqueles que louvam o Cristo restaurado. Eles louvam os homens que propagam a mentira, aqueles que virão depois de ti. Eles se aderirão ao nome de um morto, pensando que serão purificados por esse nome. Ao contrário, ficarão impuros e cairão em nome do erro em mãos de um homem malvado e astuto, em dogmas multiformes, e serão governados na heresia.

Outro grupo gnóstico

Acontecerá que alguns deles blasfemarão da verdade e proclamarão uma doutrina falsa. E dirão coisas más uns contra os outros. Alguns desses serão chamados de “aqueles que estão sob o poder dos arcontes”, os que procedem de um homem e uma mulher nua, de uma multidão de formas e grande variedade de sofrimento.

E acontecerá que os que dizem estas coisas explorarão os sonhos. E se afirmam que um sonho tem sua procedência de um demônio, digno de seu erro, então receberão a perdição em vez da incorrupção.Com efeito, o mal não pode produzir um fruto bom. Uma vez que do lugar de onde vem, cada um atrai o que a si se assemelha, pois nem toda alma é da verdade ou da imortalidade. Cada alma deste mundo tem como destino a morte, segundo a nossa opinião, porque é sempre uma escrava, visto que foi criada para servir a seus desejos, e o seu papel é a destruição eterna: nela se encontra e dela deriva. As almas amam as criaturas da matéria, vindas à existência com elas.

Mas as almas imortais não se assemelham a estas, ó Pedro. E quando ainda não é chegada a hora da morte, acontecerá que a alma imortal se parecerá com uma mortal. Mas ela não revelará a sua natureza, que é somente imortal, mas pensa na imortalidade. Tenha fé e deseja abandonar estas coisas.

Em verdade, quem é inteligente não colhe figos de cardos ou espinhos, nem uvas de plantas espinhosas. Certamente, o que se produz sempre está dentro daquilo que produz. O que procede do que não é bom resulta ser para a alma destruição e morte. Mas esta, a alma imortal, que chega a ser no Eterno, se encontra na Vida, e na imortalidade da vida, a qual se assemelha. Portanto, tudo o que existe não se dissolverá no que não existe. A surdez e cegueira se unem somente com os seus semelhantes.

Também outro grupo gnóstico

Outros, no entanto, converter-se-ão das palavras más e dos mistérios que extraviam.

Alguns que não entendem os mistérios falam de coisas que não entendem. Gabam-se de ser os únicos que conhecem o mistério da Verdade, e, cheios de orgulhos, agarram-se à insolência, invejando a alma imortal, que se tornou entretanto uma garantia. Já que toda potestade, dominação e poder dos eons desejam estar eles (as almas imortais dos gnósticos) na criação do mundo, de modo que aqueles (as potestades/forças) que não são, esquecidas pelas que são (as almas imortais), os louvem, embora não tenham sido salvas pelas potestades, nem levadas ao caminho (saída do mundo), desejando sempre chegar a ser imortais. Porque quando a alma imortal se fortalece com o poder de um espírito intelectual (um gnóstico), eles (as potestades/forças), imediatamente, fazem com que a alma imortal torne-se semelhante a um dos extraviados (da doutrina gnóstica).

Outro grupo gnóstico

Pois muitos, que se opõem à verdade e são os mensageiros do erro, conspiram com seu erro e sua lei contra estes pensamentos puros que provêm de mim, partindo do ponto de vista, a saber, que o bem e o mal procedem da mesma raiz. Eles fazem negócio com a minha palavra, e anunciam um duro Destino: a raça das almas imortais caminhar em vão, até a minha parusia. Por conseguinte, do meio deles sairão (pessoas que não seguem a minha palavra).

E o perdão de seus pecados, nos quais caíram por culpa de seus adversários, os quais eu resgatei da escravidão a que se encontravam, dando-lhes a liberdade. E eles agem de modo a criar uma imitação do verdadeiro perdão, em nome de um defunto, Hermas¹, dos primogênitos injustiça (Satanás), para que a luz existente não seja vista pelos pequenos (os verdadeiros gnósticos). No entanto, os que pertencem a esse gênero de pessoas serão lançados nas trevas exteriores, longe dos filhos da luz. Por conseguinte, nem eles entrarão, nem tampouco permitem aos que querem receber a sua libertação.

Outro grupo. Também gnósticos, também errados

E ainda outros deles, que sofrem, pensam que conseguirão a perfeição da vivência comunitária (ser Igreja) que realmente existe, a saber, a união espiritual com os que estão em comunhão, através da qual se revelará o matrimônio da imortalidade (igualdade da essência com o Salvador). Mas, em vez disso, se manifestará uma fraternidade feminina (falsa e imperfeita) como imitação. Estes são os que oprimem os seus irmãos, dizendo-lhes: “Por meio disso (sua doutrina), nosso Deus tenha piedade, pois a salvação chega a nós somente por isso”. E eles não conhecem o castigo daqueles que se alegram por aqueles que fizeram isto aos pequenos (gnósticos verdadeiros), que vieram (outros que também agem em nome de Cristo) e fizeram prisioneiros (os gnósticos).

Outro grupo de adversários: os eclesiásticos

E existem também outros, que não dos nossos, que se chamam a si mesmos de bispos e também diáconos, como se tivessem recebido essa autoridade de Deus. Eles são julgados por ocuparem os primeiros lugares na assembleia. Essa gente, eles são canais vazios.

Mas eu disse:

– “Diante do que me disseste, eu tenho medo, a saber, que são poucos, como veremos, os que estão fora do erro, enquanto muitos viventes serão induzidos ao erro e ficarão divididos. E quando pronunciarem o seu nome, serão considerados dignos de fé”.

E o Salvador disse:

– “Governarão sobre os pequenos (gnósticos) por um tempo para eles determinado, em proporção ao erro deles. E depois que se complete o tempo de seu erro, o tempo que nunca envelhece renovará o pensamento imortal; E os pequenos governarão sobre os que agora governam sobre eles. E o tempo que não envelhece extirpará o erro deles pela raiz e expô-lo-á à vergonha. E se revelará a desvergonha que ela (a classe dos eclesiásticos) teve sobre si.

E acontecerá que os pequenos serão imutáveis, ó Pedro. Eia, vamos! Cumpramos a vontade do Pai incorruptível. Com efeito, eles verão a sentença contra eles (os eclesiásticos), os quais  cairão em desgraça. Mas, quanto a mim, eles não poderão tocar-me. Mas tu, ò Pedro, estarás no meio deles. Não temas por causa da covardia deles. A inteligência deles será limitada, pois o Invisível lhes fará oposição.”

SEGUNDA VISÃO: CRUCIFICAÇÃO

Enquanto me dizia estas coisas, vi o modo como eles o agarravam (o crucificavam). E eu disse:
– Que vejo, ó Senhor? É a ti que eles aprisionam, enquanto estás entretendo comigo? Quem é esse que sorri alegre sobre a árvore? Tem outro a quem eles golpeiam nos pés e nas mãos?

E o Senhor me disse:
– Aquele que viste sobre a árvore alegre e sorridente, este é Jesus, o vivente. Mas este, em cujas mãos e pés introduzem os cravos, é o carnal, o substituto, exposto à vergonha, o que existiu segundo a semelhança. Olha para ele e para mim!

Mas eu, depois de ter visto, disse:
– Senhor, ninguém olha para você. Fujamos deste lugar.

Mas ele me disse:
– Eu te disse, deixa os cegos sozinhos. E quanto a mim, veja quão pouco entendem o que dizem. Eles expuseram à vergonha o filho de sua glória em vez do servo.

TERCEIRA VISÃO: A RESSURREIÇÃO

E eu vi, aproximando-se de nós, um que parecia com Ele, exatamente com Aquele que estava sorridente sobre a árvore. Estava vestido do Espírito Santo. Ele é o Salvador. E houve uma grande luz, inefável, que o envolveu, e uma multidão de anjos inefáveis e invisíveis que o louvavam. Quando eu olhei para ele, ele se manifestou glorificado. E me disse:

– Coragem! Na verdade, tu és aquele a quem foi dado conhecer estes mistérios, a saber, que aquele a quem crucificaram é o primogênito, e a casa dos demônios e o recipiente de pedra, onde habitam os demônios, o homem de Elohim, o homem da cruz, aquele que está sob a Lei. Ao contrário, Aquele que está junto dele é o Salvador vivente, ele, que primeiro que estava com ele, que prenderam e soltaram, Aquele que, alegre, olha para os que o trataram com violência, enquanto eles estavam divididos.

Por este motivo, ele ri de sua falta de visão, sabendo que são cegos de nascença. Existe, certamente, aquele que toma sobre si o sofrimento, pois o corpo é o substituto. No entanto, o corpo que eles libertaram é o meu corpo incorpóreo. Enquanto, eu sou o Espírito intelectual pleno de luz radiante. Aquele que viste vindo sobre mim é nosso Pleroma intelectual, aquele que une a luz perfeita ao meu Espírito Santo.

Estas coisas, pois, que tu viste, tu deves transmiti-las à outra estirpe, àqueles que não provêm deste mundo. Porque um dom deste gênero não é dado a homens que não sejam imortais; mas tão-somente naqueles que foram escolhidos em virtude de sua natureza imortal, naqueles que demonstraram ser capazes de acolhê-lo: este espírito dar-lhes-á a própria plenitude.

Por isso, eu digo que “A todo aquele que tem será dado e terá em abundância”. Mas a quem não tem – ao homem deste lugar, aquele que está completamente morto, que está longe dos seres da criação, que foram gerados, a esse que, quando aparece alguém cuja natureza é imortal, pensa que a possui -, a ele será tirado o que te e será dado àquele que tem. Tu, pois, sejas corajoso e não tenhas medo de nada. Porque eu estarei contigo para que nenhum de teus inimigos tenha poder sobre ti. A paz esteja contigo. Seja forte!”

Quando Jesus disse estas coisas, Pedro voltou a si.

———————————————————
  ¹Alusão a uma compreensão errônea do perdão dos pecados, contida na obra O Pastor, de Hermas.

 

Maria Madalena 10,1-13: ver para crer

Frei Jacir de Freitas Faria

      A passagem anterior ao que iremos analisar do Evangelho de Maria Madalena nos mostra que os discípulos estavam aflitos, mas Maria Madalena, com o seu beijo e fala os acalmou. Na continuidade desse fato, Pedro toma a palavra e diz: 

1Pedro disse a Maria:2“Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou3 diferentemente das outras mulheres.4Diz-nos as palavras que Ele te disse,5 das  quais tu te lembras 6e das quais  nós não tivemos conhecimento…”7Maria lhes disse:8“Aquilo que não vos foi dado escutar,9eu vos anunciarei:10eu tive uma visão do Mestre,11e eu lhe disse:12‘Senhor, eu te vejo hoje13nesta aparição’.

       Pedro, ao falar, representa o cristianismo emergente que começa a institucionalizar-se. Sua fala é carregada de ironia nas expressões: minha irmã; o Mestre te amou mais do que a nós; Ele te revelou coisas que a nós ocultou. Não estaria aí a ironia da instituição? Pedro parece reconhecer o poder do saber de Maria Madalena, visto que ela tinha afinidade com o Mestre.

Maria, ao afirmar que teve uma visão do Mestre, diz que conhece os segredos dele.Esse tema está também presente em Marcos, o famoso “segredo messiânico”. Os discípulos não souberam escutar direito o Mestre e, por isso, não tiveram visão. Ver e escutar são dois verbos que aparecem na fala de Maria Madalena. Escutar está muito ligado ao judaísmo. “Shemá (escuta) ò Israel” faz parte do programa de vida de um judeu. Escutar é o mesmo que interpretar, tornar vivo a Presença de Deus Um. Segundo Dt 6,4-9, a Ele se dever amar de todo o coração (razão e sentimento integrado), com toda a Alma (ser) e com toda a Força (poder aquisitivo). Maria Madalena viu. Ver para crer faz parte do modo de pensar  grego, que os cristãos aderem. Eles vêem o milagre de Jesus e nele crêem. Para os judeus, bastavam ouvir para crer. E nisso residia umas das disputas teológicas entre judeus e cristãos. Ver passa ser para os cristãos a plenitude do ouvir. Maria Madalena representa esse modo de pensar. Não que Pedro e o grupo dos apóstolos representem o lado contrário, mas aqui estamos diante de disputa que visa saber quem mais compreendeu o Mestre. Pedro e os discípulos não foram capazes de escutar. Maria, com a sua fala, anuncia o ensinamento do Mestre. Outra ironia? Maria vê o Mestre em uma aparição e exclama a sua alegria de poder vê-lo. João também registrou a aparição de Jesus a Maria no túmulo. Naquela oportunidade, Ele lhe teria tido: “Não podes mais ficar comigo como antes, pois ainda não subi ao Pai, portanto, vá anuncie aos irmãos que eles também me verão na Galiléia” (Jo 20,17). Qualquer que seja a tradução desse versículo, somos obrigados a reconhecer que talvez nunca saberemos o verdadeiro sentido dessas palavras ditas por Jesus a Maria Madalena. Os estudiosos já propuseram ene interpretações. Todas não muito convincentes. Maria Madalena não poderia tocar no ressuscitado, ser de ordem divina e não terrena. Seria uma explicação plausível. Mas Tomé não foi chamado a tocar no ressuscitado? Ou Tomé, por ser homem, podia tocar em outro homem? Jesus não poderia ser tocado por uma mulher de passado duvidoso. Mas se Maria Madalena não era prostituta, essa explicação não cabe mais. Melhor seria compreender a experiência de Maria Madalena com Jesus na esfera humana e divina. Maria Madalena deve cumprir o seu papel de missionária. Os outros irmãos, por mãos e palavra de mulher, deverão compreender esse mistério. Jesus teria dito a Maria Madalena: “você já viu, compreendeu e creu, vá ajudar aos irmãos fazer o mesmo caminho. E bem-aventurada serás tu eternamente”.

Atos apócrifos de Tecla

Tecla ou Santa Tecla, como ficou conhecida, foi uma pessoa muito cara no início do cristianismo. O apócrifo que conta os seus atos levou o nome de Atos de Paulo e Tecla. Tecla lutou até o fim para permanecer fiel aos ensinamentos recebidos de Paulo. A sua atuação apostólica é sempre colocada em relação a Paulo. Discípula fiel, ela tornou-se apóstola de Jesus. 

 1 Perfil 

Nome e perfil: Tecla tornou-se discípula de Paulo, quando este passou por Icônio, possivelmente no ano 48 E.C. Era noiva de um tal de Tamiro, quem ela abandonou para seguir Paulo. 

Nascimento: Filha de Teocleia, Tecla nasceu na cidade de Icônio.   
Estado civil: Já de casamento marcado com Tamiro, Tecla, tornando-se discípula de Paulo, manteve-se  solteira e virgem consagrada.
Morte: Mesmo sendo condenada ao martírio, Tecla sobreviveu miraculosamente ao mesmo e morreu “repousando num glorioso sono”. 
 
2 – Principais feitos apostólicos narrados nos apócrifos 

·        Converter-se ao cristianismo, tornando-se discípula de Paulo. 

·        Abandonar o noivo Tamiro para seguir Paulo. 

·        Visita Paulo na prisão. 

·        Viajou com Paulo para Tessalônica. 

·        Enfrenta, em praça pública, Alexandre, que havia se apaixonado por ela. Arrancando-lhe a coroa e rasgando sua capa. 

·        Condenada ao martírio, Tecla enfrentou e venceu as feras que iriam devorá-la viva. 

·        Diante do governador, professa a fé em Jesus. 

·        Batiza a si mesma. 

·        Prega a Palavra de Deus em Icônio e Seluêcia. 

·        Disfarçada de homem, Tecla se encontra com Paulo. 

·        Mantém-se fiel a Paulo até o fim.  

3 – Atos Apócrifos  de Tecla

 A história de Tecla é contada nos apócrifos sempre em relação a Paulo. A piedade popular conservou essa história de fé, num misto de magia e devoção. Tecla, apóstola da primeira hora do cristianismo. Assim como Paulo, ela não conheceu Jesus.
 
Tecla se deixa seduzir por Paulo
 
Atos Apócrifos de Paulo e Tecla conta que quando Paulo passou por Icônio, cidade de Tecla, ela ficou sentada no pé da janela vizinha de sua casa, escutando noite e dia a sua pregação. Aí ela permaneceu três dias e três noites, sem beber e comer. Sua mãe, Teocleia, mandou chamar o seu noivo Tamiro. Este, ansioso por ver Tecla apressou-se a vir. “Onde está a minha Tecla, para que eu possa vê-la?”, exclamou.
 

Teocleia acusou Paulo de seduzir as virgens da cidade com a sua pregação. De Tecla, ela disse que estava apaixonada pelo estrangeiro Paulo. “Como aranha na janela, fascinada pelas suas palavras, está dominada por um desejo e uma terrível paixão”, disse. 

Tecla visita Paulo na prisão
 
Tamiro articulou com Demas e Hermógenes denunciar Paulo ao Governador Castélio. Reunido o povo, oficiais e chefes, ele logrou levar Paulo ao Governador. Este mandou prender Paulo, até que se pudessem averiguar melhor os fatos.
 
Sabendo do ocorrido, Tecla foge, à noite, de sua casa, suborna o porteiro e o carcereiro da prisão com pulseiras e espelho de prata, para encontrar-se com Paulo. E ali, ela permaneceu sentada, ouvindo a pregação de Paulo.
 
Tecla, levada ao governador, permanece em silêncio
 
A visita de Tecla a Paulo na prisão teve como consequência a flagelação e expulsão de Paulo de Icônio. Atos de Paulo e Tecla relata que “o Governador ordenou que Paulo comparecesse perante o tribunal. Mas Tecla estava parafusada no lugar onde Paulo havia sentado na prisão. E o Governador ordenou que ela também fosse levada ao tribunal e ela foi com uma alegria imensa. E quando Paulo compareceu no tribunal, as multidões gritavam violentamente: É um bruxo! Fora daqui! Mas o Governador escutou alegremente Paulo falando das obras santas de Cristo. Depois de conferir com o seu conselho, ele intimou Tecla e disse: Por que não casas com Tamiro segundo as leis de Icônio? Mas ela continuou olhando seriamente para Paulo e, como nada respondesse, Teocleia, a mãe dela gritou: Queima o perverso; queima-a também no meio do teatro, ela que não quer casar; para que todas as mulheres que foram ensinadas por este homem tenham medo”[1]. O Governador, então, condenou Tecla a ser queimada viva.   
 
Tecla é salva do martírio 
 
Logo após a sentença do Governador, diz Atos de Tecla e Paulo, que “imediatamente o governador se levantou e foi para o teatro. Toda a multidão saiu para ver esse espetáculo. Mas como uma ovelha no deserto olha ao redor, procurando o pastor, assim Tecla ficou procurando por Paulo. Olhando para a multidão, ela viu o Senhor sentado com o semblante de Paulo e ela disse: Como se eu não estivesse capaz de sofrer, Paulo, tu vieste atrás de mim? E ela olhou intensamente para ele, mas ele subiu para o céu.
 

Os rapazes e as moças trouxeram lenha e para que ela pudesse ser queimada. Mas quando ela apareceu nua, o Governador chorou e admirou o poder que estava nela. Os algozes prepararam a lenha e mandam-na subir na pilha. Ela fez o sinal da cruz e subiu na pilha. Acenderam o fogo e, se bem que um grande fogo se alastrasse, não a atingiu. Deus, tendo compaixão dela, provocou um ruído no subsolo e uma nuvem carregada de água e granizo cobriu o teatro por cima e derramou de vez, de maneira que muitos ficaram em perigo de morte. O fogo foi apagado e Tecla salva”[2].   

Tecla se encontra com Paulo e pede para segui-lo e ser batizada 
 
Tecla saiu dali e encontrou-se com um dos filhos de Onesífero, que tinha ido a cidade para comprar pão para Paulo e sua família que havia fugido com Paulo de Icônio para Dafné. O menino levou Tecla para encontrar-se com Paulo. Ela o encontrou rezando, em um túmulo, pela libertação de Tecla. Ambos se alegraram pelo ocorrido. Ali mesmo, eles celebraram a Eucaristia. Tecla quis cortar os cabelos para seguir Paulo, mas ele não permitiu, dizendo que ela era muito bonita e que ainda podia se apaixonar por outro homem. E ele lhe disse também, aludindo ao batismo: “Tecla, tem paciência, receberás primeiramente a água”[3].
 
Depois deste ocorrido, Onosífero voltou com a família para Icônio e Paulo seguiu viagem com Tecla para Tessalônica.
 

 Tecla em praça pública, arranca a capa e a coroa de Alexandre 

 E aconteceu que, quando estava em Antioquia, Alexandre, um notável da cidade e organizador dos jogos no circo, apaixonou-se por Tecla e quis comprá-la de Paulo. Paulo negou que a conhecesse. Alexandre abraçou-a na rua. Tecla, então, “gritou amargamente: não violentes a estrangeira, não violentes a serva de Deus. Eu sou uma das pessoas mais influentes em Icônio, mas porque não quis me casar com Tamiro, eu fui expulsa da cidade. E, agarrando Alexandre, ela rasgou a sua capa, arrancou sua coroa e fez dele uma chacota.[4]” Esta sua atitude lhe causou, por influência de Alexandre, o enfrentamento das feras em um circo, conforme costume romano. Tecla assumiu diante do governador que havia desafiado Alexandre.     
 

Tecla combate com as  feras

 A tradição apócrifa conta que Tecla enfrentou feras no circo diante do povo reunido, Alexandre, o Governador e, sobretudo mulheres e crianças. Antes, porém, uma rainha de nome Trifena a tomou sob sua proteção, em substituição à sua filha Falconila, que havia morrido. Assim, Tecla se manteve pura, sem ser violentada, para o sacrifício.
 
A primeira fera enfrentada por Tecla foi uma Leoa. Tecla foi amarrada sobre ela e esta lambia os seus pés tranquilamente. No dia seguinte, Tecla foi levada a mando do Governador para enfrentar leões e ursos. Trifena a acompanhava. Tecla foi tirada de sua proteção, despida e jogada no meio das feras com um cinto nas mãos. Um urso e um leão que avançaram sobre Tecla foram mortos por uma leoa que defendia Tecla. A multidão das mulheres gritava pela sua morte. A leoa que defendia Tecla também morreu.        
 
Tecla se batiza e vence as feras
 
“Enviaram muitas feras, enquanto ela, de pé, estendia suas mãos e rezava. Quando terminou de rezar, ela se virou e avistou um grande poço cheio de água e disse: Agora está na hora de me lavar. Ela se jogou (no poço), dizendo: Em nome de Jesus Cristo, eu me batizo a mim mesma no meu último dia. Quando as mulheres e a multidão a viram, choraram e disseram: Não te jogues na água! Até o governador chorou porque as focas iriam devorar tal beleza. Ela se jogou, pois, na água em nome de Jesus Cristo, mas as focas, tendo visto um raio de relâmpago, morreram todas e ficaram boiando na superfície; e houve ao redor dela uma nuvem  de fogo, de maneira que as feras não conseguiram tocá-la  e que ninguém a viu nua”[5]. Outras feras foram soltas para atacar Tecla.  Com o perfume  e flores que as mulheres jogaram, estas ficaram hipnotizadas e não atacaram Tecla.  Por fim, Tecla foi amarrada a touros terríveis, os quais tinham ferros aquecidos amarrados em suas genitálias. Isto foi preparado para que Tecla fosse destruída pelos mesmos. Ocorreu que, diante daquele espetáculo, a rainha Trifena desmaiou, a chama que rodeava Tecla consumiu as cordas e Tecla ficou livre. O governador mandou parar o espetáculo. Alexandro se arrependeu do que havia feito e implorou a libertação de Tecla.
 
Tecla confessa ser serva de Jesus
 
Ainda no meio das feras, o Governador perguntou-lhe: “Quem és tu? E qual é o escudo que te rodeia, para que nenhuma fera te toque? Ela respondeu: Eu sou a serva do Deus vivo. Quanto ao que me rodeia, eu acredito no Filho de Deus no qual ele se compraz. É por isso que nenhuma dessas feras me tocou; pois somente ele é a plenitude da salvação e o alicerce de vida eterna. Pois ele é o refúgio dos naufragados, a consolação dos oprimidos, o amparo para o desesperado; por isso mesmo, quem não acreditar nele não viverá, mas morrerá para sempre. Quando o Governador ouviu aquilo, ele mandou que roupas fossem trazidas e lhe disse: Vestes estas roupas. Mas ela respondeu: Aquele que me vestiu quando estava nua no meio das feras, vestir-me-á com a salvação no dia do julgamento”[6]. Após este diálogo, Tecla se vestiu. O governador publicou um decreto soltando Tecla. As mulheres da cidade gritaram louvando a Deus por este ocorrido.
 

Tecla prega a Palavra de Deus

 Sabendo que Tecla fora libertada, Trifena, com uma multidão, foi encontrar-se com Tecla.  Ela proclamou a fé na ressurreição, acolheu Tecla em sua casa e lhe prometeu passar os seus bens. Tecla ficou ali oito dias. Pregou a Palavra de Deus. Muitas empregadas se converteram.
 
Tecla, em traje masculino, encontra-se com Paulo
 
Sabendo que Paulo estava em Mira, Tecla vestiu uma capa que a fez parecer homem. Reuniu rapazes e moças e foi ter com Paulo. Quando este a viu com homens pensou que uma nova tentação teria caído sobre ela. Tecla lhe disse que havia recebido o batismo. Paulo a conduziu para a casa de Hermias e ouviu a sua história. Tecla havia levado roupas e ouro, oferecidos por Trifena. Ela os deixou com Paulo.
 
Tecla prega em Icônio
 
Após o encontro com Paulo, Tecla foi para Icônio pregar a Palavra de Deus. Em Icônio, ela  ficou na casa de Onesífero. Ela “prostrou-se sobre o lugar onde Paulo havia sentado e ensinado a palavra de Deus. Ela gritou: Meu Deus e Deus desta casa onde a luz brilhou sobre mim, Jesus Cristo, Filho de Deus, meu Salvador na prisão, meu salvador perante o governador, meu salvador no fogo, meu salvador no meio das feras, só tu és Deus, a ti a glória para todo o sempre. Amém”[7].
 
Tecla repouso num glorioso sono
 
Quando Tecla estava em Icônio, ela se deu conta que Tamiro, seu antigo noivo, havia morrido. Encontrando viva a sua mãe, Tecla disse: “Teocleia, minha mãe, podes acreditar que o Senhor vive no céu? Pois se desejas riquezas, o Senhor tas darás por mim, mas se desejas tua filha, eis que estou aqui ao teu lado”. 
 
E vida de Tecla, narrada em Atos de Paulo e Tecla, termina afirmando que “tendo assim dado o seu testemunho, ela se dirigiu para Selêucia e iluminou a muitos pela palavra de Deus. Depois repousou num glorioso sono”.
 
Extraído do livro de Frei Jacir de Freitas Faria, A vida secreta dos apóstolos e apóstolas à luz dos Atos Apócrifos, Petrópolis: Vozes, 2005, p. 73-74.
 
 

 
[1] Cf. Atos de Tecla e Paulo, 20, In.: Caetano Minette de Tillesse, Extra-canônicos do Novo Testamento,  vol 11, Revista Bíblica Brasileira, vol  20-21, Fortaleza: Nova Jerusalém, 288. 
 
[2] Atos de Tecla e Paulo, 20, In.: Caetano Minette de Tillesse, Extra-canônicos do Novo Testamento,  vol 11, Revista Bíblica Brasileira, vol  20-21, Fortaleza: Nova Jerusalém, 287-289. 
 
[3] Cf. Idem, 289.
 
[4] Idem, 290.
 
[5] Idem, 291.
 
[6] Idem, 292.
 
[7] Idem, 293.
 
Para aqueles que desejam saber mais sobre

Apócrifos E Pseudo-Epígrafos Da Bíblia 01

Eusébio de Cesaréia, autor de História Eclesiástica, no capítulo intitulado Das divinas Escrituras reconhecidas e das que não o são, após apontar os livros do Novo Testamento na ordem como os temos hoje na Bíblia Sagrada, menciona outros escritos conhecidos e difundidos pela cristandade no século IV. Ainda que não incorporadas no rol dos textos divinamente inspirados pelo Espírito Santo, algumas destas obras são destacadas pelos historiador, tais como o Evangelho dos Hebreus, Cartas de Barnabé e Apocalipse de Pedro, dentre tantas outras que circulavam livremente pelas igrejas.

Para ele, estes escritos apócrifos distinguem-se dos que a tradição da Igreja julgou verdadeiros, genuínos e admitidos, principalmente porque nenhum dos escritores ortodoxos, os chamados pais apostólicos, mencionavam tais fontes. Também julgava Eusébio que nestas obras o estilo, o pensamento e a intenção dos apóstolos não se faziam refletir e, por isso, considerava a necessidade de rechaçá-los como inteiramente absurdos e ímpios. Não obstante o repúdio incisivo das autoridades eclesiásticas, a circulação sub-reptícia dos apócrifos perdurou firmemente. Aliás, os reflexos do conteúdo desse material podem ser percebidos na produção da arte cristã que marcou todo o período da Idade Média.

Resultado da tradição oral dos primeiros crentes da era cristã, os apócrifos tornaram-se importantes documentos reveladores do modo como vivia e pensava uma grande parcela da cristandade, cuja voz ficou abafada pela Igreja Oficial. Produzidos para satisfazer as curiosidades populares a respeito da infância de Jesus e de seus pais, bem como estabelecer as raízes da nova religião, tais escritos revelam, por um lado, as idiossincrasias do pensamento e das práticas judaicas que marcaram a origem do cristianismo, e por outro, refletem a efervescente e plural cultura gentílica com a qual o Cristianismo passou a lidar cotidianamente em seu processo de expansão.

Muitos séculos depois, a despeito da não terem sido incluídos no cânone das Escrituras cristãs, tais textos continuam despertando a curiosidade do crescente número de interessados nas coisas da Religião. Todavia, o desconhecimento generalizado do conteúdo dos apócrifos tem gerado especulações que somente o exame acurado de seu real teor pode dirimir. Ao editar estes livros, pela primeira vez reunidos em volume único, longe de apresentar uma nova Bíblia aos Cristão, o nosso objetivo é disponibilizar as fontes primárias de um compêndio de riqueza informativa incomensurável para a plena compreensão do Cristianismo e estreitar o contato coma a herança literária legada pelos movimentos populares que se mantiveram marginais no curso da História da Igreja.

A publicação dos proscritos da Bíblia converte-se em uma nova contribuição para os interessados em aprofundar os estudos das Sagradas Escrituras, através de seu cotejo com a produção literária apartada do cânon tradicional. Destarte, o entedimento dos motivadores ideológicos que serviram à produção de ambos, bem como as razões que levaram a Igreja a adotar alguns textos como inspirados e reprovar outros como de origem espúria ou apócrifa, motivar-nos-á reafirmar o amor pela Palavra de Deus.

Apócrifos E Pseudo-Epígrafos Da Bíblia 02

Resultado da tradição oral dos primeiros crentes da era cristã, os apócrifos tornaram-se importantes documentos reveladores do modo como vivia e pensava uma grande parcela da cristandade, cuja voz ficou abafada pela Igreja Oficial. Produzido para satisfazer as curiosidades populares a respeito da infância de Jesus e de seus pais, bem como estabelecer as raízes da nova religião, tais escritores revelam, por um lado, as idiossincrasias do pensamento e das práticas judaicas que marcam a origem do cristianismo, e por outro, refletem e efervescente e plural cultura gentílica com a qual o Cristianismo passou a lidar cotidianamente em eu processo de expansão.

Muitos séculos depois, a despeito de não terem sido incluídos no cânone das Escrituras cristãs, tais textos continuam despertando a curiosidade do crescente número de interessados nas coisas da Religião. Todavia, o desconhecimento generalizado do conteúdo dos apócrifos tem gerado especulações que somente o exame acurado de seu real teor pode dirimir.

Ao editar este livro, pela primeira vez reunidos em volume único, longe de apresentar uma nova Bíblia aos cristãos, o nosso objetivo é disponibilizar as fontes primárias de um compêndio de riqueza informativa incomensurável para a plena compreensão do Cristianismo e estreitar o contato com a herança literária legada pelos movimentos populares que se mantiveram marginais no curso da História da Igreja. A publicação dos proscritos da Bíblia converte-se em uma nova contribuição para os interessados em aprofundar os estudos das Sagradas Escrituras, através de seu cotejo com a produção literária apartada do cânon tradicional. Destarte, o entendimento dos motivadores ideológicos que serviram à produção de ambos, bem como as razões que levaram a Igreja a adotar alguns textos como inspirados e reprovar outros com de origem espúria ou apócrifa, motivar-nos-á reafirmar o amor pela Palavra de Deus.

Paz amados(as), com certeza nos ajudará a aprofundar nos estudos da Sagrada Escritura, a aula do Pe. Leonel ontem foi marcante!

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