Os Gêneros Literários da Bíblia

Denomina-se “Gênero Literário” o conjunto de regras e elementos comuns a diversos textos, caracterizando e constituindo, assim, um tipo, um grupo, um conjunto. Sabemos que a mesma realidade pode ser narrada de várias maneiras. Um único fato pode ser transmitido de diferentes modos, dependendo da intenção de quem o transmite. Uma é a preocupação do jornalista, outra a de um teólogo, a de um filósofo ou a de um poeta. Assim sendo, o mesmo tema ou acontecimento ganhará, na pena de cada um deles, uma conotação ou abordagem distinta. O mesmo ocorre na Bíblia: “na Escritura as coisas divinas nos são apresentadas ao modo usual, humano” (Sto. Tomás de Aquino). A “mensagem que Deus transmite à humanidade é única, todavia, a Bíblia é uma verdadeira biblioteca, absolutamente assistemática, dos mais diversos escritos. Eles são, também quanto aos gêneros, muito diversificados” (N. Lohfink). 

 Desde o início do século passado, a questão dos gêneros literários da Bíblia vem se desenvolvendo. Entretanto, devido à sua complexidade, não se pode afirmar absolutamente, nem sequer quanto à conceituação, que as discussões se encerraram. Muitos estudiosos, como W. Richter, apontam enfaticamente as imprecisões que ainda persistem no conceito de gênero literário, aconselhando muita prudência quanto à sua aplicação. Contudo, a Igreja insiste que a procura do sentido literal da Escritura é uma tarefa essencial do exegeta (estudioso dos originais da Bíblia) e, para cumpri-la, é necessário determinar o gênero literário dos textos (cf. Dei Verbum, 12; A Interpretação da Bíblia na Igreja, I, A, 4).

A grande dificuldade consiste em se captar os gêneros literários da Bíblia a partir da compreensão européia de literatura (A. Läpple). Ora, “o que os orientais antigos pretenderam expressar com suas palavras não se pode determinar simplesmente pelas meras regras gramaticais ou filológicas, ou só a partir do contexto; o exegeta precisa, por assim dizer, retornar em espírito àquelas longínquas épocas do Oriente e, com o auxílio da História, da Arqueologia e outras ciências, determinar com exatidão quais gêneros literários os escritores daquelas prístinas eras quiseram usar e de fato usaram. Pois os orientais antigos nem sempre se servem, para exprimir seus pensamentos, das mesmas formas e modos que nós, mas sim dos que eram usuais entre os homens do seu tempo e da sua terra” (PIO XII, Divíno Afflante Spiritu, 3).

Para uma compreensão mais acurada dos gêneros literários na Bíblia, faz-se mister considerar três elementos essenciais: conteúdo, forma e contexto vital no qual o texto foi produzido. O conteúdo é o fato ou a mensagem que o autor deseja comunicar. A forma é o recurso literário por ele utilizado – “narrativa histórica”, “poema”, “fábula”, “novela”, “legenda”, “saga” etc. -, para transmitir a mensagem, ou conteúdo. O contexto vital – ou o termo técnico Sitz im Leben, em alemão – refere-se à situação concreta que está por trás do texto: a intenção do autor considerando os destinatários, sua cultura, seu horizonte de compreensão e suas interrogações, enfim, a vida que se esconde na origem do escrito. No longo processo de escrita da Bíblia, cerca de dois milênios, a história do povo de Israel e de toda a humanidade passou por grandes mutações de ordem política, religiosa e social. Da mesma forma, também os gêneros literários da Bíblia sofreram muitas transformações. Ao longo desse processo, muitos gêneros que, em certa época, eram muito apreciados caíram em desuso, dando lugar a novas formas de expressão. De fato, “um gênero literário perece quando perece seu público” (F. Nietzsche). Ora, nos textos da Bíblia, os mesmos temas foram retomados em tempos diversos e com finalidade e meios literários também diversos; “daí que não se pode dizer simplesmente que um escrito pertence basicamente a um só gênero. Pelo contrário, é muito freqüente falar-se de uma pluridimensionalidade de intenções e gêneros literários” (A. Läpple).

O conhecimento do gênero literário é imprescindível para se compreender corretamente a mensagem de um texto. Pode-se afirmar, de modo muito geral, que, na Bíblia, predominam formas literárias muito simples. De acordo com Otto Eissfeldt, pode-se distinguir os seguintes gêneros: Prosa, Gêneros dos provérbios e Cânticos. Exemplo de Prosa são os ditos, as pregações, as preces, os documentos legais e narrativas poéticas e históricas. Os Gêneros dos provérbios compreendem sentenças jurídicas, ditos cultuais, proféticos, sapienciais e de natureza diversa bem como adágios e enigmas. Na Bíblia, os Cânticos são abundantes: hinos, salmos, cantigas de colheita, amor e casamento, cantos fúnebres e satíricos, hinos régios e de vitória, hinos litúrgicos, poesia sapiencial. Entretanto, devem ser consideradas, também, formas particulares de gêneros literários, principalmente quando surgem dificuldades quanto aos dados históricos nas Sagradas Escrituras. Ora, se, no passado, a Bíblia, devido ao desconhecimento dos gêneros literários, foi interpretada “ao pé da letra”, agora, com o avanço das ciências bíblicas, corre-se o risco de não se tomar a sério, as informações históricas, geográficas e os dados escriturísticos. Por isso, os estudiosos da Bíblia recomendam considerar formas de expressão tão comum ao homem bíblico, como os “relatos etiológicos”, o “midrach” e o “simbolismo numérico”

No estudo dos Gêneros literários da Bíblia, recomenda-se, vivamente, que se levem em consideração certas formas de expressão muito comuns ao homem bíblico, como os “relatos etiológicos“, o “midrach” e o “simbolismo numérico“. Etiologia é a interpretação ou a explicação da origem de um fenômeno, de uma festa, de um rito, do nome de um lugar, ou de um costume do povo. Trata-se de encontrar em acontecimentos do passado a causa de experiências e de fatos do presente.

Em Israel, os relatos de etiologias surgiram, sobretudo, diante de situações de conflito e sofrimento, às quais a fé não dispunha de nenhuma informação para explicá-las e compreendê-las, daí recorrer a esse tipo de relatos para as interpretar, explicar e, de certa forma, as assimilar. As etiologias são, freqüentemente, determinadas por uma motivação “histórico-salvificante, pela qual se tenta aclarar a tensão entre um Deus bom e o mundo insuficiente com sua maldade, sofrimento e mortalidade do homem” (A. Läpple). O pensamento etiológico não se enraíza, pois, na mera curiosidade, no desejo de encontrar uma explicação lógica para certas expressões da vida e do culto popular, mas no desejo de se encontrar uma resposta, à luz da fé, para as mazelas inerentes à condição humana.

Os relatos etiológicos podem ser classificados segundo seu objetivo. Quando têm a intenção de explicar as relações de amor ou de ódio entre Israel e outro povo, denominam-se etiologias etnológicas: mediante genealogias artificiais, demonstra-se que o sentimento ora nutrido pelos israelitas em relação a outro povo tem sua origem numa aliança ou num desentendimento no passado com algum membro ilustre daquele povo.

Recorre-se à tiologia etimológica para explicar – mediante um vocábulo hebraico que soa de maneira semelhante – uma palavra de origem estrangeira cujo sentido original se perdeu. Portanto, basta uma simples afinidade eufônica para se registrar a origem de uma palavra. Um exemplo disso encontra-se em Gn 11,9, com a relação que se estabelece entre “Babel” e “Babilônia”, para se explicar a diversidade das línguas como conseqüência do orgulho e da vaidade humana.

Outra espécie de etiologia é a geográfica ou geológica. Trata-se de explicações para o nome de um lugar: “Fonte amarga” = Mara (Ex 15,22-25); “Contenda” = Meribá (Nm 20,2-13); “Vale da Uva” = Eskol (Nm 13,24-25); “Extermínio” = Hormá (Nm 21,1-13).

Há, ainda, a etiologia cultural-religiosa utilizada para explicar a origem divina e o sentido de certos costumes religiosos (circuncisão, santificação do sábado etc.) e de certas leis alimentares (não comer carne suína e sangue etc.).

Finalmente, as etiologias antropológicas, que visam explicar teologicamente realidades da existência humana como a dor, o sofrimento e a morte como conseqüências do julgamento punitivo de Deus.

Outra forma particular de gênero literário da Bíblia é o Midraxe (ou Midrash). Designa a exegese rabínica, muito minuciosa, verso por verso e, às vezes, letra por letra, do Antigo Testamento (AT). Esse tipo de escrito pode ser visto claramente na literatura do judaísmo e, também, pode ser encontrado tanto no AT como no Novo Testamento [NT] (Van den Born). Midraxe deriva do termo hebraico “darash“, que significa “perscrutar”, “procurar”, “explicar”, “investigar”. Na literatura rabínica, trata-se de um estudo, um comentário ou uma explicação de caráter homilético do AT. Pode-se distinguir dois tipos de midraxe: a halakhah (“caminho”, isto é, “conduta”) e a haggadah (“narração”). A halakhah é uma explicação da Lei e a haggadah é uma explicação das passagens narrativas do Pentateuco, com o objetivo de extrair delas lições edificantes (H. Schlesinger). O objetivo do midraxe é a aplicação prática do texto ao presente; assim, um preceito deve ser reafirmado ou um episódio usado, de modo a iluminar e orientar a vida do povo. Não há paralelos do midraxe na literatura grega e latina.

O AT contém muitos exemplos de midraxe, que é meditação edificante sobre um antigo discurso bíblico, reconstrução imaginosa de um episódio ou construção de um episódio fictício, com base nos princípios deduzidos do material bíblico. São exemplos de “midraschim” (assim é o plural hebraico): os relatos da criação (Gn 1), do dilúvio (Gn 6,9-22), do episódio dos patriarcas (Gn 12ss), do Êxodo (Ex 14ss) e da Aliança (Gn 19ss), etc. Esses relatos não têm a intenção de registrar a história do passado, mas sim de extrair ensinamentos da tradição bíblica.

O NT também contém certa quantidade de “midraschim“. Nos evangelhos, Mateus é particularmente apaixonado pelo midraxe. Mt 2,1-12 é escrito com base na reutilização de Nm 24,17; Mt 2,13-15 está construído com base em Os 11,1, e Mt 2,16-18 com base em Jr 31,15. Mt 2,23 liga Nazaré com Jz 13,5, com base na assonância com nazir (nazireu) e com Is 11,1 pela assonância com neçer, “rebento”. Mt 27,3 reúne Zc 11,12ss e Jr 32,6-15 e os aplica ao episódio registrado.

A narrativa da infância de Lc 1-2 é um esplêndido exemplo de midraxe. Com base em uma breve memória autêntica dos fatos, o relato é completado com uma antologia de citações extraídas do AT e apropriadas ao nascimento do Messias. Paulo, muitas vezes, recorre ao midraxe para aplicar o AT a um fato cristão (Gl 3-4). “O midraxe era algo sério e foi extremamente importante no desenvolvimento do pensamento judaico e da Igreja primitiva. Mas não podemos pensar que o midraxe seja uma explicação definitiva da Bíblia. Ele nasceu em uma situação histórica particular que era o seu contexto natural: enquanto tal não pode ser transferido para outra cultura, como também não podem ser transferidos outros modelos conceituais” (J. L. Mckenzie).

No estudo dos gêneros literários da Bíblia, faz-se mister abordar o valor simbólico dos números. Ora, no Oriente Antigo, o número não era só um valor aritmético, mas possuía também um sentido de fundo filosófico e religioso. Por isso, na Bíblia, os números, não raras vezes, são utilizados simbolicamente, destituídos de seu valor quantitativo: “Parece que este significado era simplesmente parte do uso comum e não parte de qualquer especulação numerológica” (J. L. Mckenzie).

Dessa forma, o uso do número “4″ deriva, provavelmente, dos 4 pontos cardeais, dos quais procedem os “4 ventos”. Também 4 são as estações do ano. Trata-se, pois, do número utilizado para se falar do mundo em que vivemos.

O número “6″ se refere ao tempo, à evolução, à história, à imperfeição (daí o “666“, a imperfeição absoluta).

Emprega-se o número “7″ para falar da perfeição, do definitivo, do divino, da bênção e da plenitude da vida. Por isso, o 7 determina a estrutura da narrativa da criação (Gn 1). O “sétimo dia” é o dia do descanso de Deus e o sabbat (dia de repouso), do homem. Na genealogia, Henoc é o sétimo patriarca, depois de Adão. Com notável freqüência, aparece o número simbólico 7, nos dados sobre a idade de Lamec que vivera 777 anos, sinônimo de uma vida plena e abençoada (Gn 5,25.28.30). Assim, quando completara 182 anos (= 26×7), nasce-lhe Noé, o continuador da sua estirpe. O tempo restante de sua vida abrange 595 (= 85×7). Em Nm 23,1, os ritos de Balaão giram em torno do número 7 (7 novilhos, 7 carneiros e 7 altares). Os israelitas marcharam 7 dias em volta de Jericó, com 7 sacerdotes (Js 6,1ss). O sétimo ano é o Ano Sabático. Em Jr 15,9, o luto se abate sobre a mãe de 7 filhos, e se afirma que a matriarca Rute “vale mais que 7 filhos” (Rt 4,15). No Novo Testamento, Jesus diz a Pedro de perdoar “70×7” (Mt 8,21-22), ou seja, “sempre”. Sete são os primeiros diáconos da Igreja (At 6,3ss). No Apocalipse, o número 7 está por toda a parte: 7 Igrejas (1,4), 7 espíritos de Deus (1,4), 7 lâmpadas (4,5), 7 selos (5,1), 7 anjos (8,2), 7 trombetas (8,2), o dragão possui 7 cabeças (12,3), 7 são também as cabeças da Besta (13,1), 7 pragas (15,1), 7 taças (15,7): tudo isso para transmitir a idéia de totalidade e de plenitude.

O número 10 é preferido para as épocas históricas. Trata-se de um número redondo (2×5, a soma dos dedos) muito freqüente. É o número santo que já se acha nas palavras de Deus, pelas quais toda a criação foi chamada à existência (Gn 1); assim também na enumeração dos patriarcas, de Adão a Noé, bem como nos Mandamentos da Lei de Deus (Decálogo).

O significado do 12 deriva do sistema sexagesimal sumério, que sobrevive em nossa dúzia. 12 são os filhos de Jacó, que deram origem às 12 tribos de Israel. 12 são os Apóstolos de Jesus. Também com uma idéia de plenitude e de perfeição.

Vimos que, na Bíblia, certos números têm um valor convencional que ultrapassa seu valor aritmético. Apontamos o uso dos números 4, 6, 7, 10 e 12. Hoje, analisaremos outros números (2, 3, 40, 70 e 144.000), bem como as idades dos patriarcas. Com o presente artigo, concluiremos a abordagem sobre os gêneros literários na Bíblia. Contudo, por se tratar de algo assaz complexo e controvertido, voltaremos a essa questão, quando se fizer necessário. O número 2 pode significar “alguns poucos” (Nm 9,22; Dt 32,30; Os 6,2). O “dobro” é sinônimo de “bastante“, “mais do que suficiente” (Is 40,2; 61,7; Jr 16,18; Zc 9,12; Ap 18,6).

O 3 tem um papel em certos ritos (1Rs 17,21). Geralmente, indica algo referente a Deus ou à Sua vontade (Mt 17,4; 18,20; Mc 14,58; At 10,16; 1Cor 13,13; 2Cor 12,8; 1Jo 5,7).

O número 40 indica a duração de uma geração ou de um período bastante longo, cuja duração exata é desconhecida, ou algo difícil de se calcular (“nas línguas persa e turca a ‘centopéia’ é chamada ‘quarentopéia’“, Van der Born). 40 são os dias do dilúvio (Gn 7,12) e a idade núbil para Isaac (Gn 25,20). Os 40 anos do reinado de Davi (2Sam 5,4), os 40 dias da viagem de Elias (1Rs 19,8) e os 40 dias de jejum de Jesus no deserto (Mt 4,3; Mc 1,13; Lc 4,2), bem como os 40 dias que Jesus permaneceu na terra depois da ressurreição (At 1,3) são referências deliberadas aos 40 anos que Israel peregrinou no deserto (Ex 16,35; Nm 14,33; Dt 29,5).

Setenta é também um número redondo, de dimensões desconhecidas. Os filhos de Israel eram 70, por ocasião de sua entrada no Egito (Gn 46,27; Ex 1,15). Os anos do exílio são 70 (Jr 25,11). Há 70 anciãos de Israel (Nm 11,24). 70 anos são o tempo ideal de vida de um homem (Sl 90,10).

Ademais, podemos mencionar o número de 144.000 dos “assinalados” (Ap 7, 4ss; 14,1ss). Trata-se do quadrado de 12, número sagrado (o número das tribos de Israel e dos Apóstolos), multiplicado por mil, número de uma unidade militar no antigo exército israelita. Portanto, 144.000 indica a plenitude de Israel e da Igreja celestial em sua completude final.

Somente munidos de tais informações é que compreenderemos os dados relativos à idade dos patriarcas Abraão (175 anos), Isaac (180 anos) e Jacó (147). A decifração do simbolismo dos números lançou nova luz sobre este problema. Hoje, afirma-se com precisão que tais números não devem ser compreendidos como uma informação cronológica exata, mas como um dado teológico, que visa asseverar que foram largamente abençoados por Deus. Por isso, dever-se-á dispensar aquelas tentativas incômodas para tentar explicar a idade elevada dos patriarcas. Lembremo-nos que, nessa época, ainda não se tinha a concepção da vida eterna. Portanto, a retribuição divina se daria ainda nesta vida. Daí que numerosos anos de vida eram considerados como prêmio, bênção, e certeza da proteção divina para o fiel.

Pe. Ariosvaldo

Que possamos nos aprofundar ainda mais nos conhecimentos da Sagrada Escritura!

Paz amados(as)

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