Boa noite amigos(as) do Curso de Teologia

Boa noite amigos(as) do Curso de Teologia, venho aproveitar o espaço do Blog, para poder postar o material que recebemos dos Professores, PE. Enfim este espaço será para esta finalidade, para que todos tenham em mãos o material e assim podermos estudar e ter o material nas aulas para acompanhar melhor.

Pe. Professor Leonel (Aulas às Terças-feiras)

Introdução Crítica às Sagradas Escrituras

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Livros Apócrifos

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Livros Apócrifos do Novo Testamento

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Texto Bíblico

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ARENS – Os excluídos da Bíblia Sagrada

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Gêneros Literários da Bíblia Sagrada

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Pentateuco – 2º Semestre

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Genesis 1 -11 (powerpoint) – 2º Semestre

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Genesis 1 -11 (pdf) – 2º Semestre

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Professor Celso – Filosofia (Aulas às quartas-feiras)

Filosofia Antiga – Período Cosmológico

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Filosofia Antiga – Período Antropológico

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Filosofia Antiga – Período Medieval

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Filosofia Moderna – Marilena Chauí/USP

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Filosofia Política

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Antropologia – Matéria do 2º Semestre

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Pe. Professor Berti (Aulas às quintas-feiras)

10 Conselhos para estudar Teologhia

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Era Moderna

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É isso aí amigos(as)

Paz e bem amados(as)

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Tomemos posse da verdadeira Paz de Jesus

Depois de Jesus ter aparecido a Maria Madalena, de ter dado ordens para que os Seus discípulos partissem para a Galileia e, de encontrar com dois deles na estrada de Emaús, finalmente o Senhor apareceu ao grupo reunido para lhes decepar as dúvidas e lhes fortalecer a fé.

A comunidade vacila. As perseguições estão no horizonte. O primeiro entusiasmo diminuiu, os membros estão cansados da caminhada e perdendo de vista a mensagem vitoriosa da Páscoa. Parece mais forte a morte do que a vida, a opressão do que a libertação, o pecado do que a graça. Então, Jesus aparece e lhes diz: “A paz esteja convosco!”.

O Senhor prova a eles a Sua autêntica Ressurreição e lhes confirma na paz. Ele é a paz em plenitude. E para que Suas Palavras não fiquem somente “no ar”, Ele lhes mostra as mãos, o peito e os pés rasgados.

“Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. Estas palavras indicam que Jesus se apresentou como um homem normal, com as mesmas características que tinha na vida mortal que os discípulos tão bem conheciam. Daí, podemos traduzir livremente por “Sou o mesmo que vocês conhecem, não é outra pessoa que estão vendo”. Assim, Ele os anima a apalpar Seu corpo e a ver Suas mãos e Seus pés que estavam com os sinais das chagas.

Se essas palavras têm algum sentido histórico, é o de manifestar que Jesus está vivo, que a morte não O venceu, que a vida do além pode ter momentos em que se parece com a vida anterior, como se esta seguisse e aquela fosse uma continuação. Sobre o modo de pensar de alguns teólogos, os quais dizem que a ressurreição é uma forma de vida só espiritual, vemos como Jesus se manifesta em corpo vivo e que não existe sentido em afirmar que só o espírito vive e o corpo se destrói e não alcança a nova vida.

Como diz o Catecismo, é impossível interpretar a ressurreição de Cristo fora da ordem física e não reconhecê-la como um fato histórico, pois o corpo ressuscitado de Jesus é o mesmo que foi martirizado e crucificado, trazendo as marcas da Sua Paixão. Não constitui uma volta à vida terrestre como foi o caso de Lázaro, visto que Seu corpo possui propriedades novas que o situam além do tempo e do espaço.

Jesus passa de um estado de morte para uma outra realidade. Ele participa da vida divina no estado de Sua glória, de modo que Paulo pode chamar a Cristo de o “Homem Celeste”. É por isso que Ele tem o poder de transmitir para nós a verdadeira paz. Assim como ontem, Jesus, hoje, continua dizendo: “A paz esteja convosco!”

O convite a tocar – não só a ver – indica que o corpo presente diante dos discípulos tinha aspectos físicos ou que podiam se conformar às leis físicas, à vontade do Ressuscitado. As feridas, muito mais do que o rosto, eram as marcas que determinavam, em definitivo, a realidade da pessoa na frente deles. Se falta alguma prova para se certificar de que aquilo era real, Jesus, então, come uma porção de peixe diante daqueles homens.

Parece que o Evangelista queria refutar toda dúvida possível. Mesmo assim, existem muitos como Tomé, aqui evocado não como apóstolo, mas como incrédulo. Por isso, podemos afirmar que existem muitos “Tomés” que não acreditam, porque não têm visto.

Diante do escândalo da cruz, que na época era muito maior do que nos dias de hoje, era necessário que Ele, além da Sua presença, provasse ser tudo conforme as Escrituras. Os caminhos de Deus consistem, como afirmava Paulo, em mostrar que “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,25).

Que nossa maior esperança seja ouvir a Palavra e acolher a presença do Mestre novamente entre os discípulos; não mais com um corpo humano, mas com um corpo glorioso.

Somos chamados, na liturgia, a mergulharmos numa experiência íntima com o Ressuscitado que nos diz: “A paz esteja convosco!”

Pe Jonas Abib/ Canção Nova

תּוֹרָה – Torá

Torá (do hebraico תּוֹרָה, significando instrução, apontamento, lei) é o nome dado aos cinco primeiros livros do Tanakh (também chamados de Hamisha Humshei Torah, חמשה חומשי תורהas cinco partes da Torá) e que constituem o texto central do judaísmo. Contém os relatos sobre a criação do mundo, da origem da humanidade, do pacto de Deus com Abraão e seus filhos, e a libertação dos filhos de Israel do Egito e sua peregrinação de quarenta anos até a terra prometida. Inclui também os mandamentos e leis que teriam sido dadas a Moisés para que entregasse e ensinasse ao povo de Israel.

Chamado também de Lei de Moisés (Torat Moshê, תּוֹרַת־מֹשֶׁה), hoje a maior parte dos estudiosos do Criticismo Superior concordam que Moisés não é o autor do texto que possuímos, mas sim que se trate de uma compilação posterior, enquanto os estudiosos do Criticismo Inferior acreditam que o texto foi escrito pelo próprio Moisés, incluindo as partes que falam sobre sua morte. Por vezes o termo “Torá” é usado dentro do judaísmo rabínico para designar todo o conjunto da tradição judaica, incluindo a Torá escrita, a Torá oral (ver Talmud) e os ensinamentos rabínicos. O cristianismo baseado na tradução grega Septuaginta também conhece a Torá como Pentateuco, que constitui os cinco primeiros livros da Bíblia cristã.

Divisão da Torá

As cinco partes que constituem a Torá são nomeadas de acordo com a primeira palavra de seu texto, e são assim chamadas:

Geralmente suas cópias feitas à mão, em rolos, e dentro de certas regras de composição, usadas para fins litúrgicos, são conhecidas como Sefer Torá, enquanto suas versões impressas, em livro, são conhecidas como Chumash.

Origens e desenvolvimento da Torá

A tradição judaica mais antiga defende que a Torá existe desde antes da criação do mundo e foi usada como um plano mestre do Criador para com o mundo, humanidade e principalmente com o povo judeu. No entanto, a Torá como conhecemos teria sido entregue por Deus a Moisés, quando o povo de Israel, após sair do cativeiro no Egito, peregrinou em direção à terra de Canaã. As histórias dos patriarcas, aliados ao conjunto de leis culturais, sociais, políticas e religiosas serviram para imprimir sobre o povo um sentido de nação e de separação de outras nações do mundo.

De acordo com algumas tradições, Moisés é o autor da Torá, e até mesmo a parte que discorre sobre sua morte (Devarim Deuteronômio 32:50-52) teria sido fruto de uma visão antecipada dada por Deus. Outros defendem que, ainda que a essência da Torá tenha sido trazida por Moisés, a compilação do texto final foi executada por outras pessoas. Este problema surge devido ao fato de existirem leis e fatos repetidos, narração de fatos que não poderiam ter sido escritos na época em que foram escritos e incoerência entre os eventos, que mostra a Torá como sendo fruto de fusões e adaptações de diversas fontes de tradição. A Torá seria o resultado de uma evolução gradual da religião israelita.

A primeira tentativa de sistematizar o estudo do desenvolvimento da Torá surgiu com o teólogo e médico francês Jan Astruc. Ele é o pioneiro no desenvolvimento da teoria que a Torá é constituída por três fontes básicas, denominadas jeovista, eloísta e código sacerdotal, e mais outras fontes além destas três. Deve-se enfatizar que, quando se fala destas fontes, não se refere a autores isolados, mas sim a escolas literárias.

Um estudo sobre a história do antigo povo de Israel mostra que, apesar de tudo, não havia uma unidade de doutrina e desconhecia-se uma lei escrita até os dias de Josias. As fontes jeovista e eloísta teriam sua forma plenamente desenvolvida no período dos reinos divididos entre Judá e Israel (onde surgiria também a versão conhecida como Pentateuco Samaritano). O livro de Deuteronômio só viria a surgir no reinado de Josias (621 a.C.). A Torá como conhecemos viria a ser terminada nos tempos de Esdras, onde as diversas versões seriam finalmente fundidas. Vemos então o início de práticas que eram desconhecidas da maioria dos antigos israelitas, e que só seriam aceitas como mandamentos na época do Segundo Templo como a Brit milá, Pessach e Sucót por exemplo.

Conteúdo

Em Bereshit é narrada a criação do mundo e do homem sob o ponto de vista judaico, e segue linearmente até o pacto de Deus com Abraão. São apresentados os motivos dos sofrimentos do mundo, a constante corrupção do gênero humano e a aliança que Deus faz com Abraão e seus filhos, justificados pela sua fé monoteísta, em um mundo que se torna mais idólatra e violento. Nos é apresentada a genealogia dos povos do Oriente Médio, e as histórias dos descendentes de Abraão, até o exílio de Jacó e de seus doze filhos no Egito.

Em Shemot mostram-se os fatos ocorridos neste exílio, quando os israelitas tornam-se escravos na terra do Egito, e Deus se manifesta a um israelita-egípcio, Moisés, e o utiliza como líder para libertação dos israelitas, que pretendem tomar Canaã como a terra prometida aos seus ancestrais. Após eventos miraculosos, os israelitas fogem para o deserto, e recebem a Torá dada por Deus. Aqui são narrados os primeiros mandamentos para Israel enquanto povo (antes a Bíblia menciona que eram seguidos mandamentos tribais), e mostra as primeiras revoltas do povo israelita contra a liderança de Moisés e as condições da peregrinação.

Em Vaicrá são apresentados os aspectos mais básicos do oferecimento das korbanot, das regras de cashrut e a sistematização do ministério sacerdotal.

Em Bamidbar continuam-se as narrações da saga dos israelitas no deserto, as revoltas do povo no deserto e a condenação de Deus à peregrinação de quarenta anos no deserto.

Em Devarim estão compilados os últimos discursos de Moisés antes de sua morte e da entrada na Terra de Israel.

Chumash

Chumash ou Humash (do hebraico חומש vindo do termo chamesh (fem.)/ chamisha (mas.), cinco. E também Pentateuco (do grego Πεντάτευχος (Pentáteuchos – de penta, cinco + teûchos, livro), faz alusão aos cinco livros atribuídos a Moisés), ou seja, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio que fazem parte do Antigo Testamento. Chumash é um dos nomes dados à Torah dentro do judaísmo. Geralmente é usado em relação aos “livros” da Torá, enquanto, os rolos são chamados Sefer Torá.

Pentateuco

Do grego, “os cinco rolos”, o pentateuco é composto pelos cinco primeiros livros da Bíblia. Entre os judeus é chamado de Torá, uma palavra da língua hebraica com significado associado ao ensinamento, instrução, ou especialmente Lei, uma referência à primeira secção do Tanakh, i.e., os primeiros cinco livros da Bíblia Hebraica, atribuído a Moisés. Os judeus também usam a palavra Torá num sentido mais amplo, para referir o ensinamento judeu através da história como um todo. Neste sentido, o termo abrange todo o Tanakh, o Mishnah, o Talmud e a literatura midrash. Em seu sentido mais amplo, os judeus usam a palavra Torá para referir-se a todo e qualquer tipo de ensino ou filosofia.

Autoria

A Teologia tradicional atribui a autoria a Moisés, entretanto existem outras teorias.

A Edição Pastoral da Bíblia sustenta que o Pentateuco tem origem na Tradição oral e foi escrito durante seis séculos, reformulando, adaptando e atualizando tradições antigas e criando novas.

Julius Wellhausen (1844-1918) sustenta que o Pentateuco é uma obra redacional, composta de quatro diferentes tradições (documentos): a Javista com textos compostos na época da Monarquia (950 AC), a Eloísta com textos posteriores ao ano 750 AC, a Deuteronomista com textos escritos aproximadamente no ano 600 AC e a Sacerdotal com textos escritos no exílio babilônico (por volta do ano 500 AC).

Livros do pentateuco (Torá)

Génesis

Primeiro livro da Bíblia. Narra acontecimentos, desde a criação do mundo, na perspectiva judaica (o chamado “relato do Génesis“), passando pelos Patriarcas hebreus, até à fixação deste povo no Egipto, depois da história de José. Génesis segundo a mitologia Judaica é o início, é o principio da criação dos ceús, da terra, da humanidade e de tudo quanto existe vida, todos os seres. O livro é o primeiro dos cinco livros atribuidos a Moisés.

Êxodo

O livro conta a história da saída do povo de Israel do Egito, onde foram escravos durante 400 anos. Narra o nascimento, a vida e o ministério de Moisés diante do povo de Israel, bem como o estabelecimento da Lei e a construção do Tabernáculo. Mostra o início de um relacionamento entre o povo recém-saído do Egito e Deus através de uma aliança proposta pelo próprio Deus. É a organização do Judaísmo.

Levítico

Basicamente é um livro teocrático, isto é, tem caráter legislativo; apresenta em seu texto o ritual dos sacrifícios, as normas que diferenciam o puro do impuro, a lei da santidade e o calendário religioso entre outras normas e legislações que regulariam a religião.

Números

Este livro é de interesse histórico, pois fornece detalhes acerca da rota dos israelitas no deserto e de seus principais acampamentos. Pode ser dividido em três partes:

  • O recenseamento do povo no Sinai e os preparativos para retomar a marcha (1-10:10). O capítulo 6 relata o voto de Nazireu.
  • A história da jornada do Sinai até Moabe, o envio dos espiões e o relato que fizeram, e as murmurações (oito vezes) do povo contra as dificuldades do caminho (10:11-21:20).
  • Os eventos na planície de Moabe, antes da travessia do Jordão (21:21-cap. 36).

Deuteronômio

Contém os discursos de Moisés ao povo, no deserto, durante seu êxodo do Egito à Terra Prometida por Deus. Os discursos contidos nesse livro, em geral, reforçam a idéia de que servir a Deus não é apenas seguir sua lei. O título provém do grego e quer dizer: Segunda Lei, ou melhor, Repetição da Lei. Em Êxodo, Levítico e Números, as leis foram dadas, conforme a necessidade da ocasião, a um povo acampado no deserto. Em Deuteronômio, essas leis foram repetidas a uma geração que, dentro em breve, moraria nas casas, vilas e cidades da terra prometida.

Pentateuco samaritano

Pentateuco Samaritano ou Torá Samaritana é o nome que se dá à Torá usada pelos judeus samaritanos. Os samaritanos recusam o restante dos livros do Tanakh, aceitando apenas sua Torá como livro inspirado. Os samaritanos os rejeitam por não aceitá-lo como vindo de Deus.

O Pentateuco samaritano está escrito no alfabeto samaritano, que é diferente do hebraico e era a forma de escrita usada antes do cativeiro babilônico (cerca de 597-586 a.C). Além da linguagem diferente, existem outras discrepâncias entre o Texto Massorético e a Torá Samaritana. Um exemplo é que na versão samaritana dos Dez Mandamentos, onde Deus conclama o povo que construa o altar no Monte Gerizim. O Pentateuco Samaritano ficou conhecido mundialmente, quando Pietro della Valle trouxe de Damasco em 1616 uma cópia do texto.

Mesmo assim essa versão do texto samaritano não é absoluta. Em Q’umran foram encontrados fragmentos do texto que combinam com o Texto Massorético, como por exemplo não trazer nenhuma referência ao Monte Gerizim

Sefer Torá

Sefer Torá (do hebraico ספר תורה , plural ספרי תורה, Sifrei Torah; Livros da Torá ou Rolos da Torá) é o nome dado aos rolos da Torá, copiados à mão e cuja composição obedece uma série de obrigações de produção. Considerado a obra mais sagrada do Judaísmo, é guardada em um recinto reservado nas sinagogas conhecido como Aron Kodesh.

O texto da Torá impresso (para rituais não litúrgicos) geralmente em forma de livro é conhecido como Chumash, geralmente acompanhado de comentários e traduções.

Tanakh

Tanakh ou Tanach (em hebraico תנ״ך) é um acrônimo utilizado dentro do judaísmo para denominar seu conjunto principal de livros sagrados, sendo o mais próximo do que se pode chamar de uma Bíblia judaica.

O conteúdo do Tanakh é equivalente ao Antigo Testamento cristão, porém com outra divisão.

A palavra é formada pelas sílabas iniciais das três porções que a constituem, a saber:

  • A Torá (תורה), também chamado חומש (Chumash, isto é “Os cinco”) refere-se aos cinco livros conhecidos como Pentateuco, o mais importante dos livros do judaísmo.
  • Neviim (נביאים) “Profetas
  • Kethuvim (כתובים) “os Escritos”

O Tanakh é às vezes chamado de Mikrá (מקרא).

O Tanakh e o Antigo Testamento

A divisão refletida pelo acrônimo Tanakh está atestada em documentos do período do Segundo Templo e na literatura rabínica. Durante aquele período, entretanto, o acrônimo Tanakh não era usado, sendo que o termo apropriado era Mikra (“Leitura”). Este termo continua sendo usado em nossos dias, junto com Tanakh, em referência as escrituras hebraicas.

No hebraico moderno, o uso do termo Mikrá dá um tom mais formal do que o termo Tanakh.

De acordo com a tradição judaica, o Tanakh consiste de vinte e quatro livros. A Torá possui cinco livros, o Nevi’im oito e o Ketuvim onze.

Esses vinte e quatro livros são os mesmos livros encontrados no Antigo Testamento protestante, mas sua ordem é diferente. A enumeração também difere: os cristãos contam esses livros como trinta e nove, pois contam como vários alguns livros que os judeus contam como um só.

O termo Velho Testamento, apesar de comum, é muitas vezes considerado pejorativo pelos judeus, pois pode ser interpretado como inferior ou antiquado.

O termo Bíblia hebraica é adotado por alguns estudiosos para indicar que existe uma equivalência entre o Tanakh e o Antigo Testamento, tentando evitar algum sectarismo.

Os Antigos Testamentos católico e ortodoxo contêm seis livros que não estão incluídos no Tanakh. Eles são chamados “Deuterocanônicos” por ter tido sua canonicidade contestada por alguns dos Padres da Igreja, mas por fim foram decretados inspirados em concílio, conforme ressaltado abaixo. Todavia, tais livros sempre fizeram parte da literatura hebraica, sendo estudados nas sinagogas, tendo um estimado valor dentro do judaísmo e para a história de Israel, como é o caso de I Macabeus e II Macabeus, os quais narram a heróica resistência ao helenismo na Palestina.

Nas bíblias das Igrejas Católica Romana e Ortodoxas, Daniel e o Livro de Esther podem incluir material deuterocanônico que não está na Tanakh ou no Antigo Testamento protestante.

Línguas

A maior parte dos livros do Tanakh estão escritos em hebraico. Partes de Daniel, Esdras, uma sentença em Jeremias e um topônimo no Gênesis estão em aramaico, mas com escrita hebraica

Deuterocanônicos

O que aconteceu no Concílio de Trento foi apenas uma confirmação dos Livros aceitos como pertencentes às Sagradas Escrituras que não é outra coisa senão a repetição da mesma lista aprovada pelo Concílio de Hipona em 367 d.C. em seu canon nº. 36:

Cânon 36 – “Parece-nos bom que, fora das Escrituras canônicas, nada deva ser lido na Igreja sob o nome ‘Divinas Escrituras’. E as Escrituras canônicas são as seguintes:

  • Gênese, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute, quatro livros dos Reinos(1),
  • dois livros dos Paralipômenos(2)
  • Jó, Saltério de Davi, cinco livros de Salomão(3),
  • doze livros dos Profetas(4),
  • Isaías, Jeremias(5),
  • Daniel, Ezequiel, TOBIAS, JUDITE, Ester, dois livros de Esdras(6)
  • e dois [livros] dos MACABEUS. E do Novo Testamento: quatro livros dos Evangelhos(7),
  • um [livro de] Atos dos Apóstolos, treze epístolas de Paulo (8), uma do mesmo aos Hebreus(9),
  • duas de Pedro, três de João, uma de Tiago, uma de Judas e o Apocalipse de João(10).
  • Sobre a confirmação deste cânon se consultará a Igreja do outro lado do mar(11).

É também permitida a leitura das Paixões dos mártires na celebração de seus respectivos aniversários” (Concílio de Hipona, 08.Out.393).

NOTA: Pelo que consta da lista acima e conforme anotações abaixo, estão contidos neste cânon os sete livros DEUTEROCANÔNICOS (em MAIÚSCULAS). Tais livros não fazem parte do Cânon Judaico, definido por um conjunto de rabinos no chamado Concílio de Jamnia no fim do século I, mas estavam desde o século I A.C. no cânon da Septuaginta, junto com outros livros considerados apócrifos por judeus modernos e pela maioria dos cristãos.

1-Trata-se dos dois livros de Samuel (1Rs/2Rs) e os dois livros de Reis (3Rs/4Rs).
2-Isto é, os dois livros das Crônicas (1Cr/2Cr).
3-Ou seja: Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, SABEDORIA e ECLESIÁSTICO.
4-A saber: Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
5-Incluindo as “Lamentações” e “BARUC”.
6-Isto é, o livro de Esdras e o livro de Neemias.
7-Mateus, Marcos, Lucas e João.
8-Aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, a Tito e a Filemon.
9-Curiosa distinção resultada, provavelmente, dos escrúpulos que a Igreja Africana tinha a respeito da autenticidade literária paulina dessa epístola.
10-Percebe-se, assim, que o cânon coincide perfeitamente com o cânon definido pelo Concílio de Trento.
11-Trata-se da Igreja de Roma

Canon Judaico

De acordo coma tradição judaica (Midrash Rabbah 12:12) o Canon Judaico é composto de 24 livros que se agrupam em 3 conjuntos: A Lei ou Instrução, Os Profetas e Os Escritos. Os livros de 1 e 2 Samuel, são reunidos em um só livro, e 1 Reis e 2 Reis, também são considerados um só livro, assim como os 12 profetas “menores” estão em um só livro – “Os 12 profetas”. A ordem do Cânon é apresentada abaixo:

Torá ( תורה )

Instrução (Os 5 de Moisés) (5)

  Neviim ( נביאים)

Profetas (8)

  Kethuvim (כתובים)

Escritos (11)

O historiador judeu Flávio Josefo descreve em sua obra Contra Ápion, que o Canon possuía 22 livros. Algumas escolas sugerem que ele considerou Rute como parte de Juízes, e Lamentações como parte de Jeremias. Jerônimo, autor da célebre tradução da Bíblia para o latim conhecida como Vulgata, também fez essa mesma afirmação no Prologus Galeatus.

Talmude

O Talmude (em hebraico: תַּלְמוּד, transl. Talmud) é o Livro Sagrado dos judeus, um registro das discussões rabínicas que pertencem à lei, ética, costumes e história do judaísmo.[carece de fontes?] É um texto central para o judaísmo rabínico.[carece de fontes?]

O Talmude tem dois componentes: a Mishná (c. 200 d.C.), o primeiro compêndio escrito da Lei Oral judaica; e o Guemará (c. 500 d.C.), uma discussão da Mishná e dos escritos tanaíticos que frequentemente abordam outros tópicos, e são expostos amplamente no Tanakh.

O Mishná foi redigido pelos mestres chamados Tannaim (“tanaítas“), termo que deriva da palavra hebraica que significa “ensinar” ou “transmitir uma tradição”. Os tanaítas viveram entre o século I e o III d.C. A primeira codificação é atribuída a Rabi Akiva (50130), e uma segunda, a Rabi Meir (entre 130 e 160 d.C.), ambas as versões tendo sido escritas no atual idioma aramaico, ainda em uso no interior da Síria.

Os termos Talmud e Guemará são utilizados frequentemente de maneira intercambiável. A Guemará é a base de todos os códigos da lei rabínica, e é muito citada no resto da literatura rabínica; já o Talmude também é chamado frequentemente de Shas (hebraico: ש”ס), uma abreviação em hebraico de shisha sedarim, as “seis ordens” da Mishná.

História

Lei oral

Originalmente, o estudo acadêmico do judaísmo era oral. Os rabinos expunham e debatiam a lei (isto é, a Bíblia hebraica) e discutiam o Tanakh sem o benefício das obras escritas (além dos próprios livros bíblicos), embora alguns possam ter feito anotações privadas (meguilot setarim), por exemplo, a respeito das decisões de cortes. A situação se mudou drasticamente, no entanto, principalmente como resultado da destruição da comunidade judaica no ano de 70 d.C., e os consequentes distúrbios nas normas legais e sociais judaicas. À medida que os rabinos foram forçados a encarar uma nova realidade — principalmente a dum judaísmo sem um Templo (para servir como centro de estudo e ensino) e uma Judéia sem autonomia — surgiu uma enxurrada de discursos legais, e o antigo sistema de estudiosidade oral não pôde ser mantida. Foi durante este período que o discurdo rabínico passou a ser registrado na escrita. A primeira lei oral registrada pode ter sido na forma dos Midrash, na qual a discussão haláquica está estruturada como comentários exegéticos sobre o Pentateuco. Uma forma alternativa, porém, organizada pelos tópicos de assuntos, em vez dos versos bíblicos, tornou-se dominante por volta do ano 200 d.C., quando o rabino Judá HaNasi redigiu a Mishná (משנה).

A Lei Oral estava longe de ser monolítica ,variando enormemente entre diversas escolas. As duas mais famosas eram a Escola de Shammai e a Escola de Hillel. No geral, todas as opiniões, mesmo as não-normativas, eram registradas no Talmude.

Mishná

A Mixná ou Míxena, também chamada de Mishná, é uma compilação de opiniões e debates legais. As declarações contidas na Mixná são tipicamente concisas, registrando as opiniões breves dos rabinos debatendo algum tópico, ou registram apenas um veredito anônimo, que aparentemente representava uma visão consensual. Os rabinos registrados na Mixná são chamados de Tannaim.

Na medida em que suas leis estão ordenadas pelo assunto dos tópicos, e não pelo conteúdo bíblico, e a Mishná discute cada assunto, individualmente, de maneira mais extensa que os Midrash, e inclui uma seleção muito maior de assuntos haláquicos. A organização da Mishná tornou-se, desta maneira, a estrutura do Talmude como um todo. Porém nem todos os tratados da Mishná possuem uma Guemará correspondente. Além disso, a ordem dos tratados do Talmude difere, em muitos casos, da do Mishná.

Baraita

Além da Mishná, outros ensinamentos tanaíticos eram correntes na mesma época, e por algum tempo depois. A Guemará frequentemente se refere a estas declarações tanaíticas, para compará-los àqueles contidos na Mishná e para apoiar ou refutar as proposições dos Amoraim. Todas estas fontes tanaíticas não-mishnaicas são denominadas de baraitot (singular baraita, ברייתא – literalmente “material de fora”, se referindo às obras externas ao Mishná).

Os baraitot citados no Guemará são, frequentemente, citações da Toseftá (um compêndio tanaítico da Halaká, paralela à Mishná) e dos midrashim haláquicos especificamente Mekhilta, Sifra e Sifre.[carece de fontes?] Alguns baraitot, no entanto, são conhecidos apenas por tradições citadas no Guemará, e não formam parte de qualquer outra coleção.

Guemará

Nos três séculos que se seguiram à redação da Mishná, os rabinos de Israel e da Babilônia analisaram, debateram e discutiram aquela obra. Estas discussões foram a Guemará (גמרא). A palavra significa “completude”, em hebraico, do verbo gamar (גמר), “completar”, “aprender”. A Guemará se focaliza principalmente na elucidação e elaboração das opiniões dos Tannaim. Os rabinos do Guemará ficaram conhecidos como Amoraim (no singular Amora, אמורא).

Boa parte da Guemará consiste de análises legais. O ponto de partida para a análise é, costumeiramente, uma declaração legal existente em determinada Mixná. A declaração é então analisada e comparada com outras declarações, numa troca dialética entre dois disputantes (frequentemente anônimos, por vezes metafóricos), que são chamados de makshan (“questionador”) e tartzan (“respondendor”). Outra função importante da Guemará é identificar a base bíblica correta para determinada lei apresentada na Mishná, assim como o processo lógico que a conecta com outra: esta atividade era conhecidade como talmud, muito antes da existência do Talmude como texto.

Estas trocas formam os componentes básicos da Guemará; o nome dado a cada passagem é sugya (סוגיא; plural sugyot). Uma Sugya costumeiramente contém uma elaboração cuidadosamente estudada e detalhada de uma declaração mishnaica.

Em determinada sugya, declarações escriturais, tanaíticas e amoraicas, são trazidos para reforçar as diversas opiniões. Ao fazê-lo, a Guemará levanta discordâncias semânticas entre os Tannaim e os Amoraim (frequentemente direcionando o ponto de vista para uma autoridade mais antiga, no sentido de como ele teria respondido a questão), e comparando as visões mishnaicas com as passagens da Baraitá. Raramente os debates são encerrados formalmente; em muitos casos, a palavra final determina a lei prática, embora existam diversas exceções a este princípio.

Halaca e Agadá

O Talmude contém um material vasto, que aborda assuntos de naturezas muito diversas.[carece de fontes?] Tradicionalmente, as declarações talmúdicas podem ser classificadas em duas categorias amplas, as declarações haláquicas e agádicas.[carece de fontes?] As declarações haláquicas são aquelas que se relacionam diretamente com as questões da prática e lei judaica (Halaca), enquanto as declarações agádicas são aquelas que não tem qualquer conteúdo legal, sendo de natureza mais exegética, homilética, ética ou histórica

Bavli e Yerushalmi

O processo da Guemará continuou nos dois principais centros do academicismo judaico da época, na Terra de Israel e na cidade de Babilônia, grande centro da Mesopotâmia. De maneira correspondente, os dois corpos de análise se desenvolveram separadamente, e as duas obras do Talmude foram criadas. A compilação mais antiga é chamada de Talmude de Jerusalém (Talmud Yerushalmi). Foi compilado em Israel, durante o século IV d.C.. Já o Talmude Babilônico (Talmud Bavli), foi compilado ao redor do ano 500, embora tenha continuado a ser editado posteriormente. A palavra “Talmude”, quando utilizada sem qualquer qualificação, costuma se referir ao Talmude Babilônico.

 Paz amados(as), espero que este material ajude-nos a aprofundar nos nossos estudos, até o próximo post

Apócrifos e Pseudo-Epígrafos da Bíblia

Uma introdução histórica e crítica aos apócrifos do Segundo Testamento (ST) é o objetivo primeiro deste nosso ensaio. Ousamos reler o cristianismo nos seus sete primeiros séculos, a partir dos oitenta livros apócrifos. A obra inicia com uma breve introdução geral à Bíblia, de modo que o leitor possa, de antemão, visualizar os apócrifos no cenário bíblico canônico (inspirado). O conteúdo de cada apócrifo está situado no seu contexto histórico, político e eclesial, numa linha do tempo. De outro modo, não se pode falar dos apócrifos. Caso contrário, eles serão simplesmente rechaçados como falsificações de uma verdade histórica, assim como sucedeu até os nossos dias.   

Partimos do pressuposto de que o maior intento do cristianismo que se tornou hegemônico, dentre outros tantos cristianismos de origem, foi o de afirmar e comprovar a historicidade de Jesus, morto e ressuscitado, como realização das promessas do Primeiro Testamento (PT). Assim, o cristianismo se justificou diante do império como religião antiga e ganhou credibilidade. 

O nosso estudo teve o cuidado de fazer uma leitura teológica, histórica, crítica, ecumênica e pastoral dos apócrifos na história do cristianismo. Procuramos, a partir de todos os livros apócrifos do Segundo Testamento, compreender os fundamentos do cristianismo hegemônico e sua relação com os cristianismos apócrifos, classificados por nós de aberrantes, complementares e alternativos. Algumas temáticas também foram aprofundadas a partir dos apócrifos, tais como: a questão de gênero, a virgindade, a não-reprodução, a traição de Judas e a história de Maria.   

O(a) leitor(a) se surpreenderá ao ver a sua visão de fé sendo discutida e definida ao longo dos séculos, em temas como: ressurreição, morte, sofrimento, martírio, sexualidade, virgindade, instituição eclesial, etc.   

O objetivo deste estudo não é defender a canonicidade dos apócrifos, sejam eles meramente cristãos ou cristãos gnósticos, mas dialogar com a fé primeva de nossos antepassados. Se o cristianismo que hoje professamos e vivenciamos, em qualquer que seja o ramo ou a igreja, é sólido, é porque ele se dignou ser aquele que mais se aproximou do evento histórico Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado.

Atos apócrifos de Judas Tadeu e Simão

“A história destes dois apóstolos é contada em um único relato em Memórias apostólicas de Abdias. A ação apostólica deles é realizada em conjunto.
Judas Tadeu é um dos apóstolos mais populares. Todo dia 28 de cada mês, igrejas lotam para prestar-lhe homenagem. O seu dia é 28 de outubro.
Foi Santa Brígida da Suécia (1303-1373) que propagou a devoção a São Judas Tadeu como Santo das causas urgentes. Jesus lhe teria aparecido aconselhando a invocar São Judas Tadeu para resolver os seus problemas.

Perfil
Nome: Judas é um nome comum entre os judeus. Tadeu significa “o corajoso”. Simeão é o diminutivo de Samuel e significa “Deus ouviu”. Simão era chamado também de Cananeu ou o Zelota.
Parentesco: Tadeu e Simão eram considerados irmãos (Lc 6,16).
Morte: Ambos morreram martirizados no dia primeiro de julho, na cidade de Suanir, por se negarem a sacrificar aos ídolos.

Principais feitos apostólicos narrados nos Atos Apócrifos
• Ambos travaram batalha teológica e doutrinária com os magos Zaroém e Arfaxat, da Pérsia.
• Na Babilônia, eles realizam curas, milagres, expulsam demônios, batizam, ordenam presbíteros, diáconos, clérigos e fundam igrejas.
• Na Babilônia, Simão e Judas consagram Abdias como bispo local.

Alguns atos apócrifos de Judas e Simão
As narrativas apócrifas sobre Judas Tadeu e Simão não são muitas.

Judas e Simão se preparam para desafiar os magos Zaroém e Arfaxat.
Na continuidade da narrativa sobre Tiago, o Irmão do Senhor, Memórias apostólicas de Abdias afirma que o dito acima se refere a Tiago. Quanto a seus irmãos, mais velhos que ele, Simão chamado o Cananeu e Judas chamado Tadeu e Zelota, também eles apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo, que entraram na religião por revelação do Espírito Santo e pela fé, no início da sua pregação tiveram de enfrentar logo dois magos, Zaroém e Arfaxat, que tinham fugido da Etiópia da presença de São Mateus apóstolo. A doutrina deles, com efeito, era perversa: blasfemavam o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, chamando-o o Deus das trevas. Acrescentavam que Moisés era um mago e que todos os profetas de Deus tinham sido enviados pelo Deus das trevas.
Diziam, além disso, que a alma humana tinha uma parte divina e que o corpo, ao contrário, tinha sido feito por um deus mau, e por isso é composto de substâncias opostas: com algumas a carne se alegra enquanto a alma se entristece; e com outras a alma se alegra e o corpo, ao contrário, se aflige. Acrescentavam ao número dos deuses o sol e a lua, e ensinavam que a água também era divina. Do Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, afirmavam que era um produto da imaginação: que não era verdadeiro homem, que não nascera de uma virgem, que não fora na verdade tentado nem verdadeiramente padecera, nem fora de verdade sepultado, e que depois do terceiro dia não ressurgira dos mortos.
A Pérsia, contaminada por essa doutrina, depois de Zaroém e Arfaxat, mereceu encontrar através dos bem-aventurados apóstolos Simão e Judas o grande mestre, isto é, o Senhor Jesus Cristo, que tinha proclamado que enviaria do céu o Espírito Santo, segundo a promessa que dizia: “Vou para o Pai e vos envio o Espírito Paráclito” [Jo 15,26; 16,7].

Simão e Judas viajam para a Pérsia
Tendo empreendido a viagem com a precisa intenção de libertar, assim que chegassem, a Pérsia da triste sedução dos mestres acima citados, os apóstolos Simão e Judas encontraram o exército que partia para a guerra, guiado pelo comandante supremo do rei da Babilônia, Xerxes, Varardac. Este havia declarado a guerra contra os hindos, que tinham invadido o território da Pérsia: em seu séquito iam sacrificadores, adivinhos, magos, encantadores, cada um conforme seu próprio encargo, sacrificando aos demônios, dava o vaticínio da própria falácia.
Aconteceu que, no dia em que os apóstolos se achavam entre os soldados, aqueles embora se cortassem e derramassem o próprio sangue, não conseguiam dar ao comandante o vaticínio a propósito da guerra. Dirigiram-se por isso ao templo da cidade próxima para consultar ali os deuses. Ouviram então um deles que com enorme mugido assim sentenciava: “Há homens estrangeiros caminhando convosco para irem à batalha; por isso não vos podem dar vaticínios. Foi-lhes com efeito concedido tal poder por Deus, que nenhum de nós ousa falar em sua presença”.

Simão e Judas testemunham a fé em Cristo diante do Rei da Pérsia, Xerxes
Tendo sabido disso, o comandante supremo do rei Xerxes, Varardac, mandou que os procurassem no exército. Tendo-os encontrado, perguntou-lhes de onde eram, e por que tinham ido àqueles lugares. Respondeu-lhe o santo apóstolo Simão: “Se perguntas pela origem, somos judeus; se pela nossa condição, somos servos de Jesus Cristo; se queres saber o motivo da nossa presença, viemos para a vossa salvação, a fim de que abandoneis o falso culto dos ídolos e possais [assim] conhecer o Deus que está nos céus”.
“Por ora – disse o comandante Varardac, respondendo-lhe – estou para entrar em combate a fim de manter afastados os indos que desejam invadir a Pérsia, antes que consigam ganhar o auxílio das forças dos medos contra nós. Por isso não é agora o momento oportuno de discutir as vossas coisas. Se depois o regresso for feliz e favorável a nós, eu vos ouvirei”.
O apóstolo Judas (respondeu): “Senhor, ouve-me, é mais conveniente que conheças aquele com cuja força e com cujo auxílio podes vencer, ou ao menos encontrar calmos aqueles que contra ti se rebelaram”.
Então o comandante Varardac disse: “Como ouço que os vossos deuses estão diante de vós e vos dão os vaticínios, quero que nos predigais o futuro, a fim de que eu possa saber o resultado da batalha”.

Simão propõe um desafio
Simão então respondeu: “A fim de que te dês conta de que erram aqueles que tu pensas possam predizer-te o futuro, demos a eles a palavra para responder-te. Quando houverem dito aquilo que não sabem, nós provaremos que eles mentiram em tudo”. Tendo elevado uma prece ao Senhor, prosseguiu: “Em nome do Senhor nosso Jesus Cristo ordenamos que deis, segundo o costume, o vaticínio àqueles que estavam acostumados a vos interrogar”. A este seu comando aqueles fanáticos começaram a se agitar, e a dizer: “Haverá uma guerra e tanto de um lado como do outro poderão morrer muitos combatentes”. Diante disso, os apóstolos de Deus em um ímpeto de júbilo prorromperam em riso. Varardac lhes disse: “Estou imerso em grande temor e vós estais rindo?” E os apóstolos: “Que cesse o teu temor, pois com nossa chegada entrou a paz nesta província. Por isso deixa de lado o teu projeto defensivo. Com efeito amanhã, a esta mesma hora, ou seja a terceira, virão a ti aqueles que mandaste à frente junto com os embaixadores dos indos, os quais vos anunciarão que as terras invadidas estão restituídas ao vosso domínio, pagarão quanto vos devem, tratarão a paz consentindo de bom grado em vossa proposta, não importando as condições que fixardes, e estabelecerão convosco um pacto firmíssimo”.
Mas os principais sacerdotes do comandante zombaram desse modo de falar, dizendo: “Senhor, não dês crédito a esses homens vãos e mentirosos, estrangeiros e por isso desconhecidos; são vãos e mentirosos e por isso dizem coisas agradáveis para não serem presos como espiões. Os nossos deuses, que nunca se enganam, te deram o vaticínio: sê cauteloso e pronto para todas as emergências; não sigas aqueles que ansiosamente tentam tranquilizar-te para que, enquanto te achares menos atento, de repente, possas ser atacado facilmente e do modo mais violento”. Mas o santo apóstolo Simão respondeu: “Escuta-me, comandante. Nós estrangeiros e desconhecidos, mentirosos quanto queiras, não te ordenamos que esperes um mês. Nós te dissemos ‘espera um só dia e amanhã de manhã por volta da hora terceira chegarão aqueles que enviaste’. Com eles virão os representantes dos indos, os quais receberão de ti as condições de paz, e serão em seguida tributários dos persas”.
Depois de ouvirem essas coisas, os sacerdotes persas, que estavam no exército, gritavam abertamente: “Nossos magníficos deuses, em suas vestes douradas, cheias de pedras preciosas, purpúreas e tecidas de ouro, entre as taças, o linho e a seda, e todo o esplendor do reino babilônico, ao dar os vaticínios divinos, algumas vezes podem errar; mas esses esfarrapados, sem personalidade alguma, como é que ousam atribuir-se tanto? O simples fitá-los é uma injúria. E tu, comandante, não punes esses, cuja simples presença é uma injúria aos nossos deuses?” Respondeu o comandante: “É estranho que forasteiros, miseráveis e desconhecidos, afirmem com tanta constância aquilo que parece contrário ao testemunho dos nossos deuses”.
Os chefes dos sacerdotes lhe responderam: “Manda que sejam postos sob custódia, para que não fujam”. E o comandante: “Não só ordenarei que sejam postos sob custódia, mas vós mesmos ficareis sob vigilância até amanhã, a fim de que aquilo que se verificar se pode ou não comprovar o testemunho deles. Depois se verá quem verdadeiramente deve ser condenado”.

 A continuidade destes relatos sobre os atos apócrifos e vida de Judas Tadeu e Simão encontram-se no livro Vida secreta dos apóstolos e apóstolas à luz dos Atos Apócrifos, p. 284-304, Editora Vozes, e de autoria de Frei Jacir de Freitas Faria. 
 

O Evangelho de Maria Madalena

Frei Jacir de Freitas Faria

Infelizmente, a descoberta do Evangelho de Maria Madalena, em 1945, no Alto Egito, em Nag-Hammadi, também não nos logrou oferecer o texto completo do evangelho. Faltam as páginas iniciais, 1 a 6 e 11 a 14.Abaixo apresento uma página do Evangelho de Maria Madalena. O texto completo se encontra traduzido e comentado por Jean-Ives Leloup e Jacir de Freitas nos livros:

FARIA, Jacir de Freitas. As origens apócrifas do cristianismo: Comentários aos evangelhos de Maria Madalena e Tomé. São Paulo: Paulinas, 2003; e
LELOUP, Jean-Ives. Evangelho de Maria: Miriam de Mágdala, Petrópolis: Vozes, 1998. 

1 “O apego à matéria
2 gera uma paixão contra a natureza.
3 É então que nasce a perturbação em todo o corpo;
4 é por isso que eu vos digo:
5 ‘Estejais em harmonia…’
6 Se sois desregrados
7 inspirai-vos em representações
8 de vossa verdadeira natureza.
9 Que aquele que tem ouvidos
10 para ouvir, ouça.”
11 Após ter dito aquilo, o Bem-aventurado
12 saudou-os a todos dizendo:
13 “Paz a vós – que minha Paz
14 seja gerada e se complete em vós!
15 Velai para que ninguém vos engane
16 dizendo:
17 ‘Ei-lo aqui.
18 Ei-lo lá.
19 Porque é em vosso interior
20 que está o Filho do Homem;
21 ide a Ele:
22 aquele que o procuram o encontram
23 em marcha!
24 Anunciai o Evangelho do Reino. 

* Seguimos literalmente a tradução de Jean-Yves Leloup em O Evangelho de Maria; Míriam de Mágdala.

 
O Evangelho de Pedro

Frei Jacir de Freitas Faria

O Evangelho de Pedro foi descoberto no Alto Egito, sendo que o último ocorreu no ano de 1886, numa localidade chamada de Akhmin. Serapião, bispo de Antioquia (190-211), bem como Orígenes, Eusébio de Cesareia, Teodoreto de Ciro e Jerônimo fazem referência ao Evangelho de Pedro, o qual pode ser datado na primeira metade do século II.Serapião chega a permitir o uso do Evangelho de Pedro, mas depois se dá conta de que se trata de um texto influenciado por doutrinas heréticas de Marcião, gnosticismo e docetismo. Assim ele escreve, concluindo a sua carta apostólica aos cristãos de Rossos : “Assim, digo, pudemos por meio destes manusear o livro em questão, percorrê-lo e comprovar que a maior parte do conteúdo está de acordo com a reta doutrina do Salvador, se bem que se encontrem algumas inovações que submetemos à vossa consideração. É isto que vos escreve Serapião” 1.

O texto que segue foi traduzido por Lincoln Ramos e se encontra publicado e comentado nos seguintes livros: FARIA, Jacir de Freitas, O outro Pedro e a outra Madalena segundo os apócrifos. Petrópolis: Vozes, 2004 e RAMOS, Lincoln. Fragmentos dos Evangelhos apócrifos, Petrópolis: Vozes, 1989.

Condenação e escárnio de Jesus

I.
1. Mas nenhum dos judeus lavou as mãos, nem Herodes, nem qualquer de seus juízes. Como não quisessem eles lavar-se, Pilatos se levantou.

2. Mandou, então o rei Herodes que levassem o Senhor para fora, dizendo-lhes: “Fazei tudo o que vos ordenei que fizésseis”.

II.
3. Encontrava-se ali José, amigo de Pilatos e do Senhor. Quando soube que o crucificariam, dirigiu-se a Pilatos e lhe pediu o corpo do Senhor para ser sepultado.

4. Pilatos, de sua parte, o mandou a Herodes para que lhe pedisse o corpo.

5. Disse Herodes: “Irmão Pilatos, ainda que ninguém o tivesse pedido, nós o teríamos sepultado, pois se aproxima o sábado. E está escrito na lei: ‘Não se ponha o sol sobre o justiçado’”.

E o entregou ao povo no dia antes dos ázimos, a festa deles.

III.
6. Apoderando-se do Senhor, eles o empurravam e diziam: “Arrastemos o filho de Deus, pois finalmente caiu em nossas mãos”.

7. Vestiram-no com um manto de púrpura, fizeram-no sentar-se numa cadeira do tribunal, dizendo: “Julga com justiça, ó rei de Israel!”

8. Um deles trouxe uma coroa de espinhos e a colocou na cabeça do Senhor.

9. Outros que ali se encontravam cuspiram-lhe no rosto; outros lhe batiam nas faces, outros o fustigavam com uma vara; alguns o flagelavam, dizendo: “Esta é a honra que prestamos ao filho de Deus”.

IV.
10. Levaram para lá dois malfeitores e crucificaram o Senhor no meio deles. Mas ele se calava como se não sentisse qualquer dor.

11. Quando ergueram a cruz, escreveram no alto: “Este é o rei de Israel”.

12. Colocaram as vestes diante dele, dividiram-nas e lançaram sorte sobre elas.

13. Mas um dos malfeitores o repreendeu, dizendo: “Nós sofremos assim por causa de ações más que praticamos. Este, porém, que se tornou salvador dos homens, que mal vos fez?”

14. Indignados contra ele, ordenaram que não lhe fossem quebradas as pernas e assim morresse entre os tormentos.

V.
15. Era meio-dia, quando as trevas cobriram toda a Judeia. Eles se agitavam e se angustiavam, supondo que o sol já se tivesse posto, pois ele ainda estava vivo. E está escrito para eles: “Não se ponha o sol sobre um justificado”.

16. E um deles disse: “Dai-lhe de beber fel com vinagre”. Fizeram um mistura e lhe deram para beber.

17. E cumpriram tudo, enchendo desse modo a medida de seus pecados sobre suas cabeças.

18. Muitos andavam com fachos e, pensando que fosse noite, retiraram-se para repousar.

19. E o Senhor gritou, dizendo: “Minha força, minha força, tu me abandonaste!” Enquanto assim falava, foi assumido na glória.

20. Na mesma hora o véu do templo de Jerusalém se rasgou em duas partes.

VI.
21. Tiraram os pregos das mãos do Senhor e o depuseram no chão. Tremeu toda a terra e houve grande medo.

22. Brilhou, então, o sol e reconheceram que era a nona hora (três horas da tarde).

23. Alegraram-se os judeus e deram seu corpo a José para que o sepultasse. José tinha visto todo o bem que Jesus fizera.

24. Tomando o Senhor, levou-o, envolvendo-o em um lençol e o depositou em seu próprio sepulcro, chamado jardim de José.

VII.
25. Os judeus, os anciãos e os sacerdotes compreenderam, então, o grande mal que tinham feito a si mesmos e começaram a lamentar-se, batendo no peito e dizendo: “Ai de nossos pecados! O juízo e fim de Jerusalém estão agora próximos!”

26. Eu (Pedro) e meus amigos estávamos tristes; de ânimo abatido nos escondíamos. Estávamos sendo procurados por eles como malfeitores e como aqueles que queriam incendiar o templo.

27. Por causa de tudo isto, jejuávamos e nos assentávamos, lamentando-nos e chorando noite e dia, até o sábado.

A guarda do sepulcro

VIII.
28. Os escribas, os fariseus e os anciãos se reuniram, pois ficaram sabendo que todo o povo murmurava e se lamentava, batendo no peito e dizendo: “Se por ocasião de sua morte se realizaram sinais tão grandes, vede quanto ele era justo!”

29. Tiveram medo e foram a Pilatos, pedindo-lhe:

30. “Dá-nos soldados para que seu túmulo seja vigiado por três dias. Que não aconteça que seus discípulos venham roubá-lo e o povo acredite que ele tenha ressuscitado dos mortos e nos faça mal”.

31. Pilatos deu-lhes o centurião Petrônio com soldados para vigiar o sepulcro. Com eles dirigiram-se ao túmulo os anciãos e os escribas

32. e todos os que ali estavam com o centurião. Os soldados rolaram uma grande pedra

33. e a colocaram na entrada do túmulo. Nela imprimiram sete selos. Depois ergueram ali uma tenda e montaram guarda.

XV.
34. Pela manhã, ao despontar do sábado, veio de Jerusalém e das vizinhanças uma multidão para ver o túmulo selado.

Ressurreição de Jesus

35. Mas durante a noite que precedeu o dia do Senhor, enquanto os soldados montavam guarda, por turno, dois a dois, ressoou no céu uma voz forte
36. e viram abrir-se os céus e descer de lá dois homens, com grande esplendor, e aproximar-se do túmulo.

37. A pedra que fora colocada em frente à porta rolou donde estava e se pôs de lado. Abriu-se o sepulcro e nele entraram os dois jovens.

X.
38. À vista disto, os soldados foram acordar o centurião e os anciãos, pois também estes estavam de guarda.

39. E enquanto lhes contavam tudo o que tinham presenciado, viram também sair três homens do sepulcro: dois deles amparavam o terceiro e eram seguidos por uma cruz.

40. A cabeça dos dois homens atingia o céu, enquanto a daquele que conduziam pela mão ultrapassava os céus.

41. Ouviram do céu uma voz que dizia:
“Pregaste aos que dormem?”

42. E da cruz se ouviu a resposta: — “Sim”.

XI.
43. Eles, então, deliberaram em conjunto ir relatar essas coisas a Pilatos.

44. Enquanto ainda conversavam, abriram-se novamente os céus. Um homem desceu e entrou no túmulo.

45. Vendo aquilo, o centurião e os que estavam com ele apressaram-se, sendo ainda noite, a procurar Pilatos, deixando o sepulcro que tinham vigiado. Extremamente abalados, expuseram tudo o que tinham visto e disseram: “Era verdadeiramente filho de Deus”.

46. Pilatos respondeu: “Sou inocente do sangue do filho de Deus, fostes vós que decidistes assim”.

47. Depois todos se aproximaram, pedindo e suplicando que ordenasse ao centurião e aos soldados não contar a ninguém o que tinham visto.

48. “Para nós, diziam, é melhor ser culpado de gravíssimo pecado diante de Deus, do que cair nas mãos do povo judeu e ser lapidados”.

49. Pilatos, então ordenou ao centurião e aos soldados que nada dissessem.

As mulheres e o sepulcro

XII.
50. Ao amanhecer do dia do Senhor, Maria Madalena, discípula do Senhor, que, por medo dos judeus ardentes de cólera, não havia feito na sepultura do Senhor tudo quanto as mulheres costumavam fazer pelos mortos que lhes eram caros,

51. tomou consigo as amigas e dirigiu-se ao túmulo onde tinha sido posto.

52. Elas temiam ser vistas pelos judeus e diziam: “Se, no dia em que foi crucificado, não podemos chorar e lamentar-nos batendo no peito, façamo-lo pelo menos agora seu túmulo”.

53. Quem, no entanto, nos há de revolver a pedra colocada na entrada do sepulcro, a fim de que possamos entrar, sentar-nos em volta dele cumprir o que lhe é devido?

54. A pedra é grande e tememos que alguém nos veja. Se não o pudermos fazer, deponhamos, pelo menos, na porta o que trouxemos em sua memória. Choraremos e nos lamentaremos, batendo-nos no peito até a hora de voltarmos para casa”.

XIII.
55. Mas quando chegaram, encontraram o sepulcro aberto. Aproximando-se, inclinaram-se e viram ali um jovem sentado no meio do sepulcro. Era belo e estava revestido de túnica de raro resplendor. Perguntaram-lhe:

56. “Por que viestes? A quem procurais? Por acaso, aquele que foi crucificado? Ressuscitou e foi-se embora. Se não o acreditais, inclinai-vos e olhai o lugar onde jazia. Não está mais. Ressuscitou, na verdade, e voltou para o lugar donde veio”.

57. As mulheres fugiram atemorizadas.

Conclusão

XIV.
58. Era o último dia dos Ázimos. Muitos deixavam a cidade e voltavam para suas casas; acabara-se a festa.

59. Nós, porém, os doze apóstolos do Senhor, chorávamos e nos entristecíamos. Depois, cada um , angustiado por tudo o que tinha acontecido, voltou para sua casa.

60. Eu, pelo contrário, Simão Pedro, e meu irmão André tomamos nossas redes e nos dirigimos ao mar. Conosco estava Levi, filho de Alfeu, que o Senhor…

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1 Texto conservado em História Eclesiástica de Eusébio, e citado por Lincoln Ramos, Fragmentos dos evangelhos apócrifos, Petrópolis: Vozes, p. 102.

 

O Apocalipse de Pedro

Frei Jacir de Freitas Faria

O Apocalipse de Pedro é também um dos apócrifos encontrados em Nag Hammadi. Existe um outro livro com o mesmo nome, conservado em etíope. O primeiro está em grego.Apocalipse de Pedro conta três visões que Pedro teve sobre a crucifixão e ressurreição de Jesus. Além de travar uma polêmica com os opositores do pensamento gnóstico, Apocalipse de Pedro tem a intenção de oferecer uma reta interpretação da paixão de Jesus, bem como a de animar o seleto grupo de cristãos gnósticos, que tinha Pedro como o fundamento de fé. Pedro no Apocalipse de Pedro é o verdadeiro gnóstico, que sabe distinguir entre o falso e o verdadeiro. Ele é diferente do Pedro dos “eclesiásticos”, os quais recebem duras críticas dos gnósticos.

O texto que segue é a tradução do Apocalipse de Pedro encontrado em Nag Hammadi, publicado em: PIÑERO, Antonio; TORRENTES, José Montserrat; BAZÁN, Francisco Garcia. Textos gnósticos:Apocalipsis y otros escritos. Biblioteca de Nag Hammadi, III. Madrid: Trotta, 2000, p. 59-69. O que está entre parêntesis não faz parte do original. São interpretações que ajudam  na compreensão, às vezes, confusa do texto. Este texto está também publicado e comentado em parte no nosso livro: O outro Pedro e a outra Madalena segundo os apócrifos. Petrópolis: Vozes, 2004.

Introdução

Quando o Salvador estava sentado no Templo, no tricentésimo ano da edificação e no mês construção da décima coluna, satisfeito com a grandeza da Majestade vivente e incorruptível, ele me disse:

PRIMEIRA VISÃO

– Pedro, bem-aventurados os de cima que pertencem ao Pai, que através de mim há revelado a vida para aqueles que são da vida, pois eu os recordei, aqueles que estão edificados sobre a sólida base, que ouçam minhas palavras e que distingam as palavras da injustiça e a transgressão da Lei das palavras da justiça. Com efeito, eles procedem do alto, de cada palavra da Plenitude da verdade e têm sido iluminados com benevolência por Aquele, a quem as potestades buscaram, mas não encontraram.

Este apareceu agora entre aqueles, naquele no qual se é aparecido, no Filho do Homem, exaltado no alto dos céus, revelado com temor dos homens de essência semelhante. Mas tu, Pedro, sê perfeito segundo o nome que eu te coloquei (Pedra), pois eu te escolhi, e fiz de ti um princípio para o resto, a quem eu chamei para o conhecimento. Sê forte até que venha o imitador da justiça, o imitador daquele que foi o primeiro a chamar-te.

De fato, ele te chamou para que o conheça de um modo digno, por causa da rejeição de que foi alvo. Você pode reconhecê-lo nos tendões de suas mãos e de seus pés, no coroamento realizado por aqueles que vivem na região do meio, no corpo luminoso que eles (os Arcontes, aqueles que pregam os falsos ensinamentos sobre Jesus) apresentaram na esperança de estarem cumprindo um serviço de honrosa recompensa, quando ele ia recriminar-te três vezes naquela noite”.

O Salvador disse estas coisas, enquanto eu estava vendo um dos sacerdotes e o povo que corriam até nós com pedras para nos matar. Apavorei-me, pensando que íamos morrer. E Ele me disse:

– Pedro, eu te disse diversas vezes que estes são cegos sem guias. Se queres conhecer sua cegueira, coloca as tuas mãos sobre os olhos de seu corpo, e diga o que vês. Quando eu lhe disse que não via nada, Ele me disse:
– Não és possível que não veja nada!

Ele me disse novamente:
– Faça o mesmo outra vez.

E em mim se produziu medo e alegria ao mesmo tempo, pois vi uma luz nova, maior que a luz do dia. Logo, a luz desceu sobre o Salvador, e eu lhe contei o que havia visto. E ele me disse de novo:

– Levanta tuas mãos e escuta o que dizem os sacerdotes e o povo.

Eu ouvi os sacerdotes, enquanto estavam sentados com os escribas. As multidões gritavam aos brados. Quando o Salvador escutou essas coisas de mim, ele me disse:

– Apura os teus ouvidos e ouça o que estão dizendo.

E escutei de novo. Enquanto estava sentado, te louvam. Quando eu disse estas coisas, o Salvador disse:
– “Te disse que estes são cegos e surdos. Escuta, pois, agora as que estão dizendo de forma misteriosa e conserva-as. Não as diga aos filhos deste mundo, pois eles blasfemariam contra ti neste mundo, já que eles não te conhecem, mas louvar-te-ão assim que te conhecerem”.

Heresias em torno ao grupo. Primeiro conjunto de adversários: gnósticos desviados da verdade originária

Na verdade, muitos, no início, acolherão as nossas palavras, mas logo se distanciarão delas, por vontade do pai de seu erro, porque terão feito o que ele quis. Mas Deus lhes revelará em juízo, quer dizer, aos servidores da Palavra. No entanto, os que se ajuntarem a eles serão seus prisioneiros, porque estão privados de conhecimento.

Aquele que é inocente, bom e puro, é por eles entregue ao carrasco e ao reino daqueles que louvam o Cristo restaurado. Eles louvam os homens que propagam a mentira, aqueles que virão depois de ti. Eles se aderirão ao nome de um morto, pensando que serão purificados por esse nome. Ao contrário, ficarão impuros e cairão em nome do erro em mãos de um homem malvado e astuto, em dogmas multiformes, e serão governados na heresia.

Outro grupo gnóstico

Acontecerá que alguns deles blasfemarão da verdade e proclamarão uma doutrina falsa. E dirão coisas más uns contra os outros. Alguns desses serão chamados de “aqueles que estão sob o poder dos arcontes”, os que procedem de um homem e uma mulher nua, de uma multidão de formas e grande variedade de sofrimento.

E acontecerá que os que dizem estas coisas explorarão os sonhos. E se afirmam que um sonho tem sua procedência de um demônio, digno de seu erro, então receberão a perdição em vez da incorrupção.Com efeito, o mal não pode produzir um fruto bom. Uma vez que do lugar de onde vem, cada um atrai o que a si se assemelha, pois nem toda alma é da verdade ou da imortalidade. Cada alma deste mundo tem como destino a morte, segundo a nossa opinião, porque é sempre uma escrava, visto que foi criada para servir a seus desejos, e o seu papel é a destruição eterna: nela se encontra e dela deriva. As almas amam as criaturas da matéria, vindas à existência com elas.

Mas as almas imortais não se assemelham a estas, ó Pedro. E quando ainda não é chegada a hora da morte, acontecerá que a alma imortal se parecerá com uma mortal. Mas ela não revelará a sua natureza, que é somente imortal, mas pensa na imortalidade. Tenha fé e deseja abandonar estas coisas.

Em verdade, quem é inteligente não colhe figos de cardos ou espinhos, nem uvas de plantas espinhosas. Certamente, o que se produz sempre está dentro daquilo que produz. O que procede do que não é bom resulta ser para a alma destruição e morte. Mas esta, a alma imortal, que chega a ser no Eterno, se encontra na Vida, e na imortalidade da vida, a qual se assemelha. Portanto, tudo o que existe não se dissolverá no que não existe. A surdez e cegueira se unem somente com os seus semelhantes.

Também outro grupo gnóstico

Outros, no entanto, converter-se-ão das palavras más e dos mistérios que extraviam.

Alguns que não entendem os mistérios falam de coisas que não entendem. Gabam-se de ser os únicos que conhecem o mistério da Verdade, e, cheios de orgulhos, agarram-se à insolência, invejando a alma imortal, que se tornou entretanto uma garantia. Já que toda potestade, dominação e poder dos eons desejam estar eles (as almas imortais dos gnósticos) na criação do mundo, de modo que aqueles (as potestades/forças) que não são, esquecidas pelas que são (as almas imortais), os louvem, embora não tenham sido salvas pelas potestades, nem levadas ao caminho (saída do mundo), desejando sempre chegar a ser imortais. Porque quando a alma imortal se fortalece com o poder de um espírito intelectual (um gnóstico), eles (as potestades/forças), imediatamente, fazem com que a alma imortal torne-se semelhante a um dos extraviados (da doutrina gnóstica).

Outro grupo gnóstico

Pois muitos, que se opõem à verdade e são os mensageiros do erro, conspiram com seu erro e sua lei contra estes pensamentos puros que provêm de mim, partindo do ponto de vista, a saber, que o bem e o mal procedem da mesma raiz. Eles fazem negócio com a minha palavra, e anunciam um duro Destino: a raça das almas imortais caminhar em vão, até a minha parusia. Por conseguinte, do meio deles sairão (pessoas que não seguem a minha palavra).

E o perdão de seus pecados, nos quais caíram por culpa de seus adversários, os quais eu resgatei da escravidão a que se encontravam, dando-lhes a liberdade. E eles agem de modo a criar uma imitação do verdadeiro perdão, em nome de um defunto, Hermas¹, dos primogênitos injustiça (Satanás), para que a luz existente não seja vista pelos pequenos (os verdadeiros gnósticos). No entanto, os que pertencem a esse gênero de pessoas serão lançados nas trevas exteriores, longe dos filhos da luz. Por conseguinte, nem eles entrarão, nem tampouco permitem aos que querem receber a sua libertação.

Outro grupo. Também gnósticos, também errados

E ainda outros deles, que sofrem, pensam que conseguirão a perfeição da vivência comunitária (ser Igreja) que realmente existe, a saber, a união espiritual com os que estão em comunhão, através da qual se revelará o matrimônio da imortalidade (igualdade da essência com o Salvador). Mas, em vez disso, se manifestará uma fraternidade feminina (falsa e imperfeita) como imitação. Estes são os que oprimem os seus irmãos, dizendo-lhes: “Por meio disso (sua doutrina), nosso Deus tenha piedade, pois a salvação chega a nós somente por isso”. E eles não conhecem o castigo daqueles que se alegram por aqueles que fizeram isto aos pequenos (gnósticos verdadeiros), que vieram (outros que também agem em nome de Cristo) e fizeram prisioneiros (os gnósticos).

Outro grupo de adversários: os eclesiásticos

E existem também outros, que não dos nossos, que se chamam a si mesmos de bispos e também diáconos, como se tivessem recebido essa autoridade de Deus. Eles são julgados por ocuparem os primeiros lugares na assembleia. Essa gente, eles são canais vazios.

Mas eu disse:

– “Diante do que me disseste, eu tenho medo, a saber, que são poucos, como veremos, os que estão fora do erro, enquanto muitos viventes serão induzidos ao erro e ficarão divididos. E quando pronunciarem o seu nome, serão considerados dignos de fé”.

E o Salvador disse:

– “Governarão sobre os pequenos (gnósticos) por um tempo para eles determinado, em proporção ao erro deles. E depois que se complete o tempo de seu erro, o tempo que nunca envelhece renovará o pensamento imortal; E os pequenos governarão sobre os que agora governam sobre eles. E o tempo que não envelhece extirpará o erro deles pela raiz e expô-lo-á à vergonha. E se revelará a desvergonha que ela (a classe dos eclesiásticos) teve sobre si.

E acontecerá que os pequenos serão imutáveis, ó Pedro. Eia, vamos! Cumpramos a vontade do Pai incorruptível. Com efeito, eles verão a sentença contra eles (os eclesiásticos), os quais  cairão em desgraça. Mas, quanto a mim, eles não poderão tocar-me. Mas tu, ò Pedro, estarás no meio deles. Não temas por causa da covardia deles. A inteligência deles será limitada, pois o Invisível lhes fará oposição.”

SEGUNDA VISÃO: CRUCIFICAÇÃO

Enquanto me dizia estas coisas, vi o modo como eles o agarravam (o crucificavam). E eu disse:
– Que vejo, ó Senhor? É a ti que eles aprisionam, enquanto estás entretendo comigo? Quem é esse que sorri alegre sobre a árvore? Tem outro a quem eles golpeiam nos pés e nas mãos?

E o Senhor me disse:
– Aquele que viste sobre a árvore alegre e sorridente, este é Jesus, o vivente. Mas este, em cujas mãos e pés introduzem os cravos, é o carnal, o substituto, exposto à vergonha, o que existiu segundo a semelhança. Olha para ele e para mim!

Mas eu, depois de ter visto, disse:
– Senhor, ninguém olha para você. Fujamos deste lugar.

Mas ele me disse:
– Eu te disse, deixa os cegos sozinhos. E quanto a mim, veja quão pouco entendem o que dizem. Eles expuseram à vergonha o filho de sua glória em vez do servo.

TERCEIRA VISÃO: A RESSURREIÇÃO

E eu vi, aproximando-se de nós, um que parecia com Ele, exatamente com Aquele que estava sorridente sobre a árvore. Estava vestido do Espírito Santo. Ele é o Salvador. E houve uma grande luz, inefável, que o envolveu, e uma multidão de anjos inefáveis e invisíveis que o louvavam. Quando eu olhei para ele, ele se manifestou glorificado. E me disse:

– Coragem! Na verdade, tu és aquele a quem foi dado conhecer estes mistérios, a saber, que aquele a quem crucificaram é o primogênito, e a casa dos demônios e o recipiente de pedra, onde habitam os demônios, o homem de Elohim, o homem da cruz, aquele que está sob a Lei. Ao contrário, Aquele que está junto dele é o Salvador vivente, ele, que primeiro que estava com ele, que prenderam e soltaram, Aquele que, alegre, olha para os que o trataram com violência, enquanto eles estavam divididos.

Por este motivo, ele ri de sua falta de visão, sabendo que são cegos de nascença. Existe, certamente, aquele que toma sobre si o sofrimento, pois o corpo é o substituto. No entanto, o corpo que eles libertaram é o meu corpo incorpóreo. Enquanto, eu sou o Espírito intelectual pleno de luz radiante. Aquele que viste vindo sobre mim é nosso Pleroma intelectual, aquele que une a luz perfeita ao meu Espírito Santo.

Estas coisas, pois, que tu viste, tu deves transmiti-las à outra estirpe, àqueles que não provêm deste mundo. Porque um dom deste gênero não é dado a homens que não sejam imortais; mas tão-somente naqueles que foram escolhidos em virtude de sua natureza imortal, naqueles que demonstraram ser capazes de acolhê-lo: este espírito dar-lhes-á a própria plenitude.

Por isso, eu digo que “A todo aquele que tem será dado e terá em abundância”. Mas a quem não tem – ao homem deste lugar, aquele que está completamente morto, que está longe dos seres da criação, que foram gerados, a esse que, quando aparece alguém cuja natureza é imortal, pensa que a possui -, a ele será tirado o que te e será dado àquele que tem. Tu, pois, sejas corajoso e não tenhas medo de nada. Porque eu estarei contigo para que nenhum de teus inimigos tenha poder sobre ti. A paz esteja contigo. Seja forte!”

Quando Jesus disse estas coisas, Pedro voltou a si.

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  ¹Alusão a uma compreensão errônea do perdão dos pecados, contida na obra O Pastor, de Hermas.

 

Maria Madalena 10,1-13: ver para crer

Frei Jacir de Freitas Faria

      A passagem anterior ao que iremos analisar do Evangelho de Maria Madalena nos mostra que os discípulos estavam aflitos, mas Maria Madalena, com o seu beijo e fala os acalmou. Na continuidade desse fato, Pedro toma a palavra e diz: 

1Pedro disse a Maria:2“Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou3 diferentemente das outras mulheres.4Diz-nos as palavras que Ele te disse,5 das  quais tu te lembras 6e das quais  nós não tivemos conhecimento…”7Maria lhes disse:8“Aquilo que não vos foi dado escutar,9eu vos anunciarei:10eu tive uma visão do Mestre,11e eu lhe disse:12‘Senhor, eu te vejo hoje13nesta aparição’.

       Pedro, ao falar, representa o cristianismo emergente que começa a institucionalizar-se. Sua fala é carregada de ironia nas expressões: minha irmã; o Mestre te amou mais do que a nós; Ele te revelou coisas que a nós ocultou. Não estaria aí a ironia da instituição? Pedro parece reconhecer o poder do saber de Maria Madalena, visto que ela tinha afinidade com o Mestre.

Maria, ao afirmar que teve uma visão do Mestre, diz que conhece os segredos dele.Esse tema está também presente em Marcos, o famoso “segredo messiânico”. Os discípulos não souberam escutar direito o Mestre e, por isso, não tiveram visão. Ver e escutar são dois verbos que aparecem na fala de Maria Madalena. Escutar está muito ligado ao judaísmo. “Shemá (escuta) ò Israel” faz parte do programa de vida de um judeu. Escutar é o mesmo que interpretar, tornar vivo a Presença de Deus Um. Segundo Dt 6,4-9, a Ele se dever amar de todo o coração (razão e sentimento integrado), com toda a Alma (ser) e com toda a Força (poder aquisitivo). Maria Madalena viu. Ver para crer faz parte do modo de pensar  grego, que os cristãos aderem. Eles vêem o milagre de Jesus e nele crêem. Para os judeus, bastavam ouvir para crer. E nisso residia umas das disputas teológicas entre judeus e cristãos. Ver passa ser para os cristãos a plenitude do ouvir. Maria Madalena representa esse modo de pensar. Não que Pedro e o grupo dos apóstolos representem o lado contrário, mas aqui estamos diante de disputa que visa saber quem mais compreendeu o Mestre. Pedro e os discípulos não foram capazes de escutar. Maria, com a sua fala, anuncia o ensinamento do Mestre. Outra ironia? Maria vê o Mestre em uma aparição e exclama a sua alegria de poder vê-lo. João também registrou a aparição de Jesus a Maria no túmulo. Naquela oportunidade, Ele lhe teria tido: “Não podes mais ficar comigo como antes, pois ainda não subi ao Pai, portanto, vá anuncie aos irmãos que eles também me verão na Galiléia” (Jo 20,17). Qualquer que seja a tradução desse versículo, somos obrigados a reconhecer que talvez nunca saberemos o verdadeiro sentido dessas palavras ditas por Jesus a Maria Madalena. Os estudiosos já propuseram ene interpretações. Todas não muito convincentes. Maria Madalena não poderia tocar no ressuscitado, ser de ordem divina e não terrena. Seria uma explicação plausível. Mas Tomé não foi chamado a tocar no ressuscitado? Ou Tomé, por ser homem, podia tocar em outro homem? Jesus não poderia ser tocado por uma mulher de passado duvidoso. Mas se Maria Madalena não era prostituta, essa explicação não cabe mais. Melhor seria compreender a experiência de Maria Madalena com Jesus na esfera humana e divina. Maria Madalena deve cumprir o seu papel de missionária. Os outros irmãos, por mãos e palavra de mulher, deverão compreender esse mistério. Jesus teria dito a Maria Madalena: “você já viu, compreendeu e creu, vá ajudar aos irmãos fazer o mesmo caminho. E bem-aventurada serás tu eternamente”.

Atos apócrifos de Tecla

Tecla ou Santa Tecla, como ficou conhecida, foi uma pessoa muito cara no início do cristianismo. O apócrifo que conta os seus atos levou o nome de Atos de Paulo e Tecla. Tecla lutou até o fim para permanecer fiel aos ensinamentos recebidos de Paulo. A sua atuação apostólica é sempre colocada em relação a Paulo. Discípula fiel, ela tornou-se apóstola de Jesus. 

 1 Perfil 

Nome e perfil: Tecla tornou-se discípula de Paulo, quando este passou por Icônio, possivelmente no ano 48 E.C. Era noiva de um tal de Tamiro, quem ela abandonou para seguir Paulo. 

Nascimento: Filha de Teocleia, Tecla nasceu na cidade de Icônio.   
Estado civil: Já de casamento marcado com Tamiro, Tecla, tornando-se discípula de Paulo, manteve-se  solteira e virgem consagrada.
Morte: Mesmo sendo condenada ao martírio, Tecla sobreviveu miraculosamente ao mesmo e morreu “repousando num glorioso sono”. 
 
2 – Principais feitos apostólicos narrados nos apócrifos 

·        Converter-se ao cristianismo, tornando-se discípula de Paulo. 

·        Abandonar o noivo Tamiro para seguir Paulo. 

·        Visita Paulo na prisão. 

·        Viajou com Paulo para Tessalônica. 

·        Enfrenta, em praça pública, Alexandre, que havia se apaixonado por ela. Arrancando-lhe a coroa e rasgando sua capa. 

·        Condenada ao martírio, Tecla enfrentou e venceu as feras que iriam devorá-la viva. 

·        Diante do governador, professa a fé em Jesus. 

·        Batiza a si mesma. 

·        Prega a Palavra de Deus em Icônio e Seluêcia. 

·        Disfarçada de homem, Tecla se encontra com Paulo. 

·        Mantém-se fiel a Paulo até o fim.  

3 – Atos Apócrifos  de Tecla

 A história de Tecla é contada nos apócrifos sempre em relação a Paulo. A piedade popular conservou essa história de fé, num misto de magia e devoção. Tecla, apóstola da primeira hora do cristianismo. Assim como Paulo, ela não conheceu Jesus.
 
Tecla se deixa seduzir por Paulo
 
Atos Apócrifos de Paulo e Tecla conta que quando Paulo passou por Icônio, cidade de Tecla, ela ficou sentada no pé da janela vizinha de sua casa, escutando noite e dia a sua pregação. Aí ela permaneceu três dias e três noites, sem beber e comer. Sua mãe, Teocleia, mandou chamar o seu noivo Tamiro. Este, ansioso por ver Tecla apressou-se a vir. “Onde está a minha Tecla, para que eu possa vê-la?”, exclamou.
 

Teocleia acusou Paulo de seduzir as virgens da cidade com a sua pregação. De Tecla, ela disse que estava apaixonada pelo estrangeiro Paulo. “Como aranha na janela, fascinada pelas suas palavras, está dominada por um desejo e uma terrível paixão”, disse. 

Tecla visita Paulo na prisão
 
Tamiro articulou com Demas e Hermógenes denunciar Paulo ao Governador Castélio. Reunido o povo, oficiais e chefes, ele logrou levar Paulo ao Governador. Este mandou prender Paulo, até que se pudessem averiguar melhor os fatos.
 
Sabendo do ocorrido, Tecla foge, à noite, de sua casa, suborna o porteiro e o carcereiro da prisão com pulseiras e espelho de prata, para encontrar-se com Paulo. E ali, ela permaneceu sentada, ouvindo a pregação de Paulo.
 
Tecla, levada ao governador, permanece em silêncio
 
A visita de Tecla a Paulo na prisão teve como consequência a flagelação e expulsão de Paulo de Icônio. Atos de Paulo e Tecla relata que “o Governador ordenou que Paulo comparecesse perante o tribunal. Mas Tecla estava parafusada no lugar onde Paulo havia sentado na prisão. E o Governador ordenou que ela também fosse levada ao tribunal e ela foi com uma alegria imensa. E quando Paulo compareceu no tribunal, as multidões gritavam violentamente: É um bruxo! Fora daqui! Mas o Governador escutou alegremente Paulo falando das obras santas de Cristo. Depois de conferir com o seu conselho, ele intimou Tecla e disse: Por que não casas com Tamiro segundo as leis de Icônio? Mas ela continuou olhando seriamente para Paulo e, como nada respondesse, Teocleia, a mãe dela gritou: Queima o perverso; queima-a também no meio do teatro, ela que não quer casar; para que todas as mulheres que foram ensinadas por este homem tenham medo”[1]. O Governador, então, condenou Tecla a ser queimada viva.   
 
Tecla é salva do martírio 
 
Logo após a sentença do Governador, diz Atos de Tecla e Paulo, que “imediatamente o governador se levantou e foi para o teatro. Toda a multidão saiu para ver esse espetáculo. Mas como uma ovelha no deserto olha ao redor, procurando o pastor, assim Tecla ficou procurando por Paulo. Olhando para a multidão, ela viu o Senhor sentado com o semblante de Paulo e ela disse: Como se eu não estivesse capaz de sofrer, Paulo, tu vieste atrás de mim? E ela olhou intensamente para ele, mas ele subiu para o céu.
 

Os rapazes e as moças trouxeram lenha e para que ela pudesse ser queimada. Mas quando ela apareceu nua, o Governador chorou e admirou o poder que estava nela. Os algozes prepararam a lenha e mandam-na subir na pilha. Ela fez o sinal da cruz e subiu na pilha. Acenderam o fogo e, se bem que um grande fogo se alastrasse, não a atingiu. Deus, tendo compaixão dela, provocou um ruído no subsolo e uma nuvem carregada de água e granizo cobriu o teatro por cima e derramou de vez, de maneira que muitos ficaram em perigo de morte. O fogo foi apagado e Tecla salva”[2].   

Tecla se encontra com Paulo e pede para segui-lo e ser batizada 
 
Tecla saiu dali e encontrou-se com um dos filhos de Onesífero, que tinha ido a cidade para comprar pão para Paulo e sua família que havia fugido com Paulo de Icônio para Dafné. O menino levou Tecla para encontrar-se com Paulo. Ela o encontrou rezando, em um túmulo, pela libertação de Tecla. Ambos se alegraram pelo ocorrido. Ali mesmo, eles celebraram a Eucaristia. Tecla quis cortar os cabelos para seguir Paulo, mas ele não permitiu, dizendo que ela era muito bonita e que ainda podia se apaixonar por outro homem. E ele lhe disse também, aludindo ao batismo: “Tecla, tem paciência, receberás primeiramente a água”[3].
 
Depois deste ocorrido, Onosífero voltou com a família para Icônio e Paulo seguiu viagem com Tecla para Tessalônica.
 

 Tecla em praça pública, arranca a capa e a coroa de Alexandre 

 E aconteceu que, quando estava em Antioquia, Alexandre, um notável da cidade e organizador dos jogos no circo, apaixonou-se por Tecla e quis comprá-la de Paulo. Paulo negou que a conhecesse. Alexandre abraçou-a na rua. Tecla, então, “gritou amargamente: não violentes a estrangeira, não violentes a serva de Deus. Eu sou uma das pessoas mais influentes em Icônio, mas porque não quis me casar com Tamiro, eu fui expulsa da cidade. E, agarrando Alexandre, ela rasgou a sua capa, arrancou sua coroa e fez dele uma chacota.[4]” Esta sua atitude lhe causou, por influência de Alexandre, o enfrentamento das feras em um circo, conforme costume romano. Tecla assumiu diante do governador que havia desafiado Alexandre.     
 

Tecla combate com as  feras

 A tradição apócrifa conta que Tecla enfrentou feras no circo diante do povo reunido, Alexandre, o Governador e, sobretudo mulheres e crianças. Antes, porém, uma rainha de nome Trifena a tomou sob sua proteção, em substituição à sua filha Falconila, que havia morrido. Assim, Tecla se manteve pura, sem ser violentada, para o sacrifício.
 
A primeira fera enfrentada por Tecla foi uma Leoa. Tecla foi amarrada sobre ela e esta lambia os seus pés tranquilamente. No dia seguinte, Tecla foi levada a mando do Governador para enfrentar leões e ursos. Trifena a acompanhava. Tecla foi tirada de sua proteção, despida e jogada no meio das feras com um cinto nas mãos. Um urso e um leão que avançaram sobre Tecla foram mortos por uma leoa que defendia Tecla. A multidão das mulheres gritava pela sua morte. A leoa que defendia Tecla também morreu.        
 
Tecla se batiza e vence as feras
 
“Enviaram muitas feras, enquanto ela, de pé, estendia suas mãos e rezava. Quando terminou de rezar, ela se virou e avistou um grande poço cheio de água e disse: Agora está na hora de me lavar. Ela se jogou (no poço), dizendo: Em nome de Jesus Cristo, eu me batizo a mim mesma no meu último dia. Quando as mulheres e a multidão a viram, choraram e disseram: Não te jogues na água! Até o governador chorou porque as focas iriam devorar tal beleza. Ela se jogou, pois, na água em nome de Jesus Cristo, mas as focas, tendo visto um raio de relâmpago, morreram todas e ficaram boiando na superfície; e houve ao redor dela uma nuvem  de fogo, de maneira que as feras não conseguiram tocá-la  e que ninguém a viu nua”[5]. Outras feras foram soltas para atacar Tecla.  Com o perfume  e flores que as mulheres jogaram, estas ficaram hipnotizadas e não atacaram Tecla.  Por fim, Tecla foi amarrada a touros terríveis, os quais tinham ferros aquecidos amarrados em suas genitálias. Isto foi preparado para que Tecla fosse destruída pelos mesmos. Ocorreu que, diante daquele espetáculo, a rainha Trifena desmaiou, a chama que rodeava Tecla consumiu as cordas e Tecla ficou livre. O governador mandou parar o espetáculo. Alexandro se arrependeu do que havia feito e implorou a libertação de Tecla.
 
Tecla confessa ser serva de Jesus
 
Ainda no meio das feras, o Governador perguntou-lhe: “Quem és tu? E qual é o escudo que te rodeia, para que nenhuma fera te toque? Ela respondeu: Eu sou a serva do Deus vivo. Quanto ao que me rodeia, eu acredito no Filho de Deus no qual ele se compraz. É por isso que nenhuma dessas feras me tocou; pois somente ele é a plenitude da salvação e o alicerce de vida eterna. Pois ele é o refúgio dos naufragados, a consolação dos oprimidos, o amparo para o desesperado; por isso mesmo, quem não acreditar nele não viverá, mas morrerá para sempre. Quando o Governador ouviu aquilo, ele mandou que roupas fossem trazidas e lhe disse: Vestes estas roupas. Mas ela respondeu: Aquele que me vestiu quando estava nua no meio das feras, vestir-me-á com a salvação no dia do julgamento”[6]. Após este diálogo, Tecla se vestiu. O governador publicou um decreto soltando Tecla. As mulheres da cidade gritaram louvando a Deus por este ocorrido.
 

Tecla prega a Palavra de Deus

 Sabendo que Tecla fora libertada, Trifena, com uma multidão, foi encontrar-se com Tecla.  Ela proclamou a fé na ressurreição, acolheu Tecla em sua casa e lhe prometeu passar os seus bens. Tecla ficou ali oito dias. Pregou a Palavra de Deus. Muitas empregadas se converteram.
 
Tecla, em traje masculino, encontra-se com Paulo
 
Sabendo que Paulo estava em Mira, Tecla vestiu uma capa que a fez parecer homem. Reuniu rapazes e moças e foi ter com Paulo. Quando este a viu com homens pensou que uma nova tentação teria caído sobre ela. Tecla lhe disse que havia recebido o batismo. Paulo a conduziu para a casa de Hermias e ouviu a sua história. Tecla havia levado roupas e ouro, oferecidos por Trifena. Ela os deixou com Paulo.
 
Tecla prega em Icônio
 
Após o encontro com Paulo, Tecla foi para Icônio pregar a Palavra de Deus. Em Icônio, ela  ficou na casa de Onesífero. Ela “prostrou-se sobre o lugar onde Paulo havia sentado e ensinado a palavra de Deus. Ela gritou: Meu Deus e Deus desta casa onde a luz brilhou sobre mim, Jesus Cristo, Filho de Deus, meu Salvador na prisão, meu salvador perante o governador, meu salvador no fogo, meu salvador no meio das feras, só tu és Deus, a ti a glória para todo o sempre. Amém”[7].
 
Tecla repouso num glorioso sono
 
Quando Tecla estava em Icônio, ela se deu conta que Tamiro, seu antigo noivo, havia morrido. Encontrando viva a sua mãe, Tecla disse: “Teocleia, minha mãe, podes acreditar que o Senhor vive no céu? Pois se desejas riquezas, o Senhor tas darás por mim, mas se desejas tua filha, eis que estou aqui ao teu lado”. 
 
E vida de Tecla, narrada em Atos de Paulo e Tecla, termina afirmando que “tendo assim dado o seu testemunho, ela se dirigiu para Selêucia e iluminou a muitos pela palavra de Deus. Depois repousou num glorioso sono”.
 
Extraído do livro de Frei Jacir de Freitas Faria, A vida secreta dos apóstolos e apóstolas à luz dos Atos Apócrifos, Petrópolis: Vozes, 2005, p. 73-74.
 
 

 
[1] Cf. Atos de Tecla e Paulo, 20, In.: Caetano Minette de Tillesse, Extra-canônicos do Novo Testamento,  vol 11, Revista Bíblica Brasileira, vol  20-21, Fortaleza: Nova Jerusalém, 288. 
 
[2] Atos de Tecla e Paulo, 20, In.: Caetano Minette de Tillesse, Extra-canônicos do Novo Testamento,  vol 11, Revista Bíblica Brasileira, vol  20-21, Fortaleza: Nova Jerusalém, 287-289. 
 
[3] Cf. Idem, 289.
 
[4] Idem, 290.
 
[5] Idem, 291.
 
[6] Idem, 292.
 
[7] Idem, 293.
 
Para aqueles que desejam saber mais sobre

Apócrifos E Pseudo-Epígrafos Da Bíblia 01

Eusébio de Cesaréia, autor de História Eclesiástica, no capítulo intitulado Das divinas Escrituras reconhecidas e das que não o são, após apontar os livros do Novo Testamento na ordem como os temos hoje na Bíblia Sagrada, menciona outros escritos conhecidos e difundidos pela cristandade no século IV. Ainda que não incorporadas no rol dos textos divinamente inspirados pelo Espírito Santo, algumas destas obras são destacadas pelos historiador, tais como o Evangelho dos Hebreus, Cartas de Barnabé e Apocalipse de Pedro, dentre tantas outras que circulavam livremente pelas igrejas.

Para ele, estes escritos apócrifos distinguem-se dos que a tradição da Igreja julgou verdadeiros, genuínos e admitidos, principalmente porque nenhum dos escritores ortodoxos, os chamados pais apostólicos, mencionavam tais fontes. Também julgava Eusébio que nestas obras o estilo, o pensamento e a intenção dos apóstolos não se faziam refletir e, por isso, considerava a necessidade de rechaçá-los como inteiramente absurdos e ímpios. Não obstante o repúdio incisivo das autoridades eclesiásticas, a circulação sub-reptícia dos apócrifos perdurou firmemente. Aliás, os reflexos do conteúdo desse material podem ser percebidos na produção da arte cristã que marcou todo o período da Idade Média.

Resultado da tradição oral dos primeiros crentes da era cristã, os apócrifos tornaram-se importantes documentos reveladores do modo como vivia e pensava uma grande parcela da cristandade, cuja voz ficou abafada pela Igreja Oficial. Produzidos para satisfazer as curiosidades populares a respeito da infância de Jesus e de seus pais, bem como estabelecer as raízes da nova religião, tais escritos revelam, por um lado, as idiossincrasias do pensamento e das práticas judaicas que marcaram a origem do cristianismo, e por outro, refletem a efervescente e plural cultura gentílica com a qual o Cristianismo passou a lidar cotidianamente em seu processo de expansão.

Muitos séculos depois, a despeito da não terem sido incluídos no cânone das Escrituras cristãs, tais textos continuam despertando a curiosidade do crescente número de interessados nas coisas da Religião. Todavia, o desconhecimento generalizado do conteúdo dos apócrifos tem gerado especulações que somente o exame acurado de seu real teor pode dirimir. Ao editar estes livros, pela primeira vez reunidos em volume único, longe de apresentar uma nova Bíblia aos Cristão, o nosso objetivo é disponibilizar as fontes primárias de um compêndio de riqueza informativa incomensurável para a plena compreensão do Cristianismo e estreitar o contato coma a herança literária legada pelos movimentos populares que se mantiveram marginais no curso da História da Igreja.

A publicação dos proscritos da Bíblia converte-se em uma nova contribuição para os interessados em aprofundar os estudos das Sagradas Escrituras, através de seu cotejo com a produção literária apartada do cânon tradicional. Destarte, o entedimento dos motivadores ideológicos que serviram à produção de ambos, bem como as razões que levaram a Igreja a adotar alguns textos como inspirados e reprovar outros como de origem espúria ou apócrifa, motivar-nos-á reafirmar o amor pela Palavra de Deus.

Apócrifos E Pseudo-Epígrafos Da Bíblia 02

Resultado da tradição oral dos primeiros crentes da era cristã, os apócrifos tornaram-se importantes documentos reveladores do modo como vivia e pensava uma grande parcela da cristandade, cuja voz ficou abafada pela Igreja Oficial. Produzido para satisfazer as curiosidades populares a respeito da infância de Jesus e de seus pais, bem como estabelecer as raízes da nova religião, tais escritores revelam, por um lado, as idiossincrasias do pensamento e das práticas judaicas que marcam a origem do cristianismo, e por outro, refletem e efervescente e plural cultura gentílica com a qual o Cristianismo passou a lidar cotidianamente em eu processo de expansão.

Muitos séculos depois, a despeito de não terem sido incluídos no cânone das Escrituras cristãs, tais textos continuam despertando a curiosidade do crescente número de interessados nas coisas da Religião. Todavia, o desconhecimento generalizado do conteúdo dos apócrifos tem gerado especulações que somente o exame acurado de seu real teor pode dirimir.

Ao editar este livro, pela primeira vez reunidos em volume único, longe de apresentar uma nova Bíblia aos cristãos, o nosso objetivo é disponibilizar as fontes primárias de um compêndio de riqueza informativa incomensurável para a plena compreensão do Cristianismo e estreitar o contato com a herança literária legada pelos movimentos populares que se mantiveram marginais no curso da História da Igreja. A publicação dos proscritos da Bíblia converte-se em uma nova contribuição para os interessados em aprofundar os estudos das Sagradas Escrituras, através de seu cotejo com a produção literária apartada do cânon tradicional. Destarte, o entendimento dos motivadores ideológicos que serviram à produção de ambos, bem como as razões que levaram a Igreja a adotar alguns textos como inspirados e reprovar outros com de origem espúria ou apócrifa, motivar-nos-á reafirmar o amor pela Palavra de Deus.

Paz amados(as), com certeza nos ajudará a aprofundar nos estudos da Sagrada Escritura, a aula do Pe. Leonel ontem foi marcante!

A diferença entre a Bíblia católica e a protestante

Demoraram alguns séculos para que a Igreja Católica chegasse à forma final da Bíblia, com os 72 livros como temos hoje. Em vários Concílios, ao longo da história, a Igreja, assistida pelo Espírito Santo (cf. Jo 16,12-13) estudou e definiu o Índice (cânon) da Bíblia; uma vez que nenhum de seus livros traz o seu Índice. Foi a Igreja Católica quem berçou a Bíblia. Garante-nos o Catecismo da Igreja e o Concílio Vaticano II que: “Foi a Tradição apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na lista dos Livros Sagrados” (Dei Verbum 8; CIC,120). Portanto, sem a Tradição da Igreja não teríamos a Bíblia. Santo Agostinho dizia: “Eu não acreditaria no Evangelho, se a isso não me levasse a autoridade da Igreja Católica” (CIC,119).

Por que a Bíblia católica é diferente da protestante? Esta tem apenas 66 livros porque Lutero e, principalmente os seus seguidores, rejeitaram os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (ou Sirácida), 1 e 2 Macabeus, além de Ester 10,4-16; Daniel 3,24-20; 13-14. A razão disso vem de longe. No ano 100 da era cristã, os rabinos judeus se reuniram no Sínodo de Jâmnia (ou Jabnes), no sul da Palestina, a fim de definir a Bíblia Judaica. Isto porque nesta época começavam a surgir o Novo Testamento com os Evangelhos e as cartas dos Apóstolos, que os judeus não aceitaram. Nesse Sínodo, os rabinos definiram como critérios para aceitar que um livro fizesse parte da Bíblia, o seguinte: (1) Deveria ter sido escrito na Terra Santa; (2) Escrito somente em hebraico, nem aramaico e nem grego; (3) Escrito antes de Esdras (455-428 a.C.); (4) Sem contradição com a Torá ou lei de Moisés. Esses critérios eram puramente nacionalistas, mais do que religiosos, fruto do retorno do exílio da Babilônia em 537aC. Por esses critérios não foram aceitos na Bíblia judaica da Palestina os livros que hoje não constam na Bíblia protestante, citados anteriomente. Mas a Igreja católica, desde os Apóstolos, usou a Bíblia completa. Em Alexandria no Egito, cerca de 200 anos antes de Cristo, já havia uma influente colônia de judeus, vivendo em terra estrangeira e falando o grego. O rei do Egito, Ptolomeu, queria ter todos os livros conhecidos na famosa biblioteca de Alexandria; então mandou buscar 70 sábios judeus, rabinos, para traduzirem os Livros Sagrados hebraicos para o grego, entre os anos 250 e 100 a.C, antes do Sínodo de Jâmnia (100 d.C). Surgiu, assim, a versão grega chamada Alexandrina ou dos Setenta, que a Igreja Católica sempre seguiu. Essa versão dos Setenta, incluiu os livros que os judeus de Jâmnia, por critérios nacionalistas, rejeitaram. Havia, dessa forma, no início do Cristianismo, duas Bíblias judaicas: a da Palestina (restrita) e a Alexandrina (completa – Versão dos LXX). Os Apóstolos e Evangelistas optaram pela Bíblia completa dos Setenta (Alexandrina), considerando inspirados (canônicos) os livros rejeitados em Jâmnia. Ao escreverem o Novo Testamento, utilizaram o Antigo Testamento, na forma da tradução grega de Alexandria, mesmo quando esta era diferente do texto hebraico. O texto grego “dos Setenta” tornou-se comum entre os cristãos; e portanto, o cânon completo, incluindo os sete livros e os fragmentos de Ester e Daniel, passaram para o uso dos cristãos. Das 350 citações do Antigo Testamento que há no Novo, 300 são tiradas da Versão dos Setenta, o que mostra o uso da Bíblia completa pelos Apóstolos. Verificamos também que nos livros do Novo Testamento há citações dos livros que os judeus nacionalistas da Palestina rejeitaram. Por exemplo: Rom 1,12-32 se refere a Sb 13,1-9; Rom 13,1 a Sb 6,3; Mt 27,43 a Sb 2, 13.18; Tg 1,19 a Eclo 5,11; Mt 11,29s a Eclo 51,23-30; Hb 11,34 a 2 Mac 6,18; 7,42; Ap 8,2 a Tb 12,15. Nos séculos II a IV, houve dúvidas na Igreja sobre os sete livros por causa da dificuldade do diálogo com os judeus. Mas a Igreja, ficou com a Bíblia completa da Versão dos Setenta, incluindo os sete livros. Após a Reforma Protestante, Lutero e seus seguidores rejeitaram os sete livros já citados. É importante saber também que muitos outros livros, que todos os cristãos têm como canônicos, não são citados nem mesmo implicitamente no Novo Testamento. Por exemplo: Eclesiastes, Ester, Cântico dos Cânticos, Esdras, Neemias, Abdias, Naum, Rute. Outro fato importantíssimo é que nos mais antigos escritos dos santos Padres da Igreja (patrística) os livros rejeitados pelos protestantes (deutero-canônicos) são citados como Sagrada Escritura. Assim, São Clemente de Roma, o quarto Papa da Igreja, no ano de 95 escreveu a Carta aos Coríntios, citando Judite, Sabedoria, fragmentos de Daniel, Tobias e Eclesiástico; livros rejeitados pelos protestantes. Ora, será que o Papa S. Clemente se enganou, e com ele a Igreja? É claro que não. Da mesma forma, o conhecido Pastor de Hermas, no ano 140, faz amplo uso de Eclesiástico, e de Macabeus II; Santo Hipólito (†234), comenta o Livro de Daniel com os fragmentos deuterocanônicos rejeitados pelos protestantes, e cita como Sagrada Escritura Sabedoria, Baruc, Tobias, 1 e 2 Macabeus. Fica assim, muito claro, que a Sagrada Tradição da Igreja e o Sagrado Magistério sempre confirmaram os livros deuterocanônicos como inspirados pelo Espírito Santo. Vários Concílios confirmaram isto: os Concílios regionais de Hipona (ano 393); Cartago II (397), Cartago IV (419), Trulos (692). Principalmente os Concílios ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870) confirmaram a escolha. No século XVI, Martinho Lutero (1483-1546) para contestar a Igreja, e para facilitar a defesa das suas teses, adotou o cânon da Palestina e deixou de lado os sete livros conhecidos, com os fragmentos de Esdras e Daniel. Lutero, quando estava preso em Wittenberg, ao traduzir a Bíblia do latim para o alemão, traduziu também os sete livros (deuterocanônicos) na sua edição de 1534, e as Sociedades Biblícas protestantes, até o século XIX incluíam os sete livros nas edições da Bíblia. Neste fato fundamental para a vida da Igreja (a Bíblia completa) vemos a importância da Tradição da Igreja, que nos legou a Bíblia como a temos hoje. Disse o último Concílio: “Pela Tradição torna-se conhecido à Igreja o Cânon completo dos livros sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nelas cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem sem cessar, atuantes.” (DV,8). Se negarmos o valor indispensável da Igreja Católica e de sua Sagrada Tradição, negaremos a autenticidade da própria Bíblia. Note que os seguidores de Lutero não acrescentaram nenhum livro na Bíblia, o que mostra que aceitaram o discernimento da Igreja Católica desde o primeiro século ao definir o Índice da Bíblia. É interessante notar que o Papa São Dâmaso (366-384), no século IV, pediu a S.Jerônimo que fizesse uma revisão das muitas traduções latinas que havia da Bíblia, o que gerava certas confusões entre os cristãos. São Jerônimo revisou o texto grego do Novo Testamento e traduziu do hebraico o Antigo Testamento, dando origem ao texto latino chamado de Vulgata, usado até hoje.

Felipe Aquino/membro do Conselho Diretor da Fundação João Paulo II

Paz amados(as), com certeza nos ajudará a aprofundar nos estudos da Sagrada Escritura, a aula do Pe. Leonel ontem foi marcante! Até bolo de aniversário teve! Feliz aniversário Sr. Edson!

 


Convido a todos(as) os Paroquianos(as) de nossa Diocese a participar

Leiam as regras e vamos participar, o convite é feito a todos(as) Paroquianos(as), leigos(as)! Dia 19/05/2012 será feito a premiação na nossa Paróquia Nossa Senhora do Brasil às 18:30hs(Pela Pastoral da Comunicação da Paróquia Nsra do Brasil), contamos com a participação de todos(as)! Pode-se participar na categoria fotos, Sites e Blogs, Impressos em geral: Revistas, Jornais. Boa sorte a todos(as)
 
A Diocese de São José do Rio Preto, por meio do (SDC) Sistema Diocesano de Comunicação e a (PASCOM) Pastoral da Comunicação informa que ja esta disponível o regulamento completo do Prêmio de Comunicação “João Paulo II” e a ficha de inscrição.
 
Essa iniciativa visa reconhecer os esforços empreendidos, na área da comunicação da igreja, nas comunidades paroquiais ou outros veículos de comunicação existentes na Diocese de São José do Rio Preto. O SDC e a PASCOM contam com a participação de todos os presbíteros na divulgação do evento e incentivem suas comunidades a se inscreverem neste prêmio.
 
A cerimônia de entrega de premiação acontecerá no dia 19 de maio, às 18h30, na paróquia Nossa Senhora do Brasil, no bairro São Deocleciano, em Rio Preto, durante a missa em comemoração ao 46º Dia Mundial das Comunicações Sociais, cujo tema este ano é “Silêncio e Palavra: Caminho de Evangelização”, proposto pelo papa Bento XVI.

As inscrições deverão ser feitas na sede do Bispado de São José do Rio Preto, em horário comercial, seguindo o cronograma apresentado no regulamento.

Regras para participar:

Inscrição para inscrever os trabalhos para concorrer ao I Prêmio João Paulo II no site da Diocese de São José do Rio Preto (www.bispado.org.br)

http://www.bispado.org.br/documentos/Fichadeinscricao.doc

Convite feito por PE. Ernesto e Bispo Paulo a todos os Paroquianos(as) da Diocese de São José do Rio Preto
 
Paz amados(as)

A História da Igreja Católica

A história da Igreja Católica cobre um período de aproximadamente dois mil anos,e relata os eventos de uma das mais antigas instituições religiosas em atividade, influindo no mundo em aspectos espirituais, religiosos, morais, políticos e sócio-culturais. A história da Igreja Católica é integrante à História do Cristianismo e a história da civilização ocidental.

A Igreja Católica acredita que ela “está na História, mas ao mesmo tempo transcende. É unicamente “com os olhos da ” que se pode enxergar em sua realidade visível, ao mesmo tempo, uma realidade espiritual, portadora de vida divina“.

Origem da Igreja Católica

A Igreja Católica acredita que a sua História remonta a Jesus Cristo e ao Apóstolo Pedro, a quem, segundo a doutrina católica, Cristo prometeu o Primado da Igreja fundada por Ele: “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja“. Os católicos acreditam também que Jesus entregou a São Pedro a autoridade suprema da Igreja: “Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus” (cf. Mt 16, 17-20). e que não fundou apenas uma religião – o Cristianismo – fundou também uma Igreja constituída sob a forma de uma comunidade visível de salvação, à qual os homens se incorporam pelo batismo.

A constituição da Igreja consumou-se no dia de Pentecostes e, a partir de então, começa propriamente a sua história (ou seja, “cerca” do ano 30 d.c.).

Universalidade

O Cristianismo nasceu e desenvolveu-se dentro do quadro político-cultural do Império Romano. Os cristãos, inicialmente perseguidos pelo Sinédrio, depressa se desvincularam da Sinagoga, o cristianismo desde as suas origens, foi universal, aberto aos gentios, e estes foram declarados livres das prescrições da Lei Mosaica. O universalismo cristão manifestou-se desde os primórdios da Igreja em contraposição ao caráter nacional da religião judaica. Fugindo da perseguição em Jerusalém os discípulos de Jesus chegaram a Antioquia da Síria, uma das principais metrópoles do Oriente naquele tempo. Alguns destes discípulos eram de origem helênica, de mentalidade mais aberta que os judeus da palestina e começaram a anunciar o Evangelho aos gentios.

Foi em Antioquia que o universalismo da Igreja mostrou-se concretamente uma realidade e foi nesta cidade que pela primeira vez os seguidores de Cristo começaram a ser chamados de cristãos. Nestes primeiros séculos a penetração cristã foi um fenômeno muito mais urbano que rural.

Perseguição e Crescimento

Durante três séculos o Império Romano perseguiu os cristãos, porque a sua religião era vista como uma ofensa ao estado, pois representava outro universalismo e proibia os fiéis de prestarem culto religioso ao soberano imperial. Durante a perseguição, e apesar dela, o cristianismo propagou-se pelo império. Neste período os únicos lugares relativamente seguros em que se podiam reunir eram as catacumbas, cemitérios subterrâneos. O cristianismo teve de se converter numa espécie de sociedade secreta, com os seus sinais convencionais de reconhecimento. Para saber se outra pessoa era cristã, por exemplo, desenhava-se um peixe , pois a palavra grega ichtys (peixe) era o anagrama da frase Iesos Christos Theou Hyios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador).

As principais e maiores perseguições foram as de Nero, no século I, a de Décio no ano 250, a de Valeriano (253-260) e a maior, mais violenta e última a de Diocleciano entre 303 e 304, que tinha por objetivo declarado acabar com o cristianismo e a Igreja. O balanço final desta última perseguição constituiu-se num rotundo fracasso. Diocleciano, após ter renunciado, ainda viveu o bastante para ver os cristãos viverem em liberdade graças ao Édito de Milão, iniciando-se a Paz na Igreja.

Os cristãos formaram comunidades locais, denominadas Igrejas, sob a autoridade pastoral de um bispo. O bispo de Roma, sucessor do apóstolo Pedro, exercia o Primado sobre todas as Igrejas. A vida cristã estava centralizada em torno da Eucaristia e o repúdio do Gnosticismo  foi a grande vitória doutrinal da primitiva Igreja.

Primórdios da Literatura Cristã

A primeira literatura cristã, a seguir o Novo Testamento, teve origem nos Padres Apostólicos, cujos escritos refletem a vida da Cristandade mais antiga. A apologética foi uma literatura de defesa da fé, ao passo que o século III viu já o nascimento de uma ciência teológica. Os escritos dos Padres Apostólicos são de índole pastoral e dirigem-se a um público cristão. Deste período destacam-se a Didaké, a carta de São Clemente aos Coríntios, as sete cartas de Santo Inácio de Antioquia a outras Igrejas, a epístola de Policarpo de Esmirna e o “Pastor de Hermas“.

Outro ponto importante que merece destaque ao falarmos da contribuição do cristianismo na Literatura, está relacionado ao fato de por volta de 1534, o jesuíta chamado Inácio de Loiola ter criado o que chamamos Companhia de Jesus, que foi importantíssimo para a expansão do catolicismo em várias colônias e que de certa forma contribuiu para para a formação educacional dos nativos. O objetivo principal dos povos jesuítas,como já foi visto, era a catequização e a educação dos povos nativos, principalmente das crianças, além da propagação de sua fé religiosa, que certamente era completamente desconhecida pelos povos que primeiramente se estabeleceram em território Brasileiro. O jesuítas que mais se destacaram no Brasil foram José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, que hoje se tornaram um dos maiores representantes da literatura brasileira no período do quinhentismo no Brasil.

O Império Romano Cristão

No decurso do século IV, o Cristianismo começou a ser tolerado pelo Império, para alcançar depois um estatuto de liberdade e converter-se finalmente, no tempo de Teodósio, em religião oficial do Estado. O imperador romano, por esta época, convocou as grandes assembléias dos bispos, os concílios, e a Igreja pôde então dar início à organização de suas estruturas territoriais.

A igreja cristã na região do Mediterrâneo foi organizada sob cinco patriarcas, os bispos de Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Roma (veja Pentarquia). As antigas comunidades cristãs foram, então sucedidas pela “sociedade cristã”, o cristianismo passou de religião das minorias para então se tornar em religião das multidões. Com a decadência do Império, os bispos pouco a pouco foram assumindo funções civis de caráter supletivo e a escolha do bispo passou a ser mais por escolha do clero do que pela pequena comunidade, segundo as fórmulas antigas. Por essa época não foram poucas as intervenções dos nobres e imperadores nas suas escolhas. Figuras expressivas da vida civil foram alçadas à condição de bispo, exemplo disto foram Santo Ambrósio, governador da Alta Itália que passou a bispo de Milão; São Paulino de Nola, ex-cônsul e Sidônio Apolinário, genro do imperador Avito e senhor do Sul das Gálias, que foi eleito bispo de Clermont-Ferrand.

Antes de findar o século IV o Primeiro Concílio de Niceia (325) e o Primeiro Concílio de Constantinopla, em respostas às heresias arianas e ao macedonianismo, formularam a doutrina da Trindade que ficou fixada no seu conjunto no “Credo niceno-constantinopolitano“. Por esta época colocou-se a questão da relação entre as naturezas humana e divina de Cristo, a heresia do monofisismo, que foi finalmente decidida no Primeiro Concílio de Éfeso, convocado pelo imperador Teodósio II, que afirmou que Cristo é “perfeito Deus e perfeito homem” e definiu Maria como “Aquela que portou Deus” (Theotokos) em resposta à heresia nestoriana (do bispo Nestório) que lhe atribuia apenas o Christotokos (Aquela que portou Cristo). Esta posição depois foi reafirmada no Concílio de Calcedônia (451) e no Terceiro Concílio de Constantinopla (680).

Patrística

Os tempos de ouro da Patrística foram os séculos IV e V, embora possa se entender que se estenda até o século VII a chamada “idade dos Padres”. Os principais Pais do Oriente foram: Eusébio de Cesareia, Santo Atanásio, Basílio de Cesareia, Gregório de Nisa, Gregório Nazianzo, São João Crisóstomo e São Cirilo de Alexandria.

Os principais Padres do Ocidente são: Santo Agostinho, autor das “Confissões“, obra prima da literatura universal e Santo Ambrósio, Eusébio Jerônimo, dálmata, conhecido como São Jerônimo que traduziu a Bíblia diretamente do hebraico, aramaico e grego para o latim. Esta versão é a célebre Vulgata, cuja autenticidade foi declarada pelo Concílio de Trento. Outros pais que se destacaram foram São Leão Magno e Gregório Magno, este um romano com vistas para a Idade Média, as suas obras “os Morais e os Diálogos” serão lidas pelos intelectuais da Idade Média, e o “canto gregoriano” permanece vivo até os dias de hoje. Santo Isidoro de Sevilha, falecido em 636, é considerado o último dos grandes padres ocidentais.

Por esta época surgiu o monaquismo. Em busca de uma imitação de Cristo mais perfeita, com o tempo o ascetismo cristão tomou formas de afastamento do mundo. Santo Antão é figura-símbolo do monaquismo dos primeiros séculos, mas a sua figura central é São Bento de Núrsia que com os seus dois primeiros mosteiros e a sua famosa “Regra” serviu de referência típica para o monaquismo, principalmente no Ocidente. Na idade média os mosteiros prestaram relevantes serviços e, dentre outros, tiveram a grande missão de conservar a cultura antiga.

À medida que o Império Romano decaía, a Igreja assumiu muitas de suas funções e ajudou a manter a ordem no meio do caos que se generalizava. O fato de nem tudo se haver perdido se deve em grande parte à influência ordenadora da organização eclesial. Por ela foram estimulados os ideais de justiça social, preservada e transmitida a cultura antiga e civilizadas as populações bárbaras.

Novos Horizontes

O Cristianismo, com a invasão dos bárbaros germânicos vindos do oriente a partir do século IV, teve nova oportunidade de expansão. Missionários levaram a mensagem do cristianismo para além das divisas antigas do Império. Winifrid, monge inglês que mudou o nome para Bonifácio, foi o grande apóstolo da Alemanha. Nos primórdios do século VI, no Natal, Clodoveu, rei dos francos recebeu o batismo católico, com ele todo o reino se converteu ao catolicismo. A França é considerada a filha primogênita da Igreja. Os magiares se converteram acompanhando o seu rei Santo Estevão, os boêmios com São Wenceslau e os poloneses com o batizado do duque Miezko.

O Mediterrâneo, no entanto, por volta do século VII se viu às voltas com o avanço muçulmano, estes dominaram o norte da África, parte do Oriente que havia sido cristianizado e, no ano 711, desembarcaram na Península Ibérica para conquistar com velocidade surpreendente o reino visigodo cristão e, a final, serem detidos em Poitiers por Carlos Martel. Por oito séculos os muçulmanos permaneceram na península. O relacionamento, neste período, entre muçulmanos e cristãos conheceu altos e baixos, desde inimigos em combates históricos a aliados episódicos contra vizinhos desafetos, uns e outros suportaram a dominação do adversário de forma desigual e inconstante, segundo as circunstâncias históricas de cada século. No início da Idade Média o Cristianismo sofreu ingerências dos senhores feudais, tanto nos bispados como na Santa Sé o que levou a vida eclesiástica a sofrer uma decadência moral.

O Grande Cisma

O Bispo de Roma era tido pelos outros Patriarcas como “o primeiro entre iguais”, embora o seu estatuto e influência tenha crescido quando Roma era a capital do império, com as disputas doutrinárias ou procedimentais a serem frequentemente remetidas a Roma para obter uma opinião. Mas quando a capital se mudou para Constantinopla, a sua influência diminuiu. Enquanto Roma reclamava uma autoridade que lhe provinha de São Pedro (que, segundo a tradição, morreu naquela cidade, e é considerado por ela o primeiro papa) e São Paulo, Constantinopla tornara-se a residência do Imperador e do Senado.

Uma série de dificuldades complexas (disputas doutrinárias, Concílios disputados, a evolução de ritos separados e se a posição do Papa de Roma era ou não de real autoridade ou apenas de respeito) levaram à divisão em 1054 que separou a Igreja entre a Igreja Católica no Ocidente e a Igreja Ortodoxa Oriental no Leste (Grécia, Rússia e muitas das terras eslavas, Anatólia, Síria, Egipto, etc.). A esta divisão chama-se o Grande Cisma do Oriente.

Apogeu Medieval

Os séculos XII e XIII formaram o apogeu clássico da cristandade medieval. Inocêncio III é a figura que desponta nesta época. Por este tempo reuniram-se concílios, surgiram as universidades, foram fundadas ordens religiosas de renome a de São Francisco de Assis, de São Domingos de Gusmão, São Bruno fundou a Cartuxa, e São Bernardo de Claraval, talvez o personagem europeu de maior importância do século XII, deu notável impulso à Ordem de Cister. Surgiram ainda a Ordem das Mercês (Mercedários), os ermitãos de Santo Agostinho, e a Ordem do Carmo dentre outras. Surge também a “Escolástica“, é o tempo de Alberto Magno e de Tomás de Aquino e a Suma Teológica e do primeiro “código canônico” (Decretais de Gregório IX), recompilado por São Raimundo de Penhaforte. Surge a Universidade de Paris que tem os seu privilégios reconhecidos pelo Papa Inocêncio III, em 1215, e as de Oxford, Bolonha e Salamanca.

São deste tempo as Cruzadas, os Templários, os Hospitalários, as Ordens Militares e o “cavaleiro cristão” de que El Cid, Rodrigo Dias de Vivar, é o clássico modelo. O Papa concedia graças especiais aos combatentes, e nelas se envolveram príncipes e povos numa demonstração supranacional do elevado grau de seriedade da religiosidade da época. Também na Península Ibérica durante a reconquista os Papas decretaram algumas cruzadas contra o Islã, a mais famosa delas foi a batalha de Navas de Tolosa em 1212.

A decadência das cruzadas coincide com o movimento das missões. São Francisco de Assis consegue com o anúncio do Evangelho e o exemplo da caridade o que as armas não alcançaram. Aparecem as grandes Catedrais, a arte medieval é praticamente exclusiva arte sacra e têm lugar as grandes peregrinações com sentido penitencial: ao Santo Sepulcro, aos túmulos de São Pedro e São Paulo, em Roma e a Santiago de Compostela.

Crise e Cisma do Ocidente

Correntes religiosas orientais antigas lançaram as suas raízes no sul da França e norte da Itália. Surgiram os “Valdenses” e os “Albigenses” ou “Cátaros“, baldados os esforços religiosos-diplomáticos de Inocêncio III. Este acabou por convocar uma vitoriosa cruzada chefiada por Simão de Monforte. Para continuar a luta contra esta heresia foi criada a Inquisição exclusivamente para a defesa da fé e o combate à heresia. Nesta empresa rivalizaram o poder eclesiástico e o poder civil. Em 1232 foi criada por Gregório IX a Inquisição Pontifícia, tanto o sistema penal da época como o processo inquisitorial tiveram graves defeitos que ferem a sensibilidade do homem moderno.

A Baixa Idade Média viu ainda surgir novas doutrinas heréticas, como as de Wiclef, professor em Oxford, cujas proposições são consideradas como precursoras dos reformadores do século XVI e tiveram forte influência sobre João Huss, cujas ideias tiveram ampla aceitação na Boêmia.

Os violentos conflitos entre o Imperador Frederico II e os Papas Gregório IX e Inocêncio IV foram a causa imediata da crise do sistema doutrinal e político da cristandade no século XIII, o que gerou um ressentimento dos povos germânicos contra o papado e que se constitui em causa remota que favoreceu a revolução luterana. Os conflitos entre Bonifácio VIII e Filipe, o Belo, rei da França culminaram com o Papa prisioneiro em Avinhão. Em Avinhão o pontificado afrancesou-se: foram franceses os sete papas que ali se sucederam bem como a grande maioria dos cardeais. Apareceu um nacionalismo eclesiástico que desperta o interesse dos soberanos do ocidente. Em 1377 Gregório XI retorna a Sé Apostólica para Roma, no episódio sobressai a figura de Catarina Benincasa futura Santa Catarina de Sena que tem papel decisivo no retorno do Papado a Roma .

A crise culmina no Cisma do Ocidente, os reis europeus se filiam a diferentes papas segundo as suas conveniências, chegam a ter até tres papas, cada um pretendendo ser a única cabeça legítima da Igreja. O Cisma deixou a cristandade dividida e perplexa, até mesmo entre os santos: Santa Catarina de Sena manteve-se ao lado de Urbano VI enquanto São Vicente Ferrer posicionou-se a favor de do Papa de Avinhão, Antipapa Clemente VII. O Cisma do Ocidente vai de 1378 a 1417 e só vai terminar com a eleição de Martinho V, quando a Igreja recupera a sua unidade.

A Transição, Constantinopla e a América

Vários fatores contraditórios coincidem na passagem da Idade Média para a Idade Moderna. As elites são alimentadas por uma nova visão, agora antropocêntrica e por um certo retorno à antiguidade pagã. Os papas do renascimento, com exceção de Adriano VI, são mais voltados para as artes e letras, tornaram-se mais governantes voltados para os assuntos temporais e verdadeiros mecenas, que preocupados com os problemas disciplinares eclesiásticos e para as questões espirituais.

Constantinopla cai no dia 29 de maio de 1453 na mão dos turcos otomanos. Perde-se o Império Cristão do Oriente que começava a se reaproximar depois do “Grande Cisma“. Fechadas as portas para o Oriente têm início então as “grandes navegações” em que se destacaram as nações católicas Portugal e Espanha, a descoberta das Américas abre caminho para o Evangelho chegar a novos povos e permite novas perspectivas em que irão se destacar, no primeiro momento, os jesuítas de Santo Inácio de Loyola.

É deste tempo, o Humanismo, culto exagerado dos clássicos latinos e gregos, defendia uma piedade erudita. O maior dos humanistas foi Erasmo de Roterdão (14661536), amigo de Thomas Morus. Na verdade, com exceção da Espanha, onde o humanismo apoiado pelo Cardeal Cisneros foi sinceramente cristão, a herança religiosa dos humanistas pouco contribuiu para uma esperada reforma da Igreja.

A grande divisão seguinte da Igreja Católica ocorreu no século XVI com a Reforma Protestante, durante a qual se formaram muitas das denominações Protestantes.

A Reforma Protestante

A Reforma protestante teve Martinho Lutero por autor. Antigo frade da ordem dos Agostinhos, a sua constestação à Igreja Católica foi auxiliada pela decadência moral, pelos interesses burgueses e por fatores de ordem política, como os conflitos entre papas e imperadores germânicos, o ressentimento contra Roma que tinha tomado forma nos Gravamina Nationis Germanicae, um império germânico fragmentado em pequenos principados e cidades-estado e os nacionalismos eclesiásticos.

Na sequência da sua contestação, Lutero construiu um sistema doutrinal-religioso em franca divergência com a tradição da Igreja. Segundo Lutero, as obras do homem de nada servem para a salvação, nem os sacramentos na sua maioria, nem o Papado. A Igreja não seria nem depositária e nem interprete da Revelação. A Sagrada Escritura apenas e exclusivamente seria a única fonte da Revelação segundo a interpretação livre que cada fiel em particular lhe desse, diretamente inspirado por Deus. Publicou as 95 teses contra a Teologia Escolástica e as 95 sobre as Indulgências. Em 1521 foi excomungado.

As doutrinas de Lutero tiveram boa aceitação: a supressão do celibato eclesiástico por não poucos sacerdotes, numa época de baixo nível moral do clero, e a supressão dos votos monásticos por comunidades religiosas; a doutrina de que “a fé sem as obras justifica” (sola fide) foi aproveitada por pessoas ainda ressentidas contra o poder papal, contudo desejosos de garantir a própria salvação sem a relação com a Igreja. Também a possibilidade de se apropriar dos bens da Igreja atiçou a cobiça dos príncipes.[14][15]

Em 1546, quando Lutero faleceu, a Reforma protestante já abrangia mais da metade da Alemanha. Em 1545 tem início o Concílio de Trento que o imperador Carlos V de Habsburgo, defensor da fé católica, vinha reclamando havia quinze anos. O conflito entre o imperador e os nobres e príncipes protestantes terminou em luta armada. Pelo tratado de paz de Augsburgo ficou concedida a igualdade de direitos entre católicos e protestantes e ficou estabelecido que aos príncipes caberia decidir a confissão a ser seguida no respectivo território.

Zuínglio na Suíça, João Calvino na França, levaram adiante ideias similares às de Lutero. O Calvinismo vai arraigar-se com profundidade em Genebra, entre os franceses (huguenotes), na Escócia com John Knox e de uma forma mais amena nos Estados Unidos com a Igreja Presbiteriana. Na Inglaterra, Henrique VIII, por razões pessoais – não obtendo a invalidação de seu casamento – se faz Cabeça suprema da igreja no país – provocando o martírio de Tomás Moro, Lord Chanceler do Rei, de John Fisher, Bispo de Rochester, e de alguns sacerdotes, frades franciscanos e monges capuchos.

A Reforma Católica

Os anseios de renovação cristã produziram um admirável florescimento no seio da Igreja, que em algum país, como a Espanha, se iniciou antes do Luteranismo. Reformaram-se antigas ordens religiosas, criaram-se ordens novas, apareceram grandes santos e grandes papas. A Espanha dos Reis Católicos se coloca na vanguarda da Reforma Católica. O Cardeal Cisneros reformou os conventos franciscanos e a vida monástica; a Universidade de Alcalá, fundada por ele, foi um grande pólo de estudos teológicos, que publicou a célebre Bíblia Poliglota Complutense, os teólogos espanóis tiveram papel destacado em Trento.

A Reforma Católica também conhecida como Contra-Reforma teve como ponto principal o Concílio de Trento, embora este movimento tenha começado anteriormente em vários setores da Igreja. O Concílio não conseguiu o objetivo almejado por Carlos V de restaurar a unidade cristã; mas realizou uma obra imensa, tanto no campo da doutrina católica como no da disciplina eclesiástica.

Em 1534 foi eleito Papa, aos 66 anos de idade, o Cardeal Alexandre Farnesio, que tomou o nome de Paulo III. Vencendo a resistência de reis e príncipes convocou o Concílio Ecumênico de Trento, que inicia os trabalhos as 13 de dezembro de 1545 e só concluiu em 1563.

O Concílio determinou um novo vigor para a Igreja Católica. Medidas reformadoras foram impostas em todos os países que se mantiveram fiéis a Roma, cessando o avanço do protestantismo. Em alguns cantões Suíços, na Baviera, na Polônia, na Áustria consolidou-se o catolicismo. O avanço português e espanhol nas Américas, África e Ásia serviu de veículo à expansão da fé católica. Acabaram-se os pregadores de indulgências de “meia-pataca”, puseram-se fim aos abusos e ao relaxamento moral do clero, restabelecendo uma disciplina eclesiástica. A Vulgata de São Jerônimo seria a tradução latina oficial da Igreja, todas as teses protestantes foram discutidas e revigorou-se as doutrinas dogmática, moral e sacramental católicas.

Ao mesmo tempo São Pedro Canísio no Leste Europeu, São Carlos Borromeu como secretário de Estado de Pio IV, e mais tarde arcebispo de Milão, aplicando a Reforma Católica ao norte da Itália, foram elementos importantes para o cumprimento dos decretos do Concílio de Trento. Santa Teresa de Jesus, reformadora do Carmelo; Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, ao falecer deixara ordenados mais de mil jesuítas evangelizando o mundo inteiro, e São Filipe Néri, foram três gigantes da Reforma Católica. São Thomas Morus morreria decapitado por se manter fiel à fé, juntamente com John Fisher e o Venerável Edmundo Campion. São Francisco Xavier levaria o Evangelho ao Extremo Oriente, à Índia, Malaia, Japão e à China, São Francisco de Borja repararia com folga os erros de sua família, São Roberto Belarmino daria novo impulso á teologia. A Igreja ressurgia da crise fortalecida e revigorada doutrinal e espiritualmente. Após o Concílio de Trento São Pio V, Gregório XIII e Sisto V se destacaram pela energia do seu trabalho como grandes reformadores.

É dessa época o Calendário Gregoriano. Gregório XIII, sucessor de S. Pio V, fundou uma série de colégios eclesiásticos para melhoria da formação do clero. Determinou que uma comissão de peritos com a colaboração de um erudito jesuíta Cristóvão Clávio, astrônomo e matemático, procedesse ao estudo e à reforma do calendário “Juliano”. Os trabalhos foram concluídos em 1582 e o dia 4 de outubro seria seguido do dia 15. É o calendário seguido pelo mundo inteiro para efeitos civis.

A Ascenção Francesa

No século XVII a França passou a ocupar o espaço que anteriormente era o da Espanha e passou a ser a principal referência da vida cristã.

A França permaneceu católica e com o Édito de Nantes (1598) os protestantes huguenotes receberam garantias de tolerância religiosa. Começa então um período de vívida atividade, as missões de São Francisco de Sales em Chablais, conseguiram o regresso ao catolicismo de grande parte da suiça francesa.

São Vicente de Paulo também promoveu missões de alcance popular, às quais se dedicaram os lazaristas, oriundos do Seminário de São Lázaro, desenvolveu intensa atividade beneficente e social, principalmente através das Irmãs da Caridade. São João Batista de La Salle funda uma ordem religiosa voltada para o ensino, e a ordem dos Cistercienses foi reformada pelo Abade Rancé, dando origem à Ordem Trapista.

No espírito tridentino foi fundado o “Oratório” pelo Cardeal Bérulle e Jean-Jacques Olier os “sulpicianos” do seminário de São Sulpício, formador de professores e mestres para outros seminários. A intelectualidade francesa foi enriquecida com personalidades católicas do nível de Blaise Pascal, Mabillon, Bossuet e Fénelon e Luís XIII consagra a França à Santíssima Virgem (1638) e Luís XIV revogou o Édito de Nantes (1685) impondo a unidade católica pela força.

O século XVII foi também um período de intensas disputas doutrinário-teológicas, o que demonstra a vitalidade e o interesse pelo tema religioso. São desta época o as correntes de pensamento religioso do “Molinismo” e os “Bañezianos” seus adversários, o “Jansenismo” e o “Quietismo“, algumas delas condenadas expressamente por Roma.

Houve uma crise cultural tentando conciliar o racionalismo tomista com o novo racionalismo iluminista que começava a surgir. É desta época o julgamento de Galileu – deplorado pelo Concílio Vaticano II e pelo Papa João Paulo II – cujas teses, só teriam a possibilidade de demonstração física da verdade séculos mais tarde.

Do Regalismo à Restauração

  • O despotismo ilustrado

No século XVIII as monarquias católicas pretenderam o controle da vida eclesiástica, movimento que ficou conhecido como “Regalismo“, o que fez com que o Pontificado Romano perdesse parte de seu poder político. Isto não só pela perda de territórios para nações protestantes. Pretenderam fazer da Igreja um serviço público subordinado ao rei e integrante da administração do Estado. Este comportamento era característico do Despotismo Ilustrado. Catolicismo como única religião oficial do Estado e sob intervenção do monarca e desconfiança em relação a Roma, seria a marca desta fase. Esta tendência anti-romana teve como alvo preferido a Companhia de Jesus, principal força de que dispunha o Papado. Os jesuítas foram expulsos de Portugal, da Espanha, de Nápoles e da França e finalmente foram dissolvidos por Clemente XIV.

Na França este intervencionismo clerical de Luiz XIV ficou conhecido como “Galicanismo“, nas terras germânicas surgiu o Febronianismo, de Febrónio, psudônimo de João Nicolau de Hontheim, bispo auxiliar do bispo eleitor de Tréveris que defendia a subordinação da Igreja aos príncipes. Na Áustria surgiu o “Josefismo” de igual tendência, o mesmo se deu com Pedro, o Grande na Rússia, que suprimiu o Patriarcado da Igreja russa. Os episcopados das monarquias regalistas se transformaram em patrimônio da aristocracia, tornaram-se dóceis ao poder, e nos finais do Antigo Regime a vida cristã tanto da hierarquia como do povo aparentava languidez e opacidade.

  • O Iluminismo

A partir de 1680 verificou-se uma mudança de mentalidades e ideias na Europa. Surge o racionalismo de Descartes que levado ao extremo chega ao ceticismo religioso, surgiram os “libertinos” que adotavam uma posição de indiferença para com a religião, eram epicuristas: “comamos e bebamos que amanhã morreremos”. Espinoza faz uma crítica radical contra a Bíblia e o “Deísmo” da Inglaterra se propagou para o continente. O Deísmo não nega Deus mas o afasta do homem e adota uma construção panteísta e foi adotado pela Maçonaria, principalmente a inglesa que surge nesta época. Combate qualquer religião organizada, e era adversária em especial do cristianismo. Foi condenada por Clemente XII em 1738. O ódio a qualquer religião e principalmente ao cristianismo foi também uma obsessão para Voltaire.

Mas o principal instrumento para divulgação da ideologia “ilustrada” foi a “Enciclopédia“, projetada por Diderot e D’Alembert, com orientação intelectual ostensivamente contrária ao Cristianismo, teve a sua ideologia religiosa fortemente influenciada por Rosseau de linha de pensamento vagamente Deísta. Emmanuel Kant de sua vez teve decisiva importãncia no pensamento europeu do século que viria.

O conflito entre o Iluminismo e a Igreja Católica teve seu auge no final do século XVIII com a Revolução Francesa, cuja Constituição Civil do Clero aboliu muitos privilégios do clero e reduziu a hierarquia francesa a funcionários públicos, sujeitos às interpretações teológicas e intervenções do Estado revolucionário.

  • A Revolução

A Revolução Francesa, nos seus momentos mais radicais, fez o possível para eliminar qualquer religião e extirpar qualquer resquício de vida cristã na sociedade. Dois papas foram aprisionados na França, os templos e bens da Igreja confiscados e depois cairam em mãos de particulares. Sob o Terror, a perseguição anticatólica atingiu o seu ponto máximo. Milhares de católicos subiram ao patíbulo pelo simples fato de professarem a religião, dentre eles destacam-se as Carmelitas Teresianas de Compiègne[21]. Procedeu-se à matança [22] dos clérigos que não jurassem a Constituição Civil do Clero, proibida por Pio VI. Institui-se uma religião-ideologia de estado e tentou-se difundir o culto pagão à “Deusa-Razão” numa encenação da sua coroação na Catedral de Notre-Dame de Paris, em 10 de novembro de 1793.

Napoleão foi o restaurador da Igreja na França com a Concordata de 17 de julho de 1801 e, ao assumir o poder, restabeleceu as velhas práticas do “Regalismo Galicano“. Depois de Waterloo muitos católicos defenderam uma “aliança entre o Trono e o Altar” achando que assim se asseguraria uma estabilidade para ambos. Esta aliança não duraria muito.

O Século das “Coisas Novas”

Em 1802 em consequência de uma Concordata entre Napoleão e a Cúria Romana, a Igreja Católica recuperou sua autonomia e legalidade na França.

As ondas do nacionalismo fizeram com que o Papado percebesse que estava perdendo terreno no poder temporal, assim passou a garantir sua hegemonia espiritual sobre toda a Igreja Católica: em 1847 foi estabelecido um Patriarcado Latino de facto em Jerusalém (desde as cruzadas o título era somente honorário); a hierarquia católica foi restabelecida e reconhecida pelo parlamento na Inglaterra, graças em parte às campanhas do irlandês O’Connel.

Surge nesta época o Movimento de Oxford na Igreja Anglicana que procurava uma aproximação com a Igreja Católica. Teólogos anglicanos como John Henry Newman que se converteu em 1845 e depois nomeado Cardeal e Edward Manning arcediago da Catedral de Chichester que converteu-se em 1851 e depois nomeado também Cardeal são fatos marcantes da vida da Igreja na Inglaterra deste século.

Em 1846, antes mesmo da proclamação do dogma, a Imaculada Conceição era declarada padroeira dos Estados Unidos da América e surgem os primeiros beatos e santos norte-americanos: Filipa Duchesne, Santa Francisca Xaviera Cabrini e Isabel Ana Seton. Com as crises provocadas pelas guerras franco-prussianas e da unificação da Itália, Roma é invadida e o Papa se declara prisioneiro no Vaticano. Pio IX, na encíclica Quanta cura, condena os erros do liberalismo filosófico, do racionalismo, do pantéismo, do naturalismo, do agnosticismo, do indiferentismo, do racismo, do socialismo marxista e do comunismo.

Na verdade, a Igreja surge rejuvenescida. É deste tempo o Cura d’Ars, São João Maria Baptista Vianney, pároco de uma pequena aldeia perto de Lyon, na França, mais tarde proclamado patrono do clero secular; a Bernadete Soubirous de Lourdes e a confirmação da proclamação do dogma da Imaculada Conceição e as Conferências de São Vicente de Paulo, fundadas por Frederico Ozanam.

Na Áustria, São Clemente Hofbauer se notabiliza; na Itália, o trabalho de São João Bosco regenera marginais, conquista a juventude e convence pela caridade governos locais ateus e anticlericais. Santo Antônio Maria Claret funda a ordem dos Claretianos missionários.

Em 1854 é proclamado formalmente o dogma da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria. Em 1869 o Papa Pio IX convoca o Concílio Vaticano I, que afirma o dogma da Infalibilidade Pontifícia, na votação todos os Padres Conciliares, exceto dois, votaram neste sentido, e ambos os dissidentes logo que souberam do resultado aderiram, não obstante, por isto, alguns teólogos fundarem a Igreja Vétero-Católica. A proclamação deste dogma determinou a discriminação e mesmo a perseguição de católicos na Prússia, onde Bismarck havia lançada a sua kulturkampf, que depois será contornada com a diplomacia de Leão XIII. O Concílio também adota a Constituição Apostólica Dei Filius que consolida a doutrina da Igreja sobre as relações entre fé e razão.

Também inicia a era da Doutrina Social da Igreja Católica, com a publicação da encíclica Rerum Novarum (1891) pelo Papa Leão XIII em que enfrenta os problemas da “questão social” que surge e onde condena os excessos do liberal-capitalismo e a luta de classes, defende o salário justo e proclama a função social da propriedade e critica tanto Estado do laissez-faire como dirigismo socialista.

O mesmo Leão XIII na encíclica Aeterni Patris reafirma as doutrinas de São Tomás de Aquino, na Immortale Dei (1885) dá diretrizes para a ação política cristã. Este século deu ainda ao mundo uma “pequena grande” santa: Teresa de Lisieux ou Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, freira carmelita enclausurada, falecida aos 24 anos de idade, canonizada, foi declarada co-padroeira dos missionários ao lado de São Francisco de Sales e se tornaria muito popular.

Os primórdios do Século XX

Leão XIII foi sucedido por pelo Cardeal Sarto que assumiu o nome de Pio X e que viria a ser canonizado. Este iniciou os trabalhos de unificação das leis eclesiásticas que mais tarde se tornariam no Código de Direito Canônico de 1917, determinou a redação de um Catecismo, combateu o modernismo e recomendou a comunhão das crianças a partir da idade do discernimento. Faleceu nas primeiras semanas da Primeira Guerra Mundial.

Bento XV, Cardeal della Chiesa, exerceria o pontificado de 1914 a 1922. Durante a Guerra, a Santa Sé realizaria um grande trabalho em favor das suas vítimas e de localização de soldados desaparecidos. A Bento XV sucedeu Pio XI (1922-1939): durante o seu período na Santa Sé assinou o Tratado de Latrão que instituiu o Estado da Cidade do Vaticano. Condenou os erros do fascismo na carta Encíclica Non abbiamo bisogno, escrita não em latim, mas na língua italiana, para que não se tivesse dúvida a quem se dirigia. Criou e incentivou a Acção Católica destinada a orientar o apostolado dos leigos, desenvolveu também a ação missionária. Inaugurou a Rádio Vaticano inserindo a Igreja na era da tecnologia das comunicações, criou um observatório astronômico e foram criadas universidades católicas na Itália, Holanda e Polônia.

Durante o pontificado de Pio XI foi assinado o Tratado de Latrão dando início ao reconhecimento internacional do Estado do Vaticano tendo o Papa como seu soberano e determinando o fim da chamada Questão Romana. Em 1931 Pio XI publicou as Encíclicas Casti Connubii e Quadragesimo anno por ocasião dos quarenta anos da publicação da Rerum Novarum do Papa Leão XIII atualizando a Doutrina Social da Igreja e a Divini Redemptoris, em que condenou os erros do materialismo marxista e os do comunismo ateu, ideologia oficial da União Soviética.

Publicou também a Encíclica Mit brennender Sorge (Com ardente ansiedade) em alemão, para condenar os erros do Nazismo e sua doutrina racista, que foi lida em todas as igrejas alemãs em 1937, o que determinou o recrudescimento da perseguição contra os católicos pelos nazistas. Foi um tempo de florescimento da Igreja que teve como contraponto a perseguição e o mártírio de muitos cristãos. Na Rússia comunista e no México a perseguição teve dimensões inéditas. Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), foram assassinados sete mil religiosos espanhóis por “ódio à religião”, pelo fato de serem religiosos católicos.

A Segunda Guerra e o Pós-Guerra

A Segunda Grande Guerra produziu muitos mártires católicos, dentre eles se destacam Edith Stein e Maximiliano Kolbe e ainda os beatos Rupert Mayer e Alojs Andritzki, nesta mesma época o Arcebispo de Berlim, Cardeal von Preysing e o beato von Galen, cardeal e bispo de Münster, destacaram-se na denúncia dos crimes do nazismo.

O Cardeal Pacelli tomou o nome de Pio XII (1939-1959), quando os nazistas ocuparam Roma, acolheu no Vaticano milhares de perseguidos, de todos os credos e raças e nacionalidades. Por uma grande soma de dinheiro resgatou 200 judeus e, com a sua aprovação, Monsenhor O’Flaherty, alto funcionário da Congregação do Santo Ofício, organizou uma rede clandestina de auxílio aos perseguidos que permitiu que fossem salvos milhares de judeus e comunistas.[24]

Desde 1939 não se nomeavam novos cardeais. Pio XII, em 1946, procedeu à nomeação das 32 vagas existente num colégio de cardeais que na época era de 70 cardeais. Nomeou quatro cardeais italianos e vinte e oito de outras nacionalidades. Dava o primeiro grande passo para retomar a nota da universalidade da Igreja que seria revigorada no Concílio Vaticano II.

Em 1950, Pio XII proclamou solenemente o dogma da Assunção da Virgem Maria cuja tradição já era celebrada desde São Leão Magno, no século V (15 de agosto) e consagrou a Humanidade ao Imaculado Coração de Maria. Criou 190 dioceses e incentivou a criação de novas instituições na Igreja. No seu tempo a divisão da Europa aumentou o sofrimento da Igreja e a perseguição religiosa no Leste Europeu, do outro lado da Cortina-de-Ferro sobressaíram a têmpera dos cardeais Mindszenty, Stepinac e Wyszynski, e, silenciosamente, forjava-se o Cardeal Karol Wojtyla, que mais tarde viria impressionar o mundo. Editou a encíclica Humani Generis (1950) que critica os erros do neo-modernismo. Nesta década Madre Teresa de Calcutá funda a ordem das Missionárias da Caridade cujo trabalho chamará a atenção do mundo inteiro.

A Era do Concílio Vaticano II

O Concílio Vaticano II foi convocado por João XXIII, em 25 de dezembro de 1961, através da bula Humanae salutis, com o objetivo de promover o incremento da fé católica e uma saudável renovação dos costumes do povo cristão, e adaptar a disciplina eclesiástica às condições do nosso tempo. Os trabalhos foram abertos oficialmente em 11 de outubro de 1962 e foi encerrado em 8 de dezembro de 1965.

A era do concílio ficou conhecida como a “Primavera da Igreja”, o Concílio estabeleceu um importante programa de renovação da Igreja e promulgou documentos que servem de parâmetro para ação da Igreja. Um dos mais conhecidos documentos conciliares é a Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo atual. Entre várias renovações, este concílio reformou a Liturgia, a constituição e a pastoral da Igreja (que passou a ser alicerçada na igual dignidade de todos os fiéis e a ser mais virada para o mundo), clarificou a relação entre a Revelação divina e a Tradição, e impulsionou a liberdade religiosa, o ecumenismo e o apostolado dos leigos. Não foi proclamado nenhum dogma, mas as suas orientações doutrinais e práticas são de extrema importância para a Igreja actual.

Entretanto por ocasião do Concílio, em nome de um pretenso “espírito conciliar”, ocorreu no mundo eclesiástico uma crise de fundo “neo-modernista” com várias práticas contrárias à doutrina e à disciplina da Igreja, em desacordo com os documentos do próprio concílio, afirmando ser a missão da Igreja não a salvação eterna do homem mas que a sua missão haveria que ser de ordem preferentemente temporal.

No Ocidente surge a sociedade de bem-estar e de a de consumo seguidas do materialismo prático que reduz a visão do homem a plano unicamente temporal, por coincidência, simultaneamente, surge a crise das famílias, a separação de casais, a irrupção da violência, o aumento do consumo de drogas, a epidemia de SIDA, em muitos lugares permite-se o aborto e a mentalidade antinatalista faz com que vários países tenham sérios problemas demográficos. A estes problemas a Igreja responde com a proclamação da íntegra do seu magistério.

Em 1968 o Papa Paulo VI edita a encíclica Humanae Vitae sobre os problemas do matrimônio e da família, em especial sobre o uso de contraceptivos artificiais, e o Credo do Povo de Deus onde reafirma as proposições fundamentais da fé católica, com ênfase nas questões mais atuais que contrariam a doutrina da Igreja. O Papa João Paulo I em brevíssimo pontificado sucede a Paulo VI.

João Paulo II e o Terceiro Milênio 

Pela primeira vez em quatro séculos e meio foi eleito um Papa que não tinha origem na Itália. O cardeal Karol Wojtyla, de origem eslava, para surpresa do mundo, é eleito para exercer um dos pontificados mais longos em dois mil anos de história da Igreja. João Paulo II realiza uma grande reforma na Igreja em extensão e profundidade com os olhos postos no Concílio Vaticano II do qual tomou parte. Segundo Bento XVIJoão Paulo II acolheu particularmente em todos os seus documentos, e ainda mais nas suas opções e no seu comportamento como Pontífice, as exigências do Concílio Ecuménico Vaticano II, tornando-se assim qualificado intérprete e testemunha coerente. Foi sua preocupação constante fazer conhecer a todos que vantagens podiam surgir do acolhimento da visão conciliar, não só para o bem da Igreja, mas também para o da própria sociedade civil e das pessoas que nela trabalham.

No seu pontificado foi reafirmada mais uma vez a doutrina imutável da Igreja em toda a sua amplitude. Em 1985 convocou uma Assembléia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, “com a finalidade de aprofundar o ensinamento do concílio, promover o seu conhecimento e aplicação. Atendendo ao desejo dos Padres Sinodais “determinou a publicação de uma versão do Catecismo da Igreja (1992) e do seu Compêndio (2005) – póstuma – bem didática, que facilitasse a sua compreensão pelo homem moderno.

Determinou uma atualização do Código de Direito Canônico, promulgando um novo em 1983, para que a nova legislação canônica se tornasse um meio eficaz para que a Igreja possa aperfeiçoar-se, de acordo com o espírito do Vaticano II, e cada dia esteja em melhores disposições de realizar a sua missão de salvação neste mundo.  Enfrentou os problemas morais, sociais e filosóficos do seu tempo sobre todos manifestando de modo claro o Magistério da doutrina católica[carece de fontes?]. Combateu o comunismo e é apontado como o principal responsável pela “Queda do Muro de Berlim” e pela dèbacle dos regimes da “Cortina-de-Ferro“; foi um crítico do materialismo, do consumismo, do hedonismo, do antinatalismo, do aborto, do capitalismo selvagem e do marxismo. Afirmou que o principal capital da empresa são os seus empregados e que estes precedem em importância ao capital e ao lucro.

Consolidou a Doutrina Social da Igreja (2004) e mandou que fosse publicado um compêndio sobre o assunto (póstuma), documento marcante sobre os temas sociais é a encíclica Centesimus Annus (1991) publicada por ocasião do centenário da Rerum Novarum e ainda, Laborens exercens (1981) e Sollicitudo rei socialis (1987) que constituem etapas marcantes do pensamento social católico.

Reafirmou a posição da Igreja em favor da vida e combateu o que denominou de cultura da morte nas encíclicas Evangelium Vitae (1995) e Veritatis Splendor (1993), onde aborda também diversas questões morais e filosóficas da atualidade. A crítica ao ateísmo e à fé sem razão é feita na encíclica Fides et Ratio (1998).

Promoveu-se, no seu pontificado, uma intrasigente defesa dos valores da família e da doutrina católica sobre a família. Neste sentido foram publicados, principalmente, os documentos Carta Apostólica Mulieris Dignitatem ( 15 de Agosto de 1988), Carta às Mulheres (29 de Junho de 1995), Carta aos Anciãos (1° de Outubro de 1999), Carta às Crianças (13 de Dezembro de 1994), Cartas às Famílias (2 de Fevereiro de 1994) e a Exortação Apostólica Familiaris Consortio (22 de novembro de 1981). A partir de 1994 deu início aos “Encontros Mundiais da Família”, foi incentivada a pastoral da juventude e as “Jornadas Mundiais de Jovens”. Fez ainda incluir na Ladainha de Nossa Senhora a invocação Regina Familiae (Rainha das Famílias).

Na Exortação Apostólica Christifideles Laici (30 de dezembro de 1988) relembrou aos leigos os seus deveres cristãos na vida da sociedade e o seu chamamento universal à santidade que fez o Concílio Vaticano II. Em aplicação dos textos conciliares, a Santa Sé erigiu o Opus Dei como Prelatura Pessoal (1982), fenômeno ascético e pastoral de singular importância que desde 1928 vinha difundindo esta mensagem.

Firme na ortodoxia católica não deixou de incentivar o ecumenismo, ao mesmo tempo em que realizou o ato formal de excomunhão do arcebispo Marcel Lefebvre, determinou a revisão do processo de Galileu Galilei e condenou a “teologia da libertação“, que tinha uma visão marxista da religião e do mundo. Modernizou o processo de canonização dos santos, para servirem de exemplo e para mostrar que a santidade é alcançável ao “homem comum”. A ação pastoral da Igreja foi reavivada com as dezenas de viagens internacionais que fez, sem precedentes em toda a história da Igreja.

Renovou todo o Colégio de Cardeais exceto um, e foi sucedido pelo único cardeal presente ao Conclave que não havia sido por ele nomeado, mas por Paulo VI: Joseph Ratzinger que tomou o nome de Bento XVI, em 19 de abril de 2005. No século XXI a maioria dos católicos não pertence mais à velha Europa mas aos povos do chamado Terceiro Mundo. Hoje a Igreja aparece como a grande defensora do homem, da sua dignidade de criatura e filho de Deus e do seu direito à vida e à liberdade. Na nova humanidade de finais do século XX, o Cristianismo aparece, em suma – exatamente como nos seus começos – como a religião dos discípulos de Cristo.

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A História da Igreja Católica é  um assunto que merece nossa atenção como Católicos, espero que ajude a entender um pouco mais e assim possamos aprofundar ainda mais nossos estudos.
 
Paz amados(as)